domingo, 29 de junho de 2014

NEM O FILÓSOFO NEM O DOUTOR MERECEM.

Keylor Navas defende cobrança de Gekas e abre caminho para classificação da Costa Rica

Nós podemos até ser simpáticos e pacientes, mas certas partidas de copa do mundo nem deuses gregos salvam.
E se partir para a filosofia, amigos, o pobre Sócrates que disse um dia – “as pessoas precisam de prudência no ânimo e vergonha na cara” – se estivsse vivo, faria tremer as velhas pilastras que ainda resistem no velho Parthenon.
Porque não tem silêncio na língua certo, para completar a frase, com o perdão dos velhos Sócrates. O citado filósofo e o saudoso Brasileiro de Oliveira: 
- Oh partidazinha sem-vergonha essa entre as surpresas do  mundial.
Se muitos torciam por mais trinta minutos de Holanda e México, que não foram jogados, outros tiveram que aguentar os 120 com futebol de quinta que a Grécia e a Costa Rica apresentaram.
A exceção da pelada na Arena Pernambuco foi o goleiro Keylor Navas.
Quem assistiu ao campeonato espanhol e prestou um pouco de atenção além dos elencos de Real Madrid e Barcelona, lembrará das belas atuações do goleiro costarriquenho defendendo as cores do Levante.
Entre os jogos das últimas rodadas do Espanhol, figuram estupendas atuações de Navas nas vitórias do Levante sobre o campeão Atlético de Madrid e o rival Valência.
Registro aqui o fato que a Costa Rica segurou a vitória no tempo no normal com gol torto de Bryan Ruiz até o finalzinho.
Sokratis Papastathopoulos, o zagueiro do Borussia Dortmund empatou a pelejinha no apagar dos holofotes. Que iluminavam apenas o bom Navas em milagres operados frente a um cidadão chamado Mitroglous nos dois momentos finais do jogo. Do tempo normal e da prorrogação.
E quiseram os deuses, certamente dos ameríndios, que o bom Navas fosse personagem principal na classificação costarriquenha.
Foi dele a defesa que deu vantagem nas cobranças à Costa Rica.
O zagueiro Umanã garantiu a vaga inédita das quartas de final convertendo a quinta cobrança. 5 x 3
Não deu para o Sokratis Papastathopoulos tentar o seu segundo gol da noite que já embelezava o Capibaribe. 
Era dele a quinta cobrança grega.
Conste aqui que é completamente irrelevante essa última informação.
Mas não é todo dia que a gente digita um sobrenome desse.
Va lá até que seja um xará distante…
Por aqui, com a minha simpatia, apesar do baba...
Αντίο, Ελλάδα.

Foto: Ruben Sprich/Reuters

COBRAS LARANJAS SABEM DAR BOTES EM DUELOS AO SOL



Estratégia holandesa derruba México de Javier Hernandez que soca gramado do Castelão 

Não me chamem de doido. O calor foi decisivo para a classificação da Holanda às quartas de final sobre a guerreira, mas ingênua, seleção mexicana.
A explicação será dada, tenham certeza.  Mas vamos antes analisar um pouco este bom jogo, disputado sob um sol de rachar miolos na bela Fortaleza, o luxo da aldeia como bem cantarolou Ednardo.
Os mexicanos com mais ímpeto tentaram acuar a Holanda logo de início, o trio Guardado, Herrera e Giovane buscavam espaço para arremates ou servir a Peralta.
 A tática era correta, mas mostravam do outro lado um adversário calculista. Os holandeses, recuavam, mas arquitetavam um contra-ataque. Era até então, o que se imaginava ser a principal arma de Louis van Gaal, o técnico holandês. 
A bola sempre passava por Nigel de Jong, enquanto esteve em campo, ditava a construção do meio campo holandês, com Sneidjer caindo pela esquerda e Robben na rotação. 
Uma contusão tirou o ótimo meia defensivo do Milan e deu a Van Gaal a primeira das chances para conter a temperatura mexicana. Estrategista, com uma alteração,  colocou vigor físico e proteção em campo com Mathias Indi, deslocou Kuyt para a direta e trouxe Blind para a criação.  
Mas não era fácil.  E o México foi superior no primeiro tempo. 
Em pelos menos dois momentos com Layun e Herrera poderia virar o intervalo com vantagem no placar.
Pela Holanda, a bronca. Erro do árbitro português Pedro Proença em não marcar no finalzinho da etapa um penalidade clara sobre Robben. Foi atingido duas vezes na mesma jogada. E o apito não soou.
Mas serviu para acender o sinal de alerta.
A Holanda estava viva.
A pressão verde continuou a 40 graus e o gol veio logo no início do segundo tempo. 
O zagueiro Vlaar rebate errado de cabeça. Vem um chutaço de Giovane dos Santos sem chances para Clissen. México 1 x 0. 
O Castelão, com muchachos em maioria, vibrava e torrava em sol intenso. A vaga estava perto. 
Mas aí o técnico mexicano Miguel Herrera resolveu brincar com o coração da sua torcida. Encolheu o time. Pode até ter raciocinado com lógica, ao imaginar que trancava a possibilidade da principal holandesa funcionar. O contra-ataque com Robben. 
Mas Herrera esqueceu de um senhor mal humorado que estava sentado no banco laranja. 
A decisão pela retranca mexicana acontecia aos  15 minutos do segundo tempo com a troca  de Giovane por Javier Aquino. Povoava o meio campo. Recuava seus alas. E montava uma barreira para conter o adversário.
Mas se a copa tem uma cozinha, ela é da Holanda. 
Não deu outra.
Em trinta minutos, o bom goleiro Ochoa só faltou fazer chover embaixo das traves. Sortudo, quando não defendida, a bola batia em sua cabeça, batia na trave. E não entrava.
 Mas para a Holanda não tinha Ochoa nem chuva.
O calor e o sol inclemente permaneciam e veio o fato que prometemos explicar o início desta  crônica: o tempo de hidratação.
Tudo que Louis Van Gaal precisava para esfriar a cachola dos seus comandados e criar dois botes fatais.
O refresco virou castigo para o México.
Ali Van Gaal reposicionou Sneidjer em campo.
Seria o elemento surpresa em bolas paradas. Só que fora da área. 
O primeiro bote veio em um petardo do excelente meia do Galatassaray, depois de posicionamento, rastejante, excelente. Sem defesa para o bom arqueiro mexicano. Empate holandês.
Também do tempo de hidratação, veio a lembrança de Van Gaal para Robben repetir a mesma jogada do final do primeiro tempo.
Só que do lado invertido.
E ele, como serpente bailou sobre Rafa Marquez. O ótimo zagueiro perdeu o tempo da bola, não soube apenas cercar e, afoito, acertou Arjen. Mesma penalidade máxima, só que dessa vez o português apontou para a marca da cal.    
Klaas Jan Huntelaar bateu bem. Ochoa não saiu na foto.
Aos 48 minutos do segundo tempo.
Em seis minutos, na cara do apito final, as quartas para os muchachos foram para as cucuias.     
Em seis minutos, as cobras criadas da Holanda mostraram que estratégia e inteligência são essenciais quando tudo joga contra.
Um dos inimigos, o calor, virou aliado. 
Os de “Netherlands” também sabem: só pode haver um.
E as Cobras Laranjas são craques em dar botes certeiros nos duelos ao sol.

