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sábado, 12 de julho de 2014

O BAGAÇO, A BAGUNÇA E A BAGACEIRA

O atacante Robin Van Persie faz o primeiro gol holandês em cobrança 
de penalidade.  Era o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo  

Não foi o jogo “Laranja x Bagaço”.
A Holanda chegava à Brasília depois de uma maratona.  
Uma calorenta decisão nas oitavas, disputada contra o México a uma da tarde no Ceará e duas prorrogações consecutivas, pelas quartas e semifinal.   
A Holanda venceu o Brasil por um sonoro 3x0, nota final da ópera bufa do futebol nacional na vigésima copa do mundo.
Ou seja, até o "bagaço da laranja" esmagou o bando de Felipão.
Quem acompanha este blog sabe que estamos à vontade para analisarmos a pior campanha da seleção brasileira em mundiais.   
Uma seleção de quinta categoria sem repertório algum. Sem passe progressivo, sem esquema tático, sem preparo. Dez gols levados em dois jogos. Uma bagunça. 
E o que é pior, escuto a entrevista do técnico Luiz Felipe Scolari após novo vexame enquanto escrevo essas linhas. Scolari não assume o fracasso tático brasileiro. Um espetáculo de soberba e teimosia deprimentes. Errar é do jogo. Não assumir o erro... 
Vamos ao réquiem.
O time de Louis Van Gaal resolveu o jogo cedo com uma mãozinha do árbitro e da zaga brasileira em atuação bisonha.
Mal tinha rolado a bola, Arjen Robben, em jogada característica, arrancou no meio da zaga brasileira, Thiago Silva puxou o carequinha. Robben cai na área, a falta foi fora dela.
O árbitro argelino Dajamel Hamoudi vai na onda e Van Persie, que brigou pela jogada, bateu bem a penalidade, no ângulo esquerdo de Julio César. Holanda 1 x 0. Thiago Silva, pela falta, deveria ter sido expulso.
Foi o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo.
E estava fácil. 13 minutos depois do primeiro gol, Holanda faria 2 x 0 sobre o bando brasileiro.     
Mais uma vez com Robben pelo meio. Ele enxergou a ‘Avenida Maicon’ e brindou a incursão pela direita de Johnatan De Gúzman, impedido. A arbitragem errou mais uma vez e o ala canadense naturalizado holandês fez o cruzamento. David Luiz cabeceou errado para o meio da zaga. O ótimo Daley Blind, um dos destaques da copa, recebeu o presente, amaciou com o pé esquerdo e bateu com o direito. Belo gol.        
Foi uma boa partida para se mostrar o abismo tático que separa o treinador da seleção brasileira do futebol de ponta praticado hoje entre seleções de alto nível.
Porque a Holanda atacava e se encolhia, esperava como o adversário iria se comportar para dar seus botes longos com o avanço dos alas e a velocidade de Robben. Porque havia rotação de jogadores versáteis como Blind e Kuyt.
Porque havia sete a oito tipos de construção de jogadas, a depender do como o Brasil se apresentasse.
Os moços de amarelo só levavam perigo em lances de bola parada. Os de azul, sobravam em campo.
Poderia ter saído com quatro gols de vantagem em 45 minutos.
Nos vinte iniciais do segundo tempo, houve melhora brasileira no esforço de Oscar e só. Porque quando quis, a Holanda matou o jogo. E foi um golpe final.
Do mesmo carequinha, o dono dos laranjas, incansável entre os exaustos. Era mais uma assistência do rotativo Robben. Com a bola recebida em velocidade, Janmaat venceu Maxwell na corrida e cruzou. O volante Wijnaldum, livre fechou a conta. Aos 90 minutos, Holanda 3 x 0 Brasil.
No bagaço, o elenco holandês conquistou o terceiro posto no Mundial. 
Na bagunça, o defasado futebol brasileiro dá adeus.
Esperamos que com essa bagaceira, um adeus para nunca mais.
Mas sabe o que fica mesmo para esse escriba? 
Cheiro de laranja podre perdida na estrada.
Espero que estejamos errados.

Foto: Getty Images

terça-feira, 8 de julho de 2014

8 DE JULHO DE 2014


Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Semifinal da copa do mundo entre Brasil e Alemanha. 
Perto da metade do primeiro tempo, em um intervalo de sete minutos,o sonho do hexa caiu na real. Um pesadelo histórico e humilhante.
Foi uma aula de futebol contemporâneo dada por uma Alemanha exuberante em Minas Gerais e ponto.
E foi uma cônica de um fracasso anunciado de uma seleção comandada por um treinador ultrapassado e sem repertório. Foi a atuação mais medíocre do selecionado brasileiro em toda a sua história.   
Escrevemos em outras crônicas sobre a forma da Alemanha jogar. A determinação tática, a rotação triangular do seu meio-campo. As inversões perfeitas Khedira e dois cracaços de bola, Bastian Schweisteiger e Toni Kroos. A  transformação em quarteto fantástico com a presença de Thomas Müller. 
Não vou me estender. Basta o amigo leitor rever os gols decisivos para a construção do placar. Do segundo ao quinto em sete minutos. O 7x1 final foi pouco. Errou Luiz Felipe ao escalar Bernard? Leiam, por favor, a crônica “Quatro times e um desejo” escrita anterior ao jogo. 

Em 30 minutos, voltamos 32 anos. 
No intervalo desta humilhação de 2014, quando o placar já escancarava 5 x 0, construídos em um espaço de 30 minutos, lá estava um garotinho aos prantos na arena mineira    
Lembrei das lágrimas mais famosas do futebol brasileiro. O menino de olhos perdidos, no dia 5 de julho de 1982. a seleção de Telê Santana perdia da Itália por 3 x 2 e estava fora daquele mundial .
A tragédia do Sarriá, o acanhado estádio espanhol, foi o começo de uma derrocada do futebol brasileiro.    
A geração de Zico, Falcão e Sócrates afundava, mas ali também começava a capitular um modelo de administração desportiva arrojada, sob a batuta de Giulite Coutinho. 
A partir dos fracassos de 82 e 86 entrava em cena, em 1989, a figura desprezível de Ricardo Teixeira, sob a tutela aristocrática de João Havelange.
Os párias tomaram o poder e construíram poderes encastelados, jogadores supervalorizados, cifras astronômicas. Superlativas. Foram criados em série dirigentes de clubes mal preparados. Ganância virou cultura. Administrações nebulosas se multiplicaram.
O formato administrativo e absolutista de grupelhos controlando o destino do que representa a paixão nacional persistia e ainda persiste com as figuras da administração atual da Confederação Brasileira de Futebol.   
Duas copas do mundo foram conquistadas, sim. Mas os adjetivos foram exagerados para o futebol jogado. 
Escondeu-se a morte anunciada.
E ela apareceu convulsiva na França 1998.
Em uma chuteira amarrada fora da hora na Alemanha 2006.
Em uma defesa bisonha na África do Sul 2010.     
Falsos heróis, choros vazios, contas abarrotadas.   

