Quatro seleções da primeira linha do futebol mundial
ainda correm atrás da bola para levantar esta taça
25 dias depois (passa rápido, não?) este objeto de desejo é disputado agora por quatro sobreviventes na melhor copa dos últimos 60 anos, pelo menos.
Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda colocam duas revanches, vinte decisões e dez títulos em jogo nas duas partidas semifinais do mundial de 2014.
Escrevemos as seleções em ordem alfabética por uma razão bem simples. Ninguém é dona da cocada preta nessa hora de onça sedentas.
São fortes e tradicionais, robustas, mas nenhuma chega como rainha do pedaço.
O modo ultra competitivo no qual se desenrola este mundial provocou uma alternância natural no desempenho das seleções no torneio.
No futebol contemporâneo é quase impossível você ter uma formação de jogadores que tenham performance linear em uma partida, que dirá em uma competição. Seja ela curta ou longa.
Os jogos disputados no mundial do Brasil são a maior prova disso.
A oscilação é normal e aumenta mais a partir da competitividade e em diversos graus de dificuldades no campo ou fora dele.
Não gosto e nunca fiz comparações de times com seleções.
São formatos de grupos com históricos, culturas e lógicas diferentes.
Mas isso não impede de constatações óbvias. Por um lado, em um clube você pode ter uma seleção dos melhores do mundo em cada posição, casos recentes de Barcelona Bayern e Real Madrid.
Por outro, nesta copa do mundo seleções tradicionais se apresentaram como times bem montados por seus treinadores. Casos de Alemanha, França e Holanda. E outras, sem relevâncias teóricas como Costa Rica e Argélia e que, partindo da mesma análise do coletivo poderiam, sem surpresas na prática da competição, ir mais longe... A Costa Rica quase consegue.
Vale a relação até aí.
SUPER SEMIS
Vamos aos semifinalistas.A seleção holandesa é um time de aproveitamento ativo. E essa qualidade deve-se a seu treinador. Dos 23 atletas laranjas convocados, Louis Van Gaal utilizou 20 em cinco jogos, Todos com a estratégia de mudar o repertório tático durante pelejas. Uma marca a ser guardada por treinadores brasileiros.
A Holanda é a melhor em gols marcados e a segunda mais faltosa.
Tem o futebol mais vibrante entre as quatro bambambans.
É da Holanda o melhor jogador da competição. Robben.
Mas não é o bastante para cravar que vai derrubar a Argentina.
E os hermanos?
E a perda do Di Maria?
Em proporção, pode ser até pior para os argentinos do que a ausência de Neymar para o Brasil. Explico daqui a pouco
Enzo Perez e Rick Álvarez disputam a vaga de Angel.
A Argentina tem um dos melhores índices de aproveitamento de passe no mundial. Lionel Messi está mais competitivo, Sabella adota a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, liberou mais Leo. O dez hermano se espalha mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Em ótima fase, Angel Di Maria e sua lesão causam dor de cabeça dupla em Sabella. Talento e tática são perdidos com a sua ausência.
Vale ainda lembrar que a Argentina, além de ser a segunda em passes efetuados, é a mais disciplinada com a ótima média de dez faltas por jogo e cinco amarelos recebidos. Só a Alemanha recebeu menos tarjetas, quatro.
Os dados se completam e traz frase prontinha e cristalina.
Quem passa mais, bate menos.
E essa máxima explica, em parte, o sucesso de argentinos e, claro, também dos alemães.
Vamos ao adversário do Brasil nas semifinais
A eficiência da Alemanha no controle do jogo beira nessa copa a repeitável marca de 85% de passes certos.
A rotação precisa de Khedira, Schweisteiger e Kroos multiplica o repertório alemão e cresce ainda mais quando Thomas Muller recua e completa a faixa de criação de jogadas.
A Alemanha vem forte e em alto astral.
E para você, amigo leitor deste Café, sabedor desde o início que Manuel Neuer atua como líbero, este escriba acredita na performance do goleiro do Bayern mais debaixo do três paus, como foi a atuação contra a França.