Foto: Eduardo Verdugo AP/Photo

sábado, 28 de junho de 2014

UMA SELEÇÃO NA MARCA DO PÊNALTI

O goleiro Julio César e o zagueiro David Luiz, destaques na 
vitória sobre os chilenos. Instabilidade emocional da seleção preocupa   

Na história das copas, a seleção brasileira nunca tinha decidido vaga nas oitavas de final em cobrança de tiros livres da marca do pênalti.
No México 86 perdeu para a França nas quartas.
Nos Estados Unidos 94 ganhou o título na marca penal.
Na França 98 seguiu para a decisão e foi vice.
No Brasil 2014 a seleção de Scolari mais uma vez testou cardíacos. 
Porque em um Mineirão fervente e tenso foram colocados na fogueira das penalidades 400 minutos para cada lado, nos quatro jogos disputados por brasileiros e chilenos no torneio. 
E era o quarto encontro em mundiais com o Chile de Bravo. Ou o bravo Chile, como queiram.
O Chile jogou como nunca. Perdeu como sempre.
Mas caiu de pé depois de cozinhar os miolos dos brasileiros no caldeirão mineiro em sol escaldante.
Antes, foram 120 minutos de sofrimento para quem sabe ou não sabe os segredos, as regras, os encantos e desencantos do futebol. 
Se houve entrega e superação, erros primitivos não faltaram. Os mesmos espaços escancarados no meio-campo para o adversário gostar do jogo surgiram no mediano time de Scolari.
O empate em um gol para cada selecionado foi suado e justo. David de joelho e cabelo a 18 minutos iniciais. Alexis Sanchez, 14 minutos depois, em falha infantil de Hulk e Marcelo, na faixa esquerda da até então eficiente defesa brasileira no jogo.
Quem poderia definir a peleja na etapa derradeira, sumiu, desapareceu, escafedeu-se.
Neymar e Oscar evaporaram na camisa canarinho.
O quarteto mágico chileno também virou éter.
As duas equipes foram ao limite extremo do cansaço físico e mental.
A prorrogação veio para extenuar de vez gente que corria atrás da bola. Porque de seleção não tinha sobrado mais nada, nem para brasileiros, nem para chilenos.
Eram bandos em busca de um lance fatal.
E foi a trave que salvou o Brasil em chutaço de Pinilla a segundos do juizão inglês acabar a agonia para começar outra. 

E o Brasil a traves e barrancos chegou nas quartas... 
Literalmente no chute errado de Jara, na penalidade decisiva.
Antes, não se pode esquecer daquele que de vilão desacreditado está virando herói, não por acaso, e sim por boas atuações: Julio César fez uma defesa muito difícil no tempo normal e pegou as penalidades de Alexis Sanchez e Pinilla na disputa final. Até as oitavas, tem presença destacada nesta copa do mundo
Este escriba, por exemplo, foi contra a convocação de Julio. Hoje fiz as vezes de um certo Luizito com a minha pobre língua. 
Ressalte-se que o placar que imaginamos para o jogo, foi o placar dos tiros livres.
O time preocupante de Scolari segue na copa, mas está na marca do pênalti. 
Deve uma apresentação que crave no seu torcedor a confiança de que chegará à final. 
Esse time ou muda a forma de jogar e equilibra o lado emocional ou não ganha a copa.
A possibilidade do título de hexacampeão do mundo está em jogo.
E não pode bater na trave.

Foto: The Guardian

MINEIROS

Scolari deixou analistas preocupados com  clima "inseguro" na última coletiva: matreirice?

Quem acompanha o Café na Copa vai se lembrar da nossa crônica de 18 de junho, “A Inspiração de San Jose”. 
Transcrevo parte peculiar a este belo momento do futebol para iniciarmos essa prosa.
Estava lá:
“Mas eu não canso de lembrar daqueles mineiros de San Jose em 2010. 
Setenta dias soterrados a 688 metros de profundidade. Sobreviventes, símbolos da coletividade. Heróis. 
Os 33 mineiros gravaram um vídeo de incentivo inspirador, para esses rapazes que estão correndo atrás da bola no Brasil.
Entre eles, estava um ex-jogador da seleção chilena de futebol. O meia Franklin Lobo Ramirez. David Vila, reserva no jogo de hoje, mandou duas camisas do Barcelona autografadas, à época. O pai e o avô de David eram mineiros.   
Desconheço melhor simbologia na história recente do futebol. 
Do subsolo ao pico da cordilheira. A odisséia está em curso.”
Retornando a nossa prosinha neste sábado mágico, as "Minas Geraes" recebem esse espírito andino e uma seleção valente para enfrentar os brasileiros na partida que abre as oitavas de final da vigésima copa do mundo.   
O Brasil vai enfrentar a segunda equipe que mais desarma no mundial.
O Chile do técnico argentino  Jorge Sanpaoli só perde até agora para os costarriquenhos em quesito crucial deste torneio.
Porque se esta é a copa das goleadas, das viradas, também é a copa dos contra-ataques.
E quem desarma e ganha a posse de bola, contra-ataca, caras coradas. A tática é óbvia e ulula.
O erro zero pregado por Luiz Felipe Scolari durante as preleções nos últimos dias é direto a esse ponto.
Na primeira fase foi o ponto fraco brasileiro. Os buracos deixados pelos laterais e na faixa intermediária da defesa pela nulidade de um dos meias defensivos não podem se repetir diante da habilidosa linha de frente chilena. Aránguiz, Vidal, Vargas e Sanchez. Que vira sexteto muitas vezes com o apoio dos alas Isla e Mena. Fernandinho ganhou confiança e joga. Daniel, garantido, e Marcelo vão precisar jogar muito mais do que jogaram na fase inicial.
Como o time canarinho inteiro.
Mas é para essa cruzada andina no ataque que faz o gaúcho Scolari dar sinais de matreirice. Como fez o seu colega holandês van Gaal, no partidaço que a Holanda derrubou o Chile.              
Matreirice gaúcha?
Ou inspiração mineira?
Guimarães Rosa costumava dizer que ser mineiro, entre outras coisas, é não dizer o que faz, nem o que vai fazer. É fingir que não sabe aquilo que sabe não é dar rasteira no vento e só arriscar quando tiver certeza.
“Ser mineiro é ter simplicidade e pureza, ter humildade, modéstia, coragem e bravura, e elegância”, definia o mestre.
Os mineiros e o mundo assistirão a um espetáculo de futebol.
Que o vencedor se valha dessas inspirações.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