Em 90 minutos, um vexame em 100 anos
A aula de futebol da seleção alemã carimbou no uniforme verde e amarelo o maior vexame da seleção brasileira em 100 anos de história. E na copa disputada em território nacional.
Foi a maior goleada sofrida pela seleção, superando o placar de 1920. O Uruguai nos venceu por 6x0 no campeonato sulamericano em 18 de setembro daquele ano. 
É a maior goleada até agora sofrida por um selecionado brasileiro em copas.
Uma das maiores na história dos mundiais
Se outras seleções caíram de pé nesta copa, como a Argélia, Chile, Colômbia e a Costa Rica, este futebol brasileiro foi enterrado em Minas Gerais. 
Não é exagero e não é de hoje. 
Não podemos esquecer dos passeios do Barcelona sobre o Santos - 4 x 0 na final do mundial de 2011 e 8 x 0 no amistoso de 2013.
Avisos, não.  
A realidade nua e crua. 
O desastre real de um modelo fracassado.   
O sonho acabou e o pesadelo continua.
Resta buscar a dignidade, ainda que perdida. 
Hora de mudar para renascer.
Porque este tipo de futebol brasileiro morreu em 08 de julho de 2014. 
E não vamos esquecer jamais. 

sábado, 5 de julho de 2014

A COPA NÚMERO UM

Louis Van Gaal abraça sua arma secreta para disputa de tiros livres. Tim Krul defende 
duas vezes e leva Holanda às semifinais contra a Argentina, reedição da final de 1978. 

Na copa de 1990 o ótimo goleiro Luis Conejo, da Costa Rica, foi eleito o melhor da posição ao lado do argentino Goycochea.
24 anos depois, o seu pupilo Keylor Navas, se não repetir o feito do mentor Conejo, vai estar presente em uma almejada galeria de mundiais. A dos grandes goleiros.
Nesta copa número um, você pode escolher: Tim Howard (EUA), Júlio Cesar (Brasil), Ospina (Colômbia), Courtois (Bélgica), Neuer (Alemanha), Bravo (Chile), Ochoa (México) e, óbvio, Keylor Navas, da valente e invicta Costa Rica.
Difícil a escolha, não é?           
Como é difícil ser goleiro nesta vida.
Porque vale sempre repetir uma velha paródia: 
Vida de goleiro é difícil, é difícil como quê... 
Difícil e injusta.
Como o futebol e suas múltiplas possibilidades.
Com os teus encantos cruéis.
Foi assim com o ótimo arqueiro costarriquenho.
Não é exagero descrever o duelo de 120 minutos entre Holanda e Costa Rica de um time contra um homem só.
Navas simplesmente fechou o gol diante de um esquadrão laranja montando por Louis Van Gaal. 
Foram três atacantes no primeiro tempo: Arjen Robben, Van Persie, autênticos, e Sneidjer, meia avançado.
Aos 30 do segundo tempo, o estrategista holandês tira o meia Depay e coloca Lens, o quarto atacante.     
Na virada de tempo da prorrogação, não teve conversa: remontou sua equipe, arriscando o quinto homem de área, Huntelaar sacando o zagueiro Mathias Indi.
E foi uma saraivada de ataques quando não defendidos, bola batendo nas traves, salva por zagueiro em cima da linha. Sacos e sacos de laranjas e Navas dando boas novas:
- Aqui não passa nada!. 
Para esse escriba, não foi o melhor 0 x 0 que assistimos. Até porque só um selecionado atacou. Mas foi bom de ver o Navas, em luta solitária pela sua Costa Rica. Foi bom de ver o amplo repertório tático dos ataques holandeses.
Bom de ver Robben jogar.
E, antes de tudo, para se ter um vencedor justo na ciência das quatro linhas, é sempre bom de ver um treinador inteligente no banco de reservas.
Já escrevi sobre Louis Van Gaal no nosso Café na Copa.
O técnico holandês já utilizou 87% dos seus 23 jogadores escolhidos para o mundial.
No último minuto da prorrogação, Van Gaal colocou o seu vigésimo atleta convocado para entrar em campo.
O terceiro goleiro, Tim Krul com seus 1,93m e uniforme verde.
Uma mudança arrojada, corajosa de Van Gaal.
Madura.
Vale ressaltar: o titular Cillisen se saiu contrariado, mudou de ideia rapidinho. Krul, goleiro do Newcastle, é especialista em cobranças de penalidades. Era carta na manga para as cobranças dos tiros livres.
O estilo de Krul lembra muito o de Waldir Peres, goleiro do São Paulo e da seleção nas décadas de 1970 e 80.  O goleiro malandro, iconoclasta, abusado e... pegador.
E foram as excelentes defesas frente às tentativas de Bryan Ruiz e Umaña que garantiram a ida da Holanda para as semifinais de uma copa do mundo pela quarta vez.   
A despedida da Fonte dos Gols da copa foi em uma tarde de goleiros.
Claro, uma tarde número um.
Viva Navas.

Foto: Sergio Moraes/Reuters 

CHORA POR TI, ARGENTINA!



