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sábado, 12 de julho de 2014

O BAGAÇO, A BAGUNÇA E A BAGACEIRA

O atacante Robin Van Persie faz o primeiro gol holandês em cobrança 
de penalidade.  Era o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo  

Não foi o jogo “Laranja x Bagaço”.
A Holanda chegava à Brasília depois de uma maratona.  
Uma calorenta decisão nas oitavas, disputada contra o México a uma da tarde no Ceará e duas prorrogações consecutivas, pelas quartas e semifinal.   
A Holanda venceu o Brasil por um sonoro 3x0, nota final da ópera bufa do futebol nacional na vigésima copa do mundo.
Ou seja, até o "bagaço da laranja" esmagou o bando de Felipão.
Quem acompanha este blog sabe que estamos à vontade para analisarmos a pior campanha da seleção brasileira em mundiais.   
Uma seleção de quinta categoria sem repertório algum. Sem passe progressivo, sem esquema tático, sem preparo. Dez gols levados em dois jogos. Uma bagunça. 
E o que é pior, escuto a entrevista do técnico Luiz Felipe Scolari após novo vexame enquanto escrevo essas linhas. Scolari não assume o fracasso tático brasileiro. Um espetáculo de soberba e teimosia deprimentes. Errar é do jogo. Não assumir o erro... 
Vamos ao réquiem.
O time de Louis Van Gaal resolveu o jogo cedo com uma mãozinha do árbitro e da zaga brasileira em atuação bisonha.
Mal tinha rolado a bola, Arjen Robben, em jogada característica, arrancou no meio da zaga brasileira, Thiago Silva puxou o carequinha. Robben cai na área, a falta foi fora dela.
O árbitro argelino Dajamel Hamoudi vai na onda e Van Persie, que brigou pela jogada, bateu bem a penalidade, no ângulo esquerdo de Julio César. Holanda 1 x 0. Thiago Silva, pela falta, deveria ter sido expulso.
Foi o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo.
E estava fácil. 13 minutos depois do primeiro gol, Holanda faria 2 x 0 sobre o bando brasileiro.     
Mais uma vez com Robben pelo meio. Ele enxergou a ‘Avenida Maicon’ e brindou a incursão pela direita de Johnatan De Gúzman, impedido. A arbitragem errou mais uma vez e o ala canadense naturalizado holandês fez o cruzamento. David Luiz cabeceou errado para o meio da zaga. O ótimo Daley Blind, um dos destaques da copa, recebeu o presente, amaciou com o pé esquerdo e bateu com o direito. Belo gol.        
Foi uma boa partida para se mostrar o abismo tático que separa o treinador da seleção brasileira do futebol de ponta praticado hoje entre seleções de alto nível.
Porque a Holanda atacava e se encolhia, esperava como o adversário iria se comportar para dar seus botes longos com o avanço dos alas e a velocidade de Robben. Porque havia rotação de jogadores versáteis como Blind e Kuyt.
Porque havia sete a oito tipos de construção de jogadas, a depender do como o Brasil se apresentasse.
Os moços de amarelo só levavam perigo em lances de bola parada. Os de azul, sobravam em campo.
Poderia ter saído com quatro gols de vantagem em 45 minutos.
Nos vinte iniciais do segundo tempo, houve melhora brasileira no esforço de Oscar e só. Porque quando quis, a Holanda matou o jogo. E foi um golpe final.
Do mesmo carequinha, o dono dos laranjas, incansável entre os exaustos. Era mais uma assistência do rotativo Robben. Com a bola recebida em velocidade, Janmaat venceu Maxwell na corrida e cruzou. O volante Wijnaldum, livre fechou a conta. Aos 90 minutos, Holanda 3 x 0 Brasil.
No bagaço, o elenco holandês conquistou o terceiro posto no Mundial. 
Na bagunça, o defasado futebol brasileiro dá adeus.
Esperamos que com essa bagaceira, um adeus para nunca mais.
Mas sabe o que fica mesmo para esse escriba? 
Cheiro de laranja podre perdida na estrada.
Espero que estejamos errados.