ALEMÃES: NÃO MORDAM A LÍNGUA

Diário argelino Planete Sport celebra feito inédito de Brahimi, Feghouli & cia 

Enquanto a Bélgica mais uma vez jogava pedra em santo e alcançava 100 % de aproveitamento sem convencer ninguém com 1 x 0 chocho sobre tresloucados coreanos, os russos lutaram, lutaram por um golzinho salvador até o final para conquistar a vaga, antes imaginada como barbada.
Porque estavam à frente do placar até os 14 minutos do giro final. Mas viram o seu goleiro falhar de novo e decretar o empate da Argélia.
Igor Akinfeev foi o pior guarda-metas da primeira fase da copa do mundo. Até que duelou no triste posto com o ganês Dauda que espalhou penas em Brasília no gol de Cristiano Ronaldo.
Mas o russo falhou uma contra os coreanos. E falhou duas contra a Argélia, ao voar errado e catar o nada em lance capital para o futuro da seleção dele na copa.
Brahimi cruza invertido da esquerda, Afinfeev passou lotado e Slimani marca o gol mais importante para os argelinos na sua história até agora nas copas.
Os fãs do goleirão do CSKA Moscou vão alegar a existência do laser na torcida. Mas os brejos do mundo estão cheios de vaquinhas inconformadas.
A Argélia é a segunda seleção africana que garante passagem para as oitavas de final da copa de 2014.
No caso dos argelinos, um fato inédito, mas que poderia ter acontecido há 32 anos.
Na copa realizada na Espanha, em 1982, a Argélia do ótimo meia Madjer surpreendeu o mundo batendo os alemães por 2 x 1.
Na rodada final da primeiras fase, em 24 de junho, venceu o Chile por 3x2.
Precisava apenas que no dia seguinte os mesmos alemães vencessem a Áustria por três gols de diferença.  
Por outro lado, se houvesse empate ou vitória austríaca, os alemães voltariam para a casa.
O placar mínimo não só classificou os germânicos como os seus vizinhos. As duas seleções festejaram juntas em campo a classificação dupla.
Esse confronto, no mínimo estranho, é conhecido na história como o "jogo da vergonha".
No próximo dia 30 de junho de 2014. Alemanha x Argélia vão a se encontrar pelas oitavas de final de uma copa do mundo.   
É impossível não lembrar do filósofo alemão Friedrich Niestzche em sua Gaia Ciência e o conceito do "Eterno Retorno". Está lá, com petardos de contemporaneidade:   

"Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar e tudo na mesma ordem e sequência"

Em dia em que mordida foi a bola da vez, fico com Língua, poesia na lata do Caetano:
"Está provado que só é possível filosofar em alemão."
Será, mano?

O XARÁ DO GERD, O NAUFRÁGIO GAJO E A GRANA DOS GANACIOSOS

Capa do periódico alemão Sport Bild destaca a "máquina de gols" Thomas Muller

Thomas Muller segue com a tradição artilheira da Alemanha em copas do mundo. Como Gerd Muller seu quase xará. Como Miroslav Klose, seu parceiro.
Foi dele o único gol na Recife chuvosa sobre os americanos.
Além de se destacar, ao lado de Bastian Schweinsteiger, no embate sem lá muita graça na Arena Pernambuco. 
Muller divide a artilharia da copa com Neymar e Messi com 4 gols.
Como a Alemanha divide com Brasil e Argentina a nota 6 entre as seleções ao final da primeira fase da copa.
O futebol só tem a ganhar com a melhora de rendimento desses selecionados.
Até porque a temporada de provas finais vai começar.
E quem não tirar nota 7 pra cima, dificilmente passa.
Sobre Portugal x Gana, um craque tinha de "fazer chover" em Brasília para a esquadra portuguesa prosseguir em campos brasileiros.
Cristiano, o Ronaldo, trouxe até um pingo de esperança na magra vitória sobre a Grana (ops!), perdão, Gana por 2 x 1. 
Mas chuva mesmo se mandou de mala, cuia e despencou em Pernambuco. 
Em Brasília, só naufrágios.
O gajo penteado não evitou o desastre luso.
Como não adiantou a montanha de dólares para turbinar o timininho ganês, afogado em... ganâncias.
Nota zero. E o caminho é o de casa.

Foto: reprodução Sport Bild 

DENTE POR DENTE E MORDAÇA


Punição de 9 jogos da FIFA afasta o atacante Luizito Suárez do Mundial no Brasil. 

Suarez é punido. Fora da copa. Gancho de nove jogos. Fora de atividades relacionadas ao futebol por quatro meses.
Justo? Exagerado, mesmo que a justiça tenha prevalecido. 
Mas o veredicto foi decidida por quem? 
Quem são os membros desse tribunal que puniu Suarez? De onde eles saíram? Esse Tribunal(?) da Fifa onde é legitimado? 
Não se discute que o ato bizarro de Suárez, como outras violências absurdas em qualquer esporte, sejam punidas. Mas não por Tribunais de Exceção.
Não se discute a ação do atacante uruguaio. 
Cravou-se o castigo à sua reincidência vampiresca, que cabe até reflexões psicológicas, sem julgamentos obviamente, a essa cena dantesca contra a Itália em performance "al dente".
Porque quem acompanha futebol à beira da gramado, sabe que bizarrias e mais bizarrias acontecem dentro das quatro linhas. 
Como na vida sorrisos, muitas vezes, provocam estragos bem piores do que mordidas. Afagos atingem muito mais do que pedradas.
Por isso fico a refletir...
Todo golpe baixo que acontece no mundo da bola será agora punido também?
Olho por olho, dente por dente?
E essa punição de afastar o Suárez de qualquer atividade relacionada ao futebol?
Mordaça?