Gonzalo Higuaín recupera bom futebol,  Argentina se classifica, mas perde Di Maria 

Não está sendo fácil para a Argentina.
Para chegar às semifinais do Mundial no Brasil, os hermanos estão deixando os seus torcedores à beira de um ataque de nervos. 
Foi assim contra bósnios, nigerianos e iranianos na primeira fase.
Foi assim contra os suíços nas oitavas. 
E não foi diferente frente aos belgas nas quartas de final, sob sol inclemente de Brasília. 
Mais um embate disputado a partir de uma da tarde. 
Foi a quarta vez que o time de Alejandro Sabella enfrentou este horário absurdo na competição.  
O solitário e belo gol de Gonzalo Higuaín aos sete da etapa inicial garantiu a Argentina, 24 anos depois, entre os quatro melhores de uma copa.
A jogada mais uma vez começou com Lionel Messi, passou por Angel Di Maria e, em passe cruzado, a pelota raspou em Verthongen e o artilheiro do Napoli se apresentou para a copa em momento decisivo. De primeira, sem chances para Courtois, 1 x 0.        
Escrevi antes do início da copa que a Bélgica não seria a surpresa, decantada por muitos. Pelo futebol praticado na Eurocopa e nas eliminatórias, era candidata ao título.
A eliminação nas quartas e uma caricatura opaca do futebol antes praticado nas duas competições citadas dão aos belgas o lugar de uma das decepções da copa. Menor que a da Espanha, obviamente, mas se esperava mais dos comandados de Marc Wilmots.
Foi dele parte da responsabilidade pelo fracasso dos diabos vermelhos no Mané Garrincha. Não soube imprimir velocidade e capacidade de criação nos pés de Hazard, outro abaixo da crítica, para furar o bloqueio argentino. 
Wilmots também não soube inverter as ações de De Bruyne no meio campo e ataque. Demorou e muito para sacar do jogo o apagado Origi e acionar Romelu Lukaku. E seu time abusou até a exaustão de chutões horrorosos buscando a jogada aérea e as cabeçadas de Felainni.
Exceção se faça ao ótimo Thibaut Courtois.
O arqueiro parou Lionel Messi mais uma vez. Já tinha brilhado frente a La Pulga defendendo as cores do Clube Atletico de Madrid.
Com os mesmos 22 anos de Neymar e James Rodriguez, é mais um craque a dar adeus. E foi um dos responsáveis para lembrarmos que esta foi também a “copa dos goleiros”.
Não fosse Courtois, Messi teria matado o jogo, aos 48.
Permitiu tentativa de reação belga no último minuto, aos 49, deixando as duas torcidas à beira de um ataque de nervos.
Nervos que ficaram no lugar nos uniformes albicelestes.
Até o apito derradeiro.
Hermanos se juntavam a Brasil e Alemanha. Dez títulos mundiais na semifinal. Uma super semi.
Destaque em campo, o meia defensivo Lucas Biglia despenca aos prantos. Higuaín, que tinha sido substituído por Palácios, invade o gramado às lágrimas... 
Os argentinos também choram. 
Até um marciano sabe o que é uma copa do mundo. Imagine um argentino.  
- “Isso não vai ser fácil”. 
Este é o primeiro verso de “Don’t Cry For Me Argentina”, a música mais famosa da peça Evita, escrita por Adrew Loyd Weber e Tim Rice em homenagem à atriz e líder política Eva Peron.
O espetáculo estreou em 1978, mesmo ano da conquista do primeiro título mundial dos hermanos, no país mergulhado em uma ditadura estúpida e sangrenta.
Seguimos, Argentina. 
Por isso não chores por nós.
Sabemos como é. 
Choras por ti e verás que belo é chorar assim.
Com os nervos no lugar, sem fugir da luta.
E encarando as baixas, mesmo com as vitórias.
Por que a exemplo de Neymar desfalcando o Brasil, Angel Di Maria, lesionado, está fora da copa do mundo.
Não será fácil.

Foto Getty Images

sexta-feira, 4 de julho de 2014

ALEGRIA E DOR. BRASIL VENCE, SEGUE E PERDE NEYMAR

Fratura em vértebra tira principal estrela brasileira na difícil caminhada rumo ao título 

A seleção brasileira precisava jogar muita bola para vencer a Colômbia.  
Jogou.
O Brasil ganhou a vaga em alta rotação, inversão de papéis, futebol envolvente em boa parte do jogo e perda importante para o seguimento da copa. 
Teve a sua melhor atuação na copa do mundo durante 78 minutos da dramática partida no Castelão, em Fortaleza. Ganhou por 2x1 dos colombianos e perdeu Neymar. 
No finalzinho do jogo, o lateral direito Zuniga acertou, em entrada dura, uma joelhada por trás no artilheiro da seleção. 
Neymar sofreu fratura na terceira vértebra da lombar e está fora da copa do mundo. 
Em campo, o craque brasileiro teve atuação mediana. Curiosamente foi o único jogo até agora em que se dependeu menos dele. E vai ser assim, infelizmente, na luta do Brasil pelo hexacampeonato.  

O JOGO
Enquanto manteve a posse de bola, o time de Luiz Felipe Scolari foi soberano diante de uma Colômbia caricata com futebol quadrado, com o perdão do trocadilho, mas merecedor.
O meia da Fiorentina, quase xará do adjetivo, foi a grande decepção no selecionado de Pékerman. Não rendeu e afundou as performances anteriores de James Rodriguez no mundial.
E a leitura da baixa produção das pérolas colombianas passou por um nome: Fernandinho.
O meia defensivo brasileiro anulou a criação do meio-campo adversário.
Deu consistência, provocou o crescimento do futebol de Oscar, equilibrou a instabilidade de Paulinho em outras jornadas e renasceu o setor que devia uma bela atuação na seleção brasileira. Foi importantíssimo, mas não foi decisivo.
O futebol é fascinante porque é imponderável e surpreendente.
Em qualquer bate papo, decantamos duplas nacionais em copas do mundo de olhos fechados: Pelé & Garrincha, Didi & Vavá, Bebeto & Romário, Ronaldo & Rivaldo.
Todo eles craques ofensivos. Meias e atacantes.
Nesta copa, é diferente.
Desta vez na geografia louca do mundo da bola com suas mágicas duplas, o melhor ataque vem da defesa.
Uma dupla de zagueiros é quem desequilibra.   
Thiago Silva & David Luiz são responsáveis pelos gols da vaga brasileira para o jogo semifinal. 
Pela décima vez na história o Brasil está entre os quatro melhores do mundo.
Thiago foi um monstro em Fortaleza. 
O gol marcado aos seis minutos provava que o capitão entrou para decidir. 
E lá na cozinha brasileira, a participação dele foi mais do que eficiente. 
Beirou a perfeição. 
Brasil jogava bem e daqui a pouco nós falaremos de David, que já era implacável na marcação com a mesma garra e ótimo posicionamento na antecipação frente aos atacantes adversários.  
A Colômbia permanecia com sua caricatura de quatro lados para lugar nenhum. 
O meio campo canarinho rendia. Oscar participava mais da criação das jogadas e seguia bem no desarme. Hulk fazia bela partida.
Não fosse o Ospina, goleiro colombiano, a seleção brasileira já estaria com bela vantagem.
Fred puxava a marcação dos zagueiros. Permitia a infiltração do Hulk em duas jogadas a partir das falhas sucessivas do lado direito da defesa colombiana. Sumido o nove brasileiro, mas eficaz.
Não é o melhor do mundos, mas funcionou com a boa mobilidade do Hulk. O grandalhão deixou de ser babá do Marcelo. Mas isso porque o lado direito da Colômbia está bem fraquinho no jogo. Zuniga era engenheiro de avenidas.