É jogo para ficarmos de olho em outra fera: Bastian Schweisteiger. Pode desequilibrar.
Mas e o Brasil, caros amigos?
A seleção do ex-zagueiro Luiz Felipe é a mais violenta entre as quatro semifinalistas da copa do mundo com 95 faltas e a campeã em cartões amarelos, com 10. Só contra a Colômbia pelas quartas de final, os canarinhos fizeram 31 faltas, das 54 do jogo. Mais parecem galos de briga.
O Brasil que chega às semi é a pior em passes e a segunda melhor em gols marcados ao lado dos alemães com dez tentos.
Quem esperava técnica, vê força copeira.
Quem esperava atacantes decisivos, vê zagueiros brilhantes decidindo jogos.
Mas sem Thiago Silva e Neymar?
Além da mudança com os substitutos, há uma obrigação de Scolari e seus comandados: a mudança de atitude, de tática e de passar uma borracha no circo dos últimos dias.
CIRCO GROTESCO
Primeiro vamos torcer o nariz.Em um espetáculo patético, sem noção mesmo, houve uma cobertura exagerada sobre as consequências de um lance duro, mas um acidente de percurso, que tirou Neymar da copa do mundo.
Houve um linchamento público, medíocre e covarde do limitadíssimo lateral colombiano, responsável pela contusão do craque brasileiro.
E Neymar, de jogador sensacional virou fonte para sensacionalistas.
Ao que se apresenta, o que chamávamos de jornalismo é tratado como fotonovela bizarra, dramalhão de quinta, tribuna de exceção, comédia caricata e ópera bufa.
De um “vá em paz”, dito por uma repórter em cobertura ao vivo, quando o atleta lesionado saia de helicóptero da Granja Comary a um “me salva, Neymar”, quadro espantoso de um programa de TV, as bizarrias não foram poucas.
Um exagero lacrimoso, oportunista e, repito, sem noção.
Até porque, ninguém morreu.
O jornalismo, esse sim todo quebrado, coitado, agoniza.
PROMESSA SE PAGA
Mas vamos deixar a vergonha alheia de lado e tratar do que prometemos linhas atrás.
Há uma tendência, que não descarto, na melhora do padrão de jogo da seleção sem Neymar. Por vários fatores. Entre eles, o aumento no número de passes na seleção, o futebol coletivo falar mais alto, o rendimento de Oscar aumentar e o Fred finalmente dar o ar da graça.Utilizaria William no decorrer do jogo, mas iniciaria com Paulinho ao lado de Luiz Gustavo. Manteria Fernandinho mais rotativo, liberando Oscar para a criação e o elo com Hulk e Fred. Maicon e Marcelo seriam alas concretos. Sim, pelo que vimos no torneio, prefiro Maicon a Daniel.
E mais. É jogo para ímpeto, atitude e personalidade.
Porque o Brasil precisa vencer o meio campo alemão sem a presença do seu craque.
Porque o Brasil precisa cansar gente muito talentosa e determinada do outro lado.
Na força leal, no passe certo, na bola redonda e com nervos no lugar.
O FUTEBOL AGRADECE A COPA
Nenhuma das quatro seleções encheu os olhos desse escriba.Todas perderam antes ou durante a copa, craques que poderiam fazer a diferença.
Todas passaram por altos e baixos e não há fantásticos nem favoritos para a final.
O que nos agrada, sinceramente.
Assim o futebol segue com suas improbabilidades. Com tua magia real.
Por vezes encantadora, outras vezes cruel, para sempre marcar um golaço em velhos e novos corações.
O futebol muda em nuances, margeia o indefinível.
Qual de nós sobreviveria, se perguntado há tempos atrás, na véspera de duelo entre Brasil x Alemanha respondesse que o futebol-força seria dos brasileiros e o futebol arte, dos alemães?
Certamente iria fazer uma ponta em fotonovela chinfrim, uma comédia caricata das piores ou uma lamentável ópera bufa.
Foto: Getty Images

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