Foto: Galo Images

quarta-feira, 25 de junho de 2014

CAIU CEDO OU JÁ VAI TARDE?



França de Bacary Sagna não repetiu atuações anteriores contra Equador sem brilho 

A seleção do Equador é a única das sul-americanas que vai arrumar as malas e voltar para casa após a fase de grupos na copa do mundo.
Se já não tinha preparado a bagagem, antes de seguir para o Maracanã.
Pelo 0X0 insosso frente aos franceses, os passaportes já deviam estar carimbados.
Caiu cedo, com o perdão da piada pronta em referência ao seu atacante de alcunha premonitória e que demorou, literalmente, a ser utilizado no jogo decisivo.
França e Suíça, que bateu Honduras por 3x0 em Manaus, são os únicos europeus classificados até agora em dobradinha nos grupos.
Amanhã, 25 de junho, belgas e russos podem repetir o feito.
Alemães e portugueses? Só se os germânicos derrubarem os ianques e um gajo de prenome Cristiano fazer chover em Brasília.

Foto François Xavier Marit AP/SIPA

O RETRATO DO ARTISTA QUANDO CRAQUE



Argentina fecha fase de grupos com 100% de aproveitamento e Lionel Messi decola.

Há um poema essencial na obra de Manoel de Barros chamado “o retrato do artista quando coisa”.
Um dos grandes poetas vivos desse mundo desfila por lá versos como:
“Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça…
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.”
No futebol, quase sempre você não sabe de tudo.
E é um palco de surpresas e emoções de se perder fôlegos.
Como os dois gols relâmpagos para Argentina e Nigéria.
A pancada de Angel Di Maria na trave, o rebote nos pés do mestre. Messi 1 x 0
Na copa dos gols, a Nigéria ainda não tinha sofrido nenhum. 
A surpresa um minuto depois, a bela construção nigeriana. O chute plástico do Musa vence Romero. Era o empate e o relógio não marcava cinco minutos de jogo.   
O Gigante da Beira Rio pintado de azul, com réstias aqui e ali de vermelho colorado; e pingos de verde vivo. Em um imenso tabuleiro de cores.
E para ser belo e contagiante, o futebol precisa de pinturas.  
Com a irresponsabilidade dos artistas, Lionel Messi já é arquiteto e artista de obras primas nesta copa do mundo. E provoca tonturas em encantos, como foi o segundo gol marcado.
Como uma pincelada visceral, o dez argentino retirou em mistura oposta nas paletas da firmeza e da suavidade a bola do retângulo verde e a deixou em suspensão, em parábola, em destino incerto para desavisados, certeiro para os encantados.
A explosão do artista, depois da obra assinada era como se quisesse alçar voo na invenção da tarde 
Era o gozo da sua criação.   
Na virada de tempo, Argentina na frente.
Mas a Nigéria é valente e tem o “Musa da Copa”.
Confusa, a defesa da Argentina destoa, se atrapalha. Novo empate verde.
Beira Rio, em Porto Alegre, e a Fonte Nova, em Salvador, faziam, em paralelo, um duelo narrado com ineditismo em copas. Qual será a Arena dos Gols?
O jogo simultâneo apontava Bósnia 3 x 1 Irã. Eram já 21 gols na Fonte.
Com o gol da vitória argentina, marcado de canela por Rojo, o Gigante gaúcho computa 19 tentos marcados após o 3x2. 
Dos três selecionados que já enceraram a primeira fase com cem por cento de aproveitamento, dois são da América do Sul. Argentina e Colômbia. O outro é a Holanda 
São cinco países do continente já classificados, mesmo número observado em 2010. 
Há um ditado bem conhecido no cone sul. “Deja todo en la cancha”. 
E um trio de hermanos daqui chama a atenção desse escriba. 
Chilenos, uruguaios e argentinos. Estão deixando tudo na cancha. No palco dos confrontos.  
Pela entrega real. E pelo final do poema que abriu essa crônica .
“Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim a importância de catedral.”
Porque ciscos, fiapos e retalhos de raça, alma, empenho, honradez, garra por certo seriam encontrados no gramado das arenas após todo jogo latino. Se toda peleja fosse um poema de Manoel de Barros.
Nas jornadas argentinas, mais dois itens estariam esparramados por lá. 
O pincel e a paleta dos gols de Lionel Messi.

terça-feira, 24 de junho de 2014

A BATALHA DAS DUNAS COM A BOLA NOS DENTES



   Foram 20 minutos que valeram 90,  com direito a dentadas, expulsão, herói e vaga celeste   