A PARÁBOLA DE DAVID
O jogo virava de tempo com festa nas arquibancadas e confiança de que a classificação viria 
Os colombianos melhoraram no giro final e o meio-campo brasileiro decaiu de produção. A performance de Paulinho caiu. Oscar voltava mais para o desarme.
As falhas surgiam e o espaço intermediário no sistema defensivo começavam a aparecer.
Mas veio a segunda bola parada decisiva da peleja. Aos 22 minutos.
A falta à meia distância, quase na intermediária e um cabeludo colocou a bola debaixo do braço.
A corrida desengonçada e o toque de maestria. Ospina se estica ao limite. Limite?
Todos os golaços são inventados para superá-lo. Para alcançar o indescritível.  
A parábola de David ganhou lugar na galeria das obras de arte criadas na moldura das quarto linhas. 2 x 0 Brasil.   
Para muitas gerações de boleiros, o placar mais traiçoeiro no mundo da bola.

AGONIA E DOR
Pekerman mexe no time colombiano. Entrada de Bacca mudou ataque colombiano. Habilidoso o rapaz. Tanto quanto é James Rodrigues. Os 12 minutos finais e mais o tempo extra foram para testar novamente o coração do torcedor brasileiro .
Porque o que já era preocupante antes do bendito segundo gol, se tornou drama aos 34.
Pênalti claro para Colômbia. Erro de Maicon provocou contrataque comandado por James, o passe perfeito para Carlos Bacca. 
O atacante do Sevilla é derrubado por Julio César. Velasco aponta a marca da cal.  
James Rodríguez na cobrança.
Se já não é fácil pegar pênalti, de craque canhoto aí sim é loteria... 1 x 2.
O garotão colombiano entrou para a seleta galeria de artilheiros com seis gols em copas do mundo.
E veio a pressão óbvia. A mesma agonia. Tem que ser sempre no sofrimento?   
Luiz Felipe erra ao tirar Hulk e colocar Ramires.
Colômbia cresce.
A seleção brasileira não consegue manter a posse de bola e segurar o ímpeto do adversário. 
Felipe acerta. Tira Paulinho que abria cada vez mais buracos no sistema intermediário na defesa brasileira. Entra Hernandes.
Cinco minutos de acréscimo. Desespero no banco brasileiro. Reservas em pé. Scolari adiantava relógios imaginários. Pedia o fim.
Nesta copa imprevisível, apito de juiz sempre vira suspiro de alivio. E dor para os perdedores caindo sempre de pé. Foi o caso da brava Colômbia.   
Classificado, o Brasil encerrava o jogo com quatro volantes: Fernandinho, Ramires e Hernandes e… Henrique. 
Porque o homem de confiança de Luiz Felipe foi o último a entrar depois de joelhada criminosa de Zuniga em Neymar, aos 41 minutos do segundo tempo.  
O dez brasileiro saiu com trauma na coluna direto para uma clínica da capital cearense. 
Foi detectada a lesão: fratura na terceira vértebra da lombar. 
A sofrida classificação brasileira tirou seu capitão Thiago para o próximo jogo.
Tirou sua principal esperança na luta para chegar a final e conquistar o título.
Em 1962, Aymoré Moreira apresentou ao mundo Amarildo, substituto do contundido Pelé, e conquistou o bi mundial.  
Brasil e Alemanha vão reeditar a final de 2002. Luiz Felipe Scolari era o técnico brasileiro na conquista do pentacampeonato. 
Doze anos depois de Yokohama e 52 após o feito no Chile, a seleção brasileira de futebol vive o desafio de enfrentar um grande rival e sem o seu principal jogador 
Cabe a Scolari reinventar uma seleção e forjar novas esperanças.
Porque na constelação desta bela copa, fica faltando uma estrela a partir de hoje. 

Foto: Reuters

ALEMANHA DO PASSE, DA PEÇA, DA POSSE E DA PACIÊNCIA

Em sua melhor atuação na copa, zagueiro Mats Hummels repete jogada característica marca 
único gol sobre a França e carimba Alemanha na quarta semifinal consecutiva em mundiais 