Só no futebol se explica. 
Com seus guerreiros a sol e sombra. E um mundo de apaixonados na assistência.
O futebol arranca páginas cartesianas. Com lágrimas e sangue nos olhos, decide nos detalhes o arco do que é possível. 
E no mundo da bola, não havia previsão do que ia acontecer no Rio Grande do Norte nesse décimo terceiro dia de copa.
Para seguir às oitavas, o Uruguai precisava da vitória. A Itália jogava pelo empate
A Arena das Dunas exibia seus cinquenta tons de azul. Do azurra ao celeste. Passando pelo céu claro de Natal, uma das mais desiguais e belas capitais nordestinas.
Bela e quente. 
E em mais 45 minutos iniciais nos jogos programados para uma da tarde, o futebol praticado por uruguaios e italianos foi bem abaixo da média deste mundial. 
É o futebol. Onde correr e lutar atrás de um bola subverte climas. Inverte o desejo de poetas a desvendar esquemas táticos e agiganta o poder das cartas a invadir a mente de futuros heróis.
Como fez o zagueiro Lugano, ausente do decisivo duelo em azul e branco. O capitão uruguaio, em fortes linhas escritas antes do confronto contra os italianos, moveu os seus companheiros em campo. Uma carta pode ter entrado para o patamar das belas histórias que só o futebol produz .
É o mágico e singular futebol. De atos nobres e golpes baixos. 
Se nas crônicas de adversários brasileiros, as cotoveladas de Pelé e Leonardo nas copas de 70 e 94 são relembradas, os italianos vão falar muito da mordida de Luizito Suárez no zagueiro Chiellini. O dentuço atacante uruguaio já coleciona essa atitude bizarra em outras ocasiões. Holandeses e ingleses que o digam. 
O cartão vermelho não saiu do bolso do mexicano Marco Rodriguez. E já tinha saído antes deixando a Itália defensiva à beira do abismo. 
O que dizer da entrada violenta de Claudio Marchisio? O meia da Juventus esquece a bola e atinge o joelho de Arévalo Rios. O apitador mexicano não pestaneja e aplica a tarja vermelha em expulsão correta. 
É o jogo brigado e o placar imóvel. E a torcida tensa e acalorada. O suor no rosto, a apreensão. A imprevisibilidade. 
É o futebol que move. Montanhas imaginárias são escaladas. Dunas são transpostas. Muralhas são vencidas.
Porque o excelente goleiro Buffon era candidato a herói. Foram duas defesas com nível de dificuldade extremo, praticadas um em cada tempo. 
Aos 35 minutos do giro final, escanteio para o Uruguai. Gaston Ramires cruza e a Arena troca de herói num estalo de dedos. O arqueiro Buffon, o das defesas salvadoras, aquele que parou frente a frente os atacantes celestes, viu um zagueiro com nome épico surgir no ar. O gigante Godin, de costas, faz o gol decisivo. De costas.
É a magia dos desenhos invisíveis que só uma esfera faz. 
E só um escrete sai vencedor. 
É o Uruguai, o bravo Uruguai. 1 x 0.
A partida vai a 50 minutos. Número emblemático para essa Celeste a subir mais um degrau. Os italianos, exaustos, caem de pé. 
A copa fica cada vez mais latina.
Lá se foi mais uma para história onde arte, matemática, superação, heroísmos e covardias se misturaram em uma partida só.
Com a bola nos dentes depois da batalha das dunas.
Só no futebol se explica.

Foto: TV Sport  

segunda-feira, 23 de junho de 2014

COM PÉS NO CHÃO POR UM BELO HORIZONTE

  Para muitos, a copa começa agora. Seleção confia no  talento de Neymar  e não pode errar 

Em 1974, o Brasil precisava ganhar por uma diferença de três gols a medíocre seleção do Zaire, hoje república do Congo, para avançar na Copa da Alemanha.
Aos 34 minutos do segundo tempo, o gol salvador de Waldomiro, ponta arisco do Internacional, fez a conservadora comissão técnica da época respirar aliviada.
40 anos e um dia depois, a situação foi parecida. À frente a fraquíssima seleção de Camarões. Aos 38 minutos do segundo tempo a seleção de Luiz Felipe Scolari, vencia por 3x1. No outro jogo do grupo, que ocorria simultaneamente, o México chegava a 3x0 sobre a Croácia e empatava com os brasileiros no saldo de gols. Não havia o perigo da desclassificação, mas deixaria a seleção de Scolari em caminhos perigosos. Mais um tento mexicano e o Brasil iria enfrentar a Holanda nas oitavas de final.
Mas aí houve um novo respiro de alívio  que poucos viram no estádio Mané Garrincha, em Brasília. O de Carlos Alberto Parreira, pertencente as duas comissões, a de 1974 e da atual, e coadjuvante dos dois episódios similares.  
A história mudou com um golaço, marcado por quem rendeu a melhor notícia da jornada candanga desta vitória brasileira. A entrada de Fernandinho. O meia do Manchester City depois de construir a jogada do terceiro tento, desencantado por Fred em condição legal, assinou uma pintura em belíssima triangulação com o mesmo Fred e o brigador Oscar.     
Se a tarde foi de Neymar em estupenda atuação e dois gols marcados, foi o jogo para dobrar a teimosia de Scolari na insistência com a má fase de Paulinho.       
Se Neymar foi o dono do jogo, Fernandinho é o mentor da vaga. 
Foi também jornada para ver David Luiz em belas assistências e lançamentos, mas para ficar atento em falhas defensivas e espaços abertos na faixa intermediária, permitindo o avanço adversário sem combate algum. Isso permite ataques e contra-ataques adversários normalmente com alas acionados. Cruzamentos e assistências eficazes são comuns.    
Lá em 74, como se sabe, a seleção brasileira seguiu na competição bateu alemães orientais, argentinos e parou no carrossel de Hendrik Johan Cruyff & Johan Neeskens com uma verdadeira aula de futebol contemporâneo dada pelos holandeses em uma noite gelada. Os tricampeões mundiais, à época, caíram nas semifinais por 2 x 0.
Antes do vexame de Dortmund, o mediano treinador Mário Jorge Lobo Zagalo afirmava: O time deles é bom, mas os holandeses não têm tradição em Copas e isso pesa. A Holanda não me preocupa."
Deu no que deu.
Aqui em 2014, Nesse sábado decisivo também para os holandeses, Johan Cruyff, o craque que calou a boca do “Lobo” chamava a atenção do técnico Louis Van Gaal para o seu selecionado começar a jogar o bom futebol. Van Gaal aplicou dois botes no Chile e conquistou o primeiro posto do seu grupo.
Enquanto isso, os membros da comissão técnica brasileira, Scolari e Parreira, se não desfilam espetáculos da soberba de um Zagalo, dão declarações como se estivessem acima do bem e do mal ou em outro planeta.
O mesmo conselho do Cruyff para van Gaal pode ser dado para Luiz Felipe e Parreira. Os dois treinadores brasileiros chegaram ao absurdo de afirmar que a bizarra seleção camaronesa era candidata a outra vaga do grupo. 
Camarões virou perigo por obra de erros brasileiros.
O Chile é perigoso pelo futebol que joga.
Depois do centésimo jogo brasileiro em mundiais, onde o centésimo gol desta copa louca foi marcado ainda na fase de grupos e por um camisa dez, chegou a hora. 
Foi o último dos embates brasileiros onde se podia errar.
Agora o futuro da seleção de Scolari será lançado em Belo Horizonte. 
Para confrades que amam o futebol, a copa começa agora. E o local não poderia ter nome mais apropriado.

Foto: Pixatlon/SIPA

O MECÂNICO LARANJA

Arjen Robben, mestre em contrataques, mais uma vez decisivo para a vitória holandesa 

Itaquerão, 23 de junho. Copa do Mundo de 2014. 
Palco para decidir a colocação das já classificadas Holanda e Chile para as oitavas de final.
O selecionado do irrequieto Jorge Sanpaolli poderia se sentir em casa no Itaquerão ensolarado. 
Por razões que vão muito além do sobrenome do seu treinador.
Maioria da assistência era roja, clima de festa épica, hino a capella. Latinidades. 
Mas tinha um time laranja do outro lado.
E um estrategista com quilômetros rodados no seu comando.
E quem há de negar que os holandeses foram superiores?
Este escriba não vai se atrever. 
A linha de ação montada por Louis van Gaal deixou os ávidos chilenos tomarem conta do campo, gastarem o gás dos impetuosos. Os holandeses esperavam.
Matreiros.
Vez por outra, um arranque de Robben, uma articulação de Sneidjer e o recolhimento, o estudo. A sapiência.
Não houve retranca holandesa. Houve momentos sinuosos, prontos para um bote. Ou dois. 
E van Gaal sabia que a estatura da defesa chilena era um dos pontos fracos.
Leroy Fer, atacante do Norwich City, com seus quase 1,90m, saiu do banco de reservas orientado de como se posicionar entre os zagueiros de estatura mediana. Cabeceou com estilo sem chances para Bravo. Tento com dedo e mensagem no ouvido do técnico holandês ao seu pupilo grandalhão. Chilenos desarticulados. Sanpaolli sem cabelos para arrancar. 
Outra das táticas para atingir as vulnerabilidades sul-americanas já tinha sido usada na segunda metade do primeiro tempo. Também seria na última faixa do giro final. 
Van Gaal, cartesiano, também sabia que o Chile dando espaços, o arranque de Robben seria fatal. 
Em mais uma arrancada espetacular do melhor atleta da copa do mundo até agora, a Holanda matou o jogo. Ninguém segura Robben. Ele serve com muito suco e muito afeto a Memphis Depay. 
Cortejado pelo Tottenham, mas ainda do PSV, Depay 2 x 0
Ele também saiu do banco de reservas, orientado por Van Gaal, para garantir a liderança.
Van Gaal. O mecânico laranja.

Foto: The Guardian

domingo, 22 de junho de 2014

RAIS, CAMUS E A BELEZA DO FUTEBOL EXISTIR



O futebol fascina por surpreender.
O que esperar de um domingo à tarde de junho em uma copa do mundo realizada no Brasil?
Se você, amigo leitor, respondesse “Argélia x Coreia do Sul”, certamente alguns apressadinhos recomendariam um termômetro ou um exame de sanidadade. 
E com toda a certeza não acompanhariam este escriba em um dos mais divertidos duelos deste, aí sim, torneio cada vez mais doido.
Porque a Argélia, ao golear a Coréia do Sul tirou 32 longos anos de jejum de vitórias em copas e ainda encaminhou uma classificação inédita.
E porque a rede balançou seis vezes no embate onde honra e emoção se misturaram ao ofício em campo. 
A Argélia com seus filhos que geraram para o mundo um certo Zinedine Zidane, deu ao público do Gigante da Beira Rio um recado que não estão para brincadeira.
Na virada de tempo, em onze finalizações contra nenhuma do adversário, já venciam por 3x0.
No final, bateram coreanos instáveis por 4 x 2, com direito a um golaço do bom Brahimi, em ótima construção saída dos pés de Feghouli. 
Certa vez em 1949, o primeiro pedido que o jornalista e filósofo Albert Camus fez aos seus cicerones, em visita ao Brasil, foi que o levassem a uma partida de futebol.
Uma tuberculose temporarária impediu que o mentor do existencialismo seguisse outra carreira. A de goleiro. E quem o viu em ação dizem que jogava muito bem. 
Hoje, uma das mais belas defesas deste mundial foi pintada por Rais M’Bohle, franco/argelino tal qual o Camus. 
Decisiva em momento crucial. 
Porque os coreanos chegaram a esboçar reação. Absurdo seria, mas de absurdos a Argélia de Camus conhece bem. 
Como absurdo é pensar que em um domingo à tarde, o jogão seria protagonizado por argelinos contra coreanos.
E foi.
E foi também um espetáculo da entrega de dois selecionados, que se não forem lá para a beira das decisões, cairão de pé. 
Porque finalmente “o que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol”.

TEMPO QUENTE, JOGO MORNO E RISCO DO BALDE DE ÁGUA FRIA

Origi, 19 anos, substituiu Romelu Lukaku e garantiu classificação belga para as oitavas
  
Seleções que poupam o preparo físico nesta copa de tirar o fôlego têm causado castigo inesperado para quem assiste aos jogos da "lua das 13 horas".
Porque jogo bem jogado, nesses casos calorentos, só está sendo visto nos 45 minutos finais de cada peleja.   
Principalmente quando qualquer selecionado europeu esteja em campo.
A tática é freio puxado no primeiro tempo de cada jogo,
Foi assim com a Holanda contra a Austrália. a Itália contra a Costa Rica. A Bélgica contra a Rússia.
A única exceção? A Alemanha no atropelo sobre os portugueses na Fonte Nova em Salvador.
Sol castiga. Seja o craque ou não.
Mas no caso da Bélgica, além desta estratégia, houve o sumiço do futebol, fato ocorrido também com os italianos.
Nem sombra do praticado na Eurocopa e nas Eliminatórias.
No Maracanã, os belgas conseguiram a classificação em apenas 10 minutos com prática de futebol, no máximo razoável.
E foram nos momentos finais do embate.
Isto porque Hazard resolveu jogar bola. A vitória sobre a Russia, no gol solitário do jovem Divock Origi praticamente garantiu primeiro posto do grupo. E algo me diz que os russos vão embora pra casa mais cedo.
Faça sombra ou faça sol.