Os treinadores Joachim Low e Didier Deschamps não pestanejaram nem marcaram touca.
Mudaram as escalações de Alemanha e França para o duelo a sol pleno do Rio de Janeiro pelas quartas de final da copa do mundo.
Low finalmente colocou Lahm na ala direita. Sacou Mario Gotze para a entrada de Miroslav Klose no ataque e montou o meio campo preferido do torcedor germânico e desse escriba com Sami Khedira, Bastian Schweinsteiger e Toni Kroos. 
Os bleus foram para a jornada com o excelente trio na meiúca mantido com Yohan Cabaye, Blaise Matuidi e Paul Pogba. E mexeu na frente com a saída de Giraud para a entrada do arisco Griezmann.
Primeira etapa do clássico europeu foi em alta rotação.
O destino do jogo começou a ser desenhado logo no início.
Aos 12 minutos, depois de um lá e cá provando que seria um jogão, foi na bola parada que a Alemanha alcançou a vantagem mínima e, por que não dizer, máxima.
Em cobrança de falta, Toni Kroos fez um cruzamento milimétrico na cabeça de Mats Hummels. No duelo de zagueiros e em jogada característica, o craque do Borussia Dortmund venceu Varane. Alemanha 1 x 0.            
Na frente do placar, os alemães bem postados no meio anulavam com ótima marcação as progressões de Matuidi e Pogba.
A França sentia o gol e buscava espaços. A saída eram os lançamentos longos e a boa movimentação de Mathieu Valbuena.
Foi assim que quase iria conseguir a igualdade, não fosse estupenda defesa de Neuer em chute o atacante do Olympique de Marselha.
Apesar da melhora do seu quadro, era visível a agonia de Deschamps.  
Apesar das investidas, a saída de bola dos azuis não conseguia soltar os talentosos, velozes e criativos Pogba e Matuidi. 
À frente se apresentava um adversário gélido. Por mais que o universo de um estádio, de um Rio de Janeiro no sol a pino de julho, e da fase aguda da copa exigissem um jogo com 40 graus à sombra.
Uma cena entre os tempos de jogo nos chamou a atenção. Pogba, a principal esperança francesa, terminava simbolicamente os 45 minutos iniciais com a bola nas suas mãos. Era a única posse real sobre a pelota que iria conseguir dali para frente.  
A simpática Alemanha do "Campo Bahia", dentro das quatro linhas cariocas era agora fria e carrancuda. Era a Alemanha onde a onça bebe água.
Porque Bastian Schweinsteiger, como de praxe, era monstro. Um esteio.
Porque Hummels era um xerifão na sua melhor apresentação na copa.
Porque Sami Khedira colocou a alma no bico da chuteira. 
A Alemanha buscava a posse, o passe e a paciência. 
Cadenciava a conquista da vaga.
Pela esquerda da frente francesa, os grandalhões Matuidi e Evra tentavam a invasão. E aí entre os paredões germânicos, aprecia um baixinho (gigante?) que estava gastando a bola e continuava implacável. Philipp Lahm estava em casa na lateral.
E era só no lançamento longo que a França conseguia a infiltração. Pogba estava anulado. Matuidi aparecia bem pela esquerda e tinha gás. Podia ser decisivo. 
Podia.
Porque aos 33 minutos da etapa final, em duelo de início de tarde calorenta, veio o nó tático de Joachim Low em Didier Deschamps.
Avançou o paredão de meio campo. A Alemanha marcava sem dar espaços à saída de bola.
Era a pregada de peça que faltava no jogo da paciência.
Foram poucas as chances do empate francês. 
Aos 35, um exausto Valbuena cobra a falta e no bate rebate, a bola passa raspando a meta.         
No contra-ataque, a Alemanha poderia ter definido a vaga com Shurrle. Perdeu gol feito.
E continuava no campo francês. Impedindo a ação adversária em criar as jogadas de velocidade.
Até o goleiro Lloris era marcado por Thomas Muller.
Uma tomada de espaço admirável, calculista, corajosa e decisiva.
Na única falha desse sistema do paredão de linha, apareceu o paredão no gol.
O estupendo Neuer em defesa de reflexo puro no chute de Karim Benzema.
Aos 48 minutos do segundo tempo.
Era o adeus dos Bleus.
Mais um selecionado a cair de pé, mesmo não tendo encontrado o seu futebol nesta sexta-feira ensolarada em um mítico Maracanã lotado.
Alemanha está na quarta semifinal consecutiva. 
Feito inédito em copas do mundo.
Com  passe, posse e paciência.
E uma pregada de peça preciosa.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CARTAS DAS QUARTAS



Ilustração: Baptistão


Vamos falar aqui de cartas na manga e cartas na mesa. 
A seleção brasileira de Luiz Felipe Scolari decide o seu destino na Copa enfrentando uma equipe com 100% de aproveitamento.
A Colômbia finaliza pouco, 46 ações de ataque, e goleia muito, 11 tentos marcados.
A Colômbia não precisou de prorrogação nem pênalti para despachar o Uruguai. Isso diminuiu a sua numeração de desarmes em relação aos brasileiros.
O que dá, obviamente, a falsa impressão de superioridade do time de Scolari.
Ledo engano.
A Colômbia venceu os quatro jogos com eficiência do passe na linha de criação. Poucos, diga-se, mas o bastante para produzir velocidade no ataque.       
E Pekerman soube montar, bem ao seu estilo, uma equipe que se movimenta com intensidade. A versatilidade de Cuadrado, a ótima copa de James Rodriguez e dois atacantes ariscos como Theo Gutierrez e Jackson Martinez prometem dores de cabeça para a defesa brasileira.
E não podemos esquecer. Jose Pekerman é técnico de futebol contemporâneo. Bem diferente do estilo conservador do Scolari Século XX. 
Argentino, dirigiu a seleção do seu país em 2006 e é um estrategista. Por isso, podemos ter uma seleção colombiana completamente diferente do que vimos até agora. Jogadores atuando com funções diferenciadas não será novidade para este escriba.
São cartas na manga.
Essencial em profissionais de futebol... contemporâneos.             
Por isso o Brasil vai ter que jogar muita bola.
Luiz Felipe deve escalar Fernandinho e Paulinho como volantes e fazer troca simples. Fernandinho mais recuado sendo o substituto real de Luiz Gustavo. Paulinho retorna na mesma função tática. 
Agradar, não agrada. O vazio criativo do meio-campo brasileiro passa por uma baita melhora de produção de Oscar. Será fundamental para vencer o jogo.
Para que Oscar se torne o arquiteto das jogadas, tem que deixar de ser "babá" de Daniel. O mesmo vale para Hulk com relação a Marcelo.
Não esqueçam do gol marcado pelo Chile. Foi bem clara a disfunção no posicionamento do Hulk. E a falha bisonha bem característica de atacante no lugar errado.    
Cauteloso, Felipe faz troca mínima. É o preço de contar,  no banco e no time titular, com atletas que não estão rendendo na copa. 
Mas não é só a baixa produtividade do elenco brasileiro que preocupa. 
Taticamente, a seleção de Scolari não mostrou diversidade no esquema de sua equipe em campo nos quatro jogos que disputou. 
São cartas na mesa.
Essencial para abrir os olhos de você, amigo leitor.
Técnicos como Low, Van Gaal, Deschamps e o próprio Pekerman guardam vários repertórios táticos no aproveitamento de jogadores tanto na linha como no banco de reservas durante as partidas. 
Scolari não tem essa prática e adota um estilo que está ultrapassado. Não sabe aproveitar a experiência dos seus comandados. 
Sim, porque o elenco canarinho tem vários jogadores que já venceram a Champions League, por exemplo. É um erro grotesco chamar esta seleção brasileira de “jovem”. Basta ver o currículo de cada um.
Seria o mesmo se passarmos na frente do zagueirão Yepes e gritássemos:
- El Chiquitito!
O becão do Atalanta, garantido como titular da seleção colombiana com 38 anos nas costas, ia ganhar o dia. 
Que Neymar, na molecagem dos seus 22 anos, falte com o respeito e parta pra cima  do “coroa” sem medo de ser feliz no Castelão. 
É um ás solitário na falta de coringas na mão de Scolari.  
E em quartas de final não cabem blefes.
Para que o sonho do hexa não desabe como um castelo de cartas.

Atualização às 15h50: Luiz Felipe escala Maicon. Daniel é barrado na lateral direita e fica no banco de reserva para o confronto contra a Colômbia  
  Ilustração: Baptistão/baptistao.zip.ne

CONTAGEM PROGRESSIVA


 Restaram quatro seleções latinas e quatro europeias na luta pela taça. E não há favorito   

Faltam dez dias para o fim da vigésima copa do mundo de futebol.
Entramos na fase aguda da competição com a disputa das quartas de final.
Oito seleções estão na briga, entre elas quatro campeãs mundiais.
E não há favoritos.
Só para se ter ideia do tamanho do equilíbrio, nada menos que três finais de copas anteriores podem se repetir nas partidas semifinais desta edição.
A de 1978, Argentina x Holanda. Brasil x França em 98 e Brasil x Alemanha em 2002.
A seleção alemã entra para a história com mais uma participação nas quartas. Será a décima sexta consecutiva, um recorde em mundiais. 
Mas o dado só serve para dar charme em texto.
Repito, não há favoritos.
O equilíbrio continua na origem dos selecionados.
Quatro europeus.
Quatro latinos.
Colômbia e Costa Rica sonham com classificação inédita.
A Bélgica já alcançou o quarto lugar em 1986.
A Holanda quer deixar de ser vice.
Brasil, Alemanha, Argentina e França juntos acumulam 11 títulos mundiais. 
Faltam dez dias.
Dez dias, oito jogos imprevisíveis.
E a contagem é regressiva?
Nunca foi.
É progressiva. 
Degrau a degrau até o topo.
E lá estará um campeão erguendo a taça. 

HOWARD, O SUPER HERÓI

Americano tatua rosto de Tim Howard na cabeça. Petição corre o país para 
mudar nome do aeroporto Ronald Reagan pelo do goleiro da seleção dos EUA.  

A cada sete minutos e meio de tempo normal e prorrogação, o norte americano Tim Howard praticou uma defesa no duelo com a Bélgica.
No que se tem notícia nunca um goleiro trabalhou tanto  em um jogo só na história das copas do mundo.
O número é incrível.Foram 16 intervenções de Howard durante a peleja na Fonte dos gols nesta copa dos goleiros.
Como se sabe, uma dupla belga derrubou o excelente arqueiro ianque em mais um duelo de 120 minutos para tirar o fôlego.
Lukaku e De Bruyne, este a cara do Tin Tin, foram decisivos para o sucesso dos vermelhos.
Mas foi o barbudão Tim Howard o dono dos flashes. Mesmo com a derrota, já é figurinha carimbada (ou tatuada) para a fábrica de fazer heróis.
Sopa no mel.         
Deve se tornar personagem de HQ, de videogame ou secretário da Defesa nos EUA.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O SEGREDO DI MARIA

Uma arrancada de Messi a três minutos do fim. um golaço Di Maria (foto) 
faz um golaço e derruba a Suiça na prorrogação. Argentina nas quartas.   

A proporção para dizer que a Argentina faz uma bela copa do mundo é a mesma se você imaginar que todo argentino é portenho. 
A Argentina não faz uma grande copa do mundo.
Portenho ou não, antes da copa qualquer hermano apostava malbecs com bife de ancho em los quatro fantásticos: Messi, Di Maria, Aguero e Iguain.        
O futebol é cruel com previsibilidades e nunca se deu bem com bolas de cristal.
Dos quatro, apenas Lionel fazia atuações corretas até o embate contra os suíços pelas oitavas de final. Aguero tinha ficado pelo caminho, Higuaín continuava abaixo do esperado. Mas o confronto em Itaquera foi de redenção para Angel Fabian Di Maria.
Não fosse a jornada espetacular de Diego Benaglio, a dupla dinâmica - ou o que restou do quarteto - tinha classificado a argentina no tempo normal. Só que o Benaglio foi mais um arqueiro a se destacar nesta copa de gols e de goleiros. Vá entender.
Destaque do Wolfsburg na Bundesliga, o suíço de gelo fez a sua melhor partida em três copas do mundo no currículo e escreveu mais uma vez a palavra prorrogação em crônicas das oitavas. 
Argentinos e suíços em São Paulo foram a mais 30 minutos de futebol.
Fazer o quê? Jogo em copa que fica na lembrança, tem que prorrogar.
E foi uma luta para vencer Benaglio, dono agora na história de quatro defesas dificílimas no duelo, principalmente contra os cérebros de Messi e Di Maria.
Mas era o jogo da redenção de Angel.    
E foi com uma disparada criolla solta em arrabaldes ou periferias... em descampados.
Porque um dos lemas de compadritos das províncias argentinas, são exemplos de coragem e valentia.
É não desistir nunca. E decidir com altivez.
12 minutos do segundo tempo da prorrogação. A tensão, o medo do imprevisível, respirações presas e gritos entalados.  
Rodrigo Palacio desarma bem e cria o contrataque na linha divisória. 
O passe a Messi.
A bola do jogo é no pé dele. A arrancada de Lionel com a pelota, o toque preciso e mortal para Angel. O gol salvador. É como se alma pampera regesse o que cérebro pensa ao que perna corre.
Não é à toa a construção de jogada lembrar muito a arrancada de Ronaldinho na copa de 2002 ao entortar Ferdinand, Mills e Campbel em passe preciso, mortal para Rivaldo vencer o arqueiro inglês Seaman.     
Não há supressa na jogada "papel carbono" 12 anos depois. Até porque a redundância está na imagem que se vê ao texto que se escreve. 
Estava lá Ronaldinho, o gaúcho, o criollo.
Esteve cá Angel, o compadrito, criollo.
E o futebol serelepe, incansável de Angel Di Maria é autêntico, fundamental e se apresentou ao Mundial no Brasil. 
Carrega na entranhas, o jeito criollo, libertário e persistente. Latino.
Jeito que só os compadritos  encontrados nos pampas sabem descrever.       

Bem que os suíços honraram a já tradição desta copa das seleções nunca desistirem, no caso deles tinha charme da data fechada dos 80 anos de participação em copas do mundo.  
E foi assim, os derrotados de Itaquera caíram de pé com Blerim Dzemaili. 
À frente de Sergio "chiquito" Romero, o atacante do Napoli acertou o posto direito já nos descontos do tempo extra. Era a última chance vermelha criada na última gota. No último instante antes do apito final.
Ficou cravado no placar um gol emblemático para a Argentina que segue. Argentina dos portenhos e compadritos.