Foto Kiril Kudryavtsev AFP/Getty Images 

sábado, 21 de junho de 2014

NIGÉRIA: PROCURA-SE UMA TORCIDA


Gol "estrangeiro" de Dermwingie deixa Nigéria com chances de vaga. Irã também briga   

Iranianos vão tentar em Salvador contra a desclassificada Bósnia, classificação inédita para as oitavas de final.
Time do Dzeko, com futebol oco, é uma das decepções da primeira fase e está fora.
Nigéria em gol único de Peter Dermwingie - nascido no Uzbequistão e naturalizado nigeriano -  também sonha com a última vaga do grupo. A outra é do time de Messi.
Destaque para a boa construção do incansável Ermenike, estrelinha solitária em jogo abaixo da média deste mundial
Para seguir às oitavas, os nigerianos vão tentar em Porto Alegre quebrar o tabu pra cima dos argentinos em copas do mundo. Três jogos, três vitórias hermanas.
São esperados duzentos, isso mesmo, duzentos mil torcedores argentinos na capital gaúcha.
Será interessante a comunidade afro de Salvador, em comportamento óbvio, torcer pelos bósnios em prol do sucesso nigeriano, mesmo distantes do embate nos pampas.
Mas será que esta comunidade estará presente na Fonte Nova?


O JOGO QUE NÃO TERMINOU

Miroslav Klose sai do banco e entra para a história. Iguala marca de Ronaldo: 15 gols 

Com dois gols para cada lado marcados em um segundo tempo eletrizante, Alemanha e Gana foram protagonistas de uma grande partida de futebol.
Mais um batia jogo desta copa do mundo no Brasil.
Aplacados por uma marcação forte, os alemães assistiram a uma bela jornada dos irmãos ganeses Jordan e Andres Ayew.
Curioso é que Jordan substituiu Kevin Prince Boateng irmão de Jerome, que vestia o uniforme germânico. Sim, os dois manos adversários, apagados, foram substituídos justamente quando a partida se transformou em espetáculo épico.
Os irmãos Boateng perderam de participar de mais uma bela página da história desta copa. O segundo tempo de Alemanha e Gana.
Por muitos sentidos e fatos um jogaço se constrói.
Para se fazer um jogaço, qualquer maneira de fazer gol vale a pena. E Mário Gotze, sabendo disso, fez o primeiro gol de joelho desta copa. Qualquer maneira de fazer gol sempre valerá
Para se fazer um jogaço tem que ter a marca dos craques, exibida no talento e na eficiência de Andres Ayew ao empatar o jogo sem dar tempo aos alemães de soltarem a respiração.
E olha que o segundo gol de Gana também foi histórico para Asamoah Gyan. O atacante não envergava a camisa três por acaso.
É o primeiro jogador do continente africano a marcar em três copas diferentes. Além disso, entre as seleções da África, só ele e o camaronês Roger Milla balançaram por cinco vezes as redes adversárias em mundiais.
E o gol era da virada. Era da explosão das estrelas negras em mais um contrataque eficiente do torneio.
Mas do outro lado tinham sete finais e três títulos mundiais simbolizados no uniforme. E um time recheado de estratégias.
Porque para se fazer um jogaço tem que ter cartas na manga. E a Alemanha de Bastian Schweisteiger provou isso com a entrada decisiva do seu melhor jogador.
Ele desarmou e desconstruiu ataques de Gana. Ele encaixou a arquitetura dos ataques alemães em passes precisos e avanços agudos pelos lados do campo. E foi assim que os alemães conseguiram o empate suado. Passe de Schweisteiger para Mezuit Ozil. Cruzamento. Ganeses afastam. Tiro de canto.
E para se fazer um jogaço tem que ter marcas históricas. O Castelão viveu um dos momentos mais aguardados desta edição de copas. A assinatura foi de um polonês naturalizado alemão que deixou um brasileiro de biquinho magoado. O ex-jogador Ronaldo Nazário, aquele que troca de opinião como troca de camisa.
Miroslav Klose alcançou a bela marca de 15 gols marcados em quatro copas do mundo. Foi o segundo e importantíssimo tento alemão.
Cambalhotas no Ceará.
Klose igualou a marca do secador Ronaldo que conclamou a torcida brasileira a segui-lo na sua grotresca e antidesportiva atitude. Não deu liga e agora, politicamente, "parabeniza" o seu algoz.
Para se fazer um jogaço tem que ter superação e os dois selecionados terminaram extenuados em campo, mas passaram a sensação de que queriam mais. Muito mais.
E foi esta impressão desse escriba que começa a imaginar até onde esta copa vai chegar.
Alemanha 2 x 2 Gana foi o jogo que não terminou.
Jogo? Por favor, mudem o titulo.
Jogaço!

Foto: Getty Images

NO TIME DO PAPA QUEM TEM MESSI PRECISA DE REZA?

Aos 45 do giro final, a salvação argentina  Messi em arremate fatal. Na frente do Reza.   

A Copa do Mundo no Brasil é a grande prova para Lionel Andrés Messi.
Dentro e fora da Argentina este pensamento é recorrente. 
Defendido por aqueles que para ser craque, tem que brilhar em copas.
O brasileiro Zico, genial no Flamengo e regular em três edições do mundial, é um bom exemplo dessa tese. E que rende bons debates. 
Na opinião desse escriba, Messi é craque e ponto. Mas não faz uma grande copa até agora, apesar dos gols salvadores para a sua seleção. 
Nas duas partidas já realizadas pelos hermanos, Messi foi mediano. Mas mortal por ser craque.
Hoje em mais um espetáculo de latinidade nas arquibancadas do Mineirão, Argentina contra o Irã. Aos 45 minutos do giro final, Messi venceu o bravo goleiro Haghighi e deu a vitória em placar simples à Argentina. 
Repetiu o roteiro, as passadas, a inclinação, o deslocamento diagonal e o chute no canto direito como fez contra os bósnios. Gol com a marca LM, literalmente.
Messi posicionado entre as linhas como passador e pensador, mas também como finalizador é a principal arma de Alejandro Sabella em momentos decisivos. Assim foi feito, principalmente no final do jogo. Assim veremos mais vezes. 
Mas foi difícil, osso duro, para a Argentina. Tudo levava a crer que o caminho ficaria parecido como está o do Brasil na copa.
No primeiro tempo, se houve um domínio que beirava os 80% na posse de bola, na segunda metade da etapa final, o Irã assustou e muito. 
Em uma das tentativas, o atacante Reza Ghoochannejhad, que joga na tereira divisão inglesa, venceu a irregular zaga argentina. 
Na copa das tiradas, é irresistível: se a Argentina tem o papa Chico, o Irã tinha Reza. 
Foi um dos melhores e surpreendentes lances da jornada, no qual o atacante iraniano quase provoca um milagre. Não fosse o toque salvador de Romero.
Estou dizendo que é a copa das tiradas?
Tiradas porque a vida é bacana. Reflexões porque esse é o nosso ofício. 
Um provérbio iraniano diz que a verdade é como um espelho quebrado, cada um recolhe um pedaço e diz que a verdade está naquele caco.
A Argentina superou o Irã com tento solitário daquele que é a sua maior esperança. Venceu em chute certeiro um desperado Reza, dando uma de zagueiro. 
E como acontece em tudo na vida, muitos só lembrarão do último suspiro no jogo bem mais ou menos dos sulamericanos no Mineirão. E decantarão Lionel Messi, como o máximo.
Por uma semana ou pela vida inteira.
Com cacos quebrados ou com a verdade nas mãos.

Foto: Clarín, Carlos Sarraf

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O SHOW DA FONTE NÃO PODE PARAR


Valbuena marca o terceiro gol francês na goleada sobre a Suíça em Salvador

Em muitas das edições de copas do mundo, o futebol bonito ficou para trás e o feio levantou a taça.
Brasil em 1950 e 82, Hungria em 54, Holanda em 74 e 78, a França de 2006. Belos escretes. Doídas lembranças. 
Nesta edição espetacular no Brasil, será bem difícil esse tipo de injustiça prevalecer.
Porque são muitas as seleções que desfilam em partidaços para quem gosta ou não de futebol.
E a França de Karim Benzema é uma delas.
Quem esperava um cadeado suíço em Salvador, viu a porteirta aberta.
Olivier Giroud, quase xará de um papa da arte seqüencial, Jean Giraud, abriu em bela e plástica cena. França 1 x 0.
Na sequência, enquanto este escriba digitava, Blaise Matuidi, em ótima arrancada, faz o segundo...
O ala/meia liso e desenvolto do Paris Saint Germain recebe um passe “caolho” e sem toque do Benzema. Pintura tática. 
Velozes e arrebatadores eram os franceses. 
Estáticos e tontos, os suíços caíam. 
No finalzinho da etapa inicial, aos 39, em mais um contrataque eficiente na copa do mundo, veio o nocaute. 
Giroud, gastando a bola, serve uma delicateseen para Valbuena. O meia avançado do Olympique de Marselha não perdoou. 
Trinca francesa em cima dos suíços.
Três jogos em Salvador. E já eram treze "bolas na rede". 
No caso de le Bleus, aromas de liberdades, igualdades, fraternidades na arena em festa. E na Bahia, diversidade é bem vinda. A babel dos elencos em campo, que o diga. 
A trilogia das cores estava escrita na fonte dos gols, mas em progressão geométrica. Mais quatro tentos viriam.
Os oito Orixá dentro das águas do Dique do Tororó por certo estão em clima de bonança neste junho. 
A França, jogando de branco em uma sexta-feira, só ajudava. 
Porque o giro final também foi massa, para brindar uma expressão bem baiana.
O quarto gol caiu de maduro para um dos melhores do jogo. 
Aos 21, Pogba que entrou bem no lugar de Giraud, serviu a Benzema. À benção, Bahia. 
4 x 0, Bleus.
Seis minutos depois, o quinto. O bom Sissoko, outro reserva de ponta que infernizou Sendereos e Rodriguez. Foi dele a mão cheia em belo chute.
A fonte é dos gols e o jogo é jogão.
Os suíços reagem.
Aos 35, Dzemali faz o primeiro gol de falta na copa do mundo. 
Os suíços não morrem. 
Xhaka em belo arremate de primeira na grande area. 2 x 5.
A torcida berra, canta. Inebriante. Show de bola. E não pode parar. Não pode.
Nos últimos segundos, Sissoko disparou pela ala direita, rolou para Benzema. A batida precisa, a bola em suspensão, na curva fatal em direção à rede, e… o arbitro já havia apitado o final!
Seria o sexto gol. Mas ficou suspenso. E o belo tento do Karim se foi. Por certo, para a Terra Onde os Gols são Inventados. 
A Fonte Nova entrou para a história das copas. 
Por lá, gol ultrapassa até o limite do tempo. 
Fazer o quê? 
O juiz era um chato e o relógio, suíço.
Paris é uma festa. Salvador, também.
E o show é da bola.
Não pode parar.

Foto Yahoo Sports

NO GRUPO DA MORTE, O “MORTO” É O VIVO E A COPA FERVE

Corriere dello Sport, periódico italiano, destaca gol costarriquenho de Bryan Ruiz   

O grupo da morte da copa do mundo é para fortes.
O selecionado italiano que o diga. Os dois primeiros desafios dos comandadados de Cesare Prandeli não foram fáceis.
Da estufa de Manaus para a panela ardente de Recife. Uma da tarde, 30 graus à sombra.
Para o embate contra a brava e habilidosa Costa Rica, Prandelli inverteu os alas.
Abate na direita, Darmian na canhota.
Candreva não estava nos melhores dias. Pirlo apagadíssmo. 
A bem da verdade, quem foi a Recife, ver o Arquiteto, Baloteli, Buffon, assistiu ao time certinho treinado por Jorge Pinto e bem defendido pelo arqueiro Taylor Navas. 
Foi comandado em campo por um trio eficiente. O meia de contenção Celso Borges, filho de brasileiro, pela experiência do esperto Bolaños e, claro o bom futebol do 10, Bryan Ruiz. 
Organizados, eles anularam a eficiência de passes de uma acuada Itália. 
Foi de Bryan Ruiz, a façanha de alcançar os 100% de aproveitamento costarriquenho. 
No finalzinho da etapa um. Sempre no jogo aéreo, o castigo e a justiça reinaram abaixo do sol. Diaz fez o cruzamento e nas costas de Chielline, o bom Bryan cabeceia vencendo Buffon. Castigo para os já exaustos italianos, abatidos com obviedade pelo efeito climático. Justiça para uma surpreendente e determinada Costa Rica. 
No grupo da morte, quem chegou se fingindo de morto é o primeiro classificado 
Vem aí a Batalha de Natal entre Uruguai e Itália.
Só um terá lugar ao sol. Ao outro, restará o enterro na Arena das Dunas.
Enquanto isso, em outro ponto do litoral brasileiro, a Costa é Rica em um começo de tarde ensolarada. 
A copa ferve.

Foto: Reuters