Porque a vida é assim.
Uns tem Dzemali, outros tem Di Maria.
Só para olhos de quem ama o futebol. 
É o segredo.


Vale a homenagem deste escriba aos incontáveis papos pampeiros desfilados em tardes e noites baianas com a jornalista "baúcha" Suzana Aguiar e com o argentino mais baiano que já conheci: o mestre Carybé.

Foto: Football 365 

terça-feira, 1 de julho de 2014

AQUI NA TERRA ESTÃO JOGANDO FUTEBOL

Pepe Guardiola deu sinal verde no Bayern. o goleiro Manuel Neuer 
é o líbero da Alemanha. Sim, ele é o cara de uniforme preto e azul que conseguiu parar Slimani e cia. 

Caros amigos, em uma Brasília seca, no calor em baixíssima umidade, França e Nigéria se pegam. 
É mais uma prova das oitavas de final.      
O nigeriano Eneyama tinha executado 21 defesas na vigésima copa do mundo.
Era uma da esperanças da sua torcida 
Mas goleiro para ser goleiro vive à beira do abismo.
E abismos existem no planalto central do país quando falamos em futebol
Para os goleiros eles aparecem quando não se pode errar.
Foi assim com Eneyama, um dos destaques da primeira fase do Mundial
A Nigéria segurou o empate contra uma França violenta até os 34 minutos do segundo tempo.
Até a saída em falso do arqueiro nigeriano depois do escanteio cobrado por Valbuena. Pogba
fez um cumprimento de cabeça. 1 x 0.
É justo discorrer a boa mexida de Didier Deschamps ao tirar um discretíssimo Giraud, irreconhecível.
Antoine Griezmann entrou, Benzama e Pogba cresceram e a França matou o jogo.
Porque foi em jogada aguda, tendo o bom atacante do Real Sociedad como coadjuvante, que Yoba se atrapalhou e marcou contra o patrimônio.  
O penúltimo dos africanos, capitulava.
É França que segue.
Alemães e argelinos fizeram história na segunda peleja do dia.
Era emblemático ver o encontro 32 anos depois do embate ocorrido em Gijon, na Espanha,  pela Copa de 82.
E foi bom ver uma página ser virada com futebol jogado em alta.
Se não bastassem os 90 minutos que assinaram o melhor 0 x 0 da copa, os goleiros dos dois selecionados estavam "virados do mói de coentro", como se canta e decanta na Bahia.
Em jornada inspiradíssima, o franco argelino Rais M'Bohli fazia milagres com as mãos.
O germânico Manuel Neuer aprontava diabruras com... os pés.
Sim, e não há novidade alguma. 
Pelo fato desta crônica está sendo escrita horas depois do encontro, no mínimo singular, na despedida do Gigante da Beira-Rio da copa, ouvi e li análises curiosas sobre a performance de Neuer em campo. 
Muitas acertaram na leitura do goleirão iconoclasta ser, nada mais nada menos, do que o líbero alemão. Mas também li, entre as barbaridades, que o time de Low estava perdido em campo. alguns chamando Neur de "doidão" e outros buscando explicações, no mínimo, divertidas.  
Característica natural da sua formação na excelente escola alemã, que só evolui, o arqueiro do Bayern de Munique recebeu antes do mundial voto de confiança de Pepe Guardiola para a execução de suas habilidades. Joaquim Low utilizou como arma o bom passe do arqueiro e a ótima antecipação que possui. No embate frente ao contra ataque argelino puxado por Feghouli e Slimani, Neuer usou da estratégia com maestria nove vezes. Isso mesmo, nove.
Do outro lado, o paredão da Argélia foi estupendo embaixo dos três paus. Defesa de tudo que é jeito para quem gosta de espetáculo. De pagar ingresso, Para sair bem na foto. Para colocar em molduras.
Mas goleiro que é goleiro sempre será um equilibrista.
E isso não muda seja à beira do abismo ou à beira rio.
Redenção e fracasso são as duas faces da moeda no futebol.
E para o goleiro é uma realidade cruel.
Porque o melhor 0x0 das copas reservou para Rais o gosto amargo da derrota nos trinta minutos finais  de uma prorrogação para entrar na história do mundiais.
Joaquim Low já tinha mexido sacando Mario Gotze. E a Alemanha mudou a estratégia. E a Alemanha foi pra cima. Logo aos dois  minutos do tempo extra em ótima construção do cada vez mais decisivo Thomas Mueller. Andre Shurrle respondeu ao chamado. O atacante do Chelsea derrubou o paredão.
Mesmo com performance abaixo da média, a tática germânica funcionava. Exauria o adversário e mudava o padrão de atacar. Sufocava quem já não tinha fôlego nem pernas. E o segundo gol era questão de tempo. Seja extra ou não. Ozil, mesmo com atuação mediana, apareceu bem pela esquerda e marcou o segundo. Isso aos 14 minutos da segunda etapa da prorrogação.
Quem achava que a conta estava fechada, Djabour assinou a atuação honrosa dos argelinos com justo tento nos descontos. Caíram lutando com bola na rede alemã.
Mas foi só uma vez e é Alemanha que segue.
Belos embates como esse ainda virão com os pés ou com as mãos nesta festa do mundo que já fez história.
Porque aqui na terra estão jogando futebol.

         
     


domingo, 29 de junho de 2014

NEM O FILÓSOFO NEM O DOUTOR MERECEM.

Keylor Navas defende cobrança de Gekas e abre caminho para classificação da Costa Rica

Nós podemos até ser simpáticos e pacientes, mas certas partidas de copa do mundo nem deuses gregos salvam.
E se partir para a filosofia, amigos, o pobre Sócrates que disse um dia – “as pessoas precisam de prudência no ânimo e vergonha na cara” – se estivsse vivo, faria tremer as velhas pilastras que ainda resistem no velho Parthenon.
Porque não tem silêncio na língua certo, para completar a frase, com o perdão dos velhos Sócrates. O citado filósofo e o saudoso Brasileiro de Oliveira: 
- Oh partidazinha sem-vergonha essa entre as surpresas do  mundial.
Se muitos torciam por mais trinta minutos de Holanda e México, que não foram jogados, outros tiveram que aguentar os 120 com futebol de quinta que a Grécia e a Costa Rica apresentaram.
A exceção da pelada na Arena Pernambuco foi o goleiro Keylor Navas.
Quem assistiu ao campeonato espanhol e prestou um pouco de atenção além dos elencos de Real Madrid e Barcelona, lembrará das belas atuações do goleiro costarriquenho defendendo as cores do Levante.
Entre os jogos das últimas rodadas do Espanhol, figuram estupendas atuações de Navas nas vitórias do Levante sobre o campeão Atlético de Madrid e o rival Valência.
Registro aqui o fato que a Costa Rica segurou a vitória no tempo no normal com gol torto de Bryan Ruiz até o finalzinho.
Sokratis Papastathopoulos, o zagueiro do Borussia Dortmund empatou a pelejinha no apagar dos holofotes. Que iluminavam apenas o bom Navas em milagres operados frente a um cidadão chamado Mitroglous nos dois momentos finais do jogo. Do tempo normal e da prorrogação.
E quiseram os deuses, certamente dos ameríndios, que o bom Navas fosse personagem principal na classificação costarriquenha.
Foi dele a defesa que deu vantagem nas cobranças à Costa Rica.
O zagueiro Umanã garantiu a vaga inédita das quartas de final convertendo a quinta cobrança. 5 x 3
Não deu para o Sokratis Papastathopoulos tentar o seu segundo gol da noite que já embelezava o Capibaribe. 
Era dele a quinta cobrança grega.
Conste aqui que é completamente irrelevante essa última informação.
Mas não é todo dia que a gente digita um sobrenome desse.
Va lá até que seja um xará distante…
Por aqui, com a minha simpatia, apesar do baba...
Αντίο, Ελλάδα.

Foto: Ruben Sprich/Reuters

COBRAS LARANJAS SABEM DAR BOTES EM DUELOS AO SOL



Estratégia holandesa derruba México de Javier Hernandez que soca gramado do Castelão 

Não me chamem de doido. O calor foi decisivo para a classificação da Holanda às quartas de final sobre a guerreira, mas ingênua, seleção mexicana.
A explicação será dada, tenham certeza.  Mas vamos antes analisar um pouco este bom jogo, disputado sob um sol de rachar miolos na bela Fortaleza, o luxo da aldeia como bem cantarolou Ednardo.
Os mexicanos com mais ímpeto tentaram acuar a Holanda logo de início, o trio Guardado, Herrera e Giovane buscavam espaço para arremates ou servir a Peralta.
 A tática era correta, mas mostravam do outro lado um adversário calculista. Os holandeses, recuavam, mas arquitetavam um contra-ataque. Era até então, o que se imaginava ser a principal arma de Louis van Gaal, o técnico holandês. 
A bola sempre passava por Nigel de Jong, enquanto esteve em campo, ditava a construção do meio campo holandês, com Sneidjer caindo pela esquerda e Robben na rotação. 
Uma contusão tirou o ótimo meia defensivo do Milan e deu a Van Gaal a primeira das chances para conter a temperatura mexicana. Estrategista, com uma alteração,  colocou vigor físico e proteção em campo com Mathias Indi, deslocou Kuyt para a direta e trouxe Blind para a criação.  
Mas não era fácil.  E o México foi superior no primeiro tempo. 
Em pelos menos dois momentos com Layun e Herrera poderia virar o intervalo com vantagem no placar.
Pela Holanda, a bronca. Erro do árbitro português Pedro Proença em não marcar no finalzinho da etapa um penalidade clara sobre Robben. Foi atingido duas vezes na mesma jogada. E o apito não soou.
Mas serviu para acender o sinal de alerta.
A Holanda estava viva.
A pressão verde continuou a 40 graus e o gol veio logo no início do segundo tempo. 
O zagueiro Vlaar rebate errado de cabeça. Vem um chutaço de Giovane dos Santos sem chances para Clissen. México 1 x 0. 
O Castelão, com muchachos em maioria, vibrava e torrava em sol intenso. A vaga estava perto. 
Mas aí o técnico mexicano Miguel Herrera resolveu brincar com o coração da sua torcida. Encolheu o time. Pode até ter raciocinado com lógica, ao imaginar que trancava a possibilidade da principal holandesa funcionar. O contra-ataque com Robben. 
Mas Herrera esqueceu de um senhor mal humorado que estava sentado no banco laranja. 
A decisão pela retranca mexicana acontecia aos  15 minutos do segundo tempo com a troca  de Giovane por Javier Aquino. Povoava o meio campo. Recuava seus alas. E montava uma barreira para conter o adversário.
Mas se a copa tem uma cozinha, ela é da Holanda. 
Não deu outra.
Em trinta minutos, o bom goleiro Ochoa só faltou fazer chover embaixo das traves. Sortudo, quando não defendida, a bola batia em sua cabeça, batia na trave. E não entrava.
 Mas para a Holanda não tinha Ochoa nem chuva.
O calor e o sol inclemente permaneciam e veio o fato que prometemos explicar o início desta  crônica: o tempo de hidratação.
Tudo que Louis Van Gaal precisava para esfriar a cachola dos seus comandados e criar dois botes fatais.
O refresco virou castigo para o México.
Ali Van Gaal reposicionou Sneidjer em campo.
Seria o elemento surpresa em bolas paradas. Só que fora da área. 
O primeiro bote veio em um petardo do excelente meia do Galatassaray, depois de posicionamento, rastejante, excelente. Sem defesa para o bom arqueiro mexicano. Empate holandês.
Também do tempo de hidratação, veio a lembrança de Van Gaal para Robben repetir a mesma jogada do final do primeiro tempo.
Só que do lado invertido.
E ele, como serpente bailou sobre Rafa Marquez. O ótimo zagueiro perdeu o tempo da bola, não soube apenas cercar e, afoito, acertou Arjen. Mesma penalidade máxima, só que dessa vez o português apontou para a marca da cal.    
Klaas Jan Huntelaar bateu bem. Ochoa não saiu na foto.
Aos 48 minutos do segundo tempo.
Em seis minutos, na cara do apito final, as quartas para os muchachos foram para as cucuias.     
Em seis minutos, as cobras criadas da Holanda mostraram que estratégia e inteligência são essenciais quando tudo joga contra.
Um dos inimigos, o calor, virou aliado. 
Os de “Netherlands” também sabem: só pode haver um.
E as Cobras Laranjas são craques em dar botes certeiros nos duelos ao sol.

Foto: Eduardo Verdugo AP/Photo