Foto: Getty Images

A CAIXA 107


A não ser que a final entre argentinos e alemães seja um espetáculo de botinadas, Brasil e Holanda disputam o “título” de seleção mais violenta da vigésima copa do mundo, daqui a pouco, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. 
Ao longo de seis jogos disputados, as duas seleções que definem a terceira colocação tiveram comportamentos bem parecidos no combate à criatividade de meio campo e ataque adversários.
Pelo lado brasileiro, jogadores como Luiz Gustavo, Fernandinho, Marcelo e Paulinho miraram mais pernas do que bola nos embates.
Luiz Gustavo foi o mais faltoso nessa escalação constrangedora para quem curte futebol bem jogado.
O mesmo pode se dizer de Blind, Indi, De Vrie e De Jong quarteto que abriu sua caixa laranja de ferramentas no torneio.
O Mundial premia quem procurou jogar bola. Alemanha e Argentina juntas cometeram 135 faltas. Hermanos com 64 e germânicos com 71 infrações. 
Só a Holanda fez 106.
Brucutu, o Brasil de Hulk bateu uma vez mais: 107.
Infelizmente, caro leitor, por mais que esse número lembre um placar que você queira esquecer.
Curioso é constatar que a seleção brasileira além de ser a que mais bateu, foi também a que mais apanhou: 109 faltas recebidas.
Mas vergonha mesmo é saber que quem vestiu este uniforme em 2014, apanhou na verdade foi da bola. 
E como é uma tremenda falta de respeito este jogo de terceira ser disputado em um estádio que homenageia Garrincha, nosso eterno anjo das pernas tortas. 
Esse apanhou muito de pernas de pau. Mas a pelota, conhecida entre os mais antigos como balão de couro, era o seu pincel e as quatro linhas, moldura para obras primas.

Ilustração: Casso

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A ARGENTINA E O DEVER DE TODAS AS COISAS


Sergio Romero defende dois pênaltis holandeses e coloca a 
Argentina em uma decisão de copa do mundo pela quarta vez

Em uma quarta-feira chuvosa e de cinzas para o futebol brasileiro, Argentina e Holanda decidiram qual seleção irá enfrentar a Alemanha na final da vigésima copa do mundo.
Em um nove de julho, feriado da revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo.
Em um nove de julho, data da independência da Argentina.
Em campo, a força do melhor ataque das fases anteriores, o laranja, contra o selecionado mais disciplinado, o albiceleste.
Deu Argentina com todo o drama.
Com chuva, suor e lágrimas.
Depois de mais 120 minutos de bola rolando e de tiros livres da marca do pênalti.
O goleiro Sergio Romero, iluminado, pegou duas penalidades. Maxi Rodriguez converteu a quarta cobrança elevando compadritos e portenhos à sua quarta final em copas do mundo
Uma peleja com final imprevisível que, se não foi uma espetáculo de técnica, teve roteiro de semifinal.
E premiou a seleção que apresentou um futebol mais coletivo e afinado.
Porque a Argentina  teve, ao lado da Alemanha, um dos melhores índices de aproveitamento de passe na competição.
Sabella adotou a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, deu consistência ao setor defensivo. E como perdeu Di Maria para as semi, sacrificou Lionel Messi mais recuado e com uma sombra, o grandalhão De Jong .
Como analisei em outra conversa, o dez hermano se espalhava mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Talento e tática foram perdidos com a ausência de Angel.   
E para quem não acreditava, o sistema defensivo foi decisivo contra os apagados holandeses.
Robben até que tentou decidir nos minutos finais do tempo normal e da prorrogação. Mas lá estava o desarme espetacular do principal jogador na partida ao lado do arqueiro Romero e um dos preferidos do Papa Francisco: Javier Mascherano, absoluto.
A defesa latina levará para a final no Maracanã uma incrível invencibilidade de 373 minutos sem tomar gols com bola rolando.
O resultado de 4 x 2 nas penalidades leva a Argentina a repetir as finais de 1986 e 90 contra a Alemanha. Com um título para cada lado. 
Será um revanche que premia quem passa mais e acerta.
Quem chega à final passe por passe ocupando espaços.
Um futebol estratégico.
Um futebol que deu certo nesta Copa, passo por passo até o duelo final.
No caso dos nossos vizinhos, com chuva, suor e lágrimas vencedoras de uma quarta-feira, nove de julho de 2014.
Em nove de julho nascia uma bela argentina, Mercedes Sosa.
Em nove de julho morria um belo brasileiro, Vinícius de Moraes.
Após o embate em Itaquera.
Se estivesse no estádio paulista, Mercedes que amava o Brasil, por certo adaptaria e soltaria a voz: 
- Graças ao futebol que me deu tanto, me deu o coração que agita o seu marco. 
Se estivesse na São Paulo chuvosa, Vinícius que amava a Argentina
brindaria os teus versos:
- São demais os perigos também no futebol para quem tem paixão.
E é um dever de toda seleção honrar o seu país com paixão e entrega.
Porque outro argentino escreveu um vez que o dever de todas as coisas é ser uma felicidade.
Foi Jorge Luis Borges que, aqui pra nós, odiava futebol.
A América vive na copa.
Parabéns, hermanos.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

QUATRO TIMES E UM DESEJO

Quatro seleções da primeira linha do futebol mundial 
ainda correm atrás da bola para levantar esta taça 

25 dias depois (passa rápido, não?) este objeto de desejo é disputado agora por quatro sobreviventes na melhor copa dos últimos 60 anos, pelo menos. 
Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda  colocam duas revanches, vinte decisões e dez títulos em jogo nas duas partidas semifinais do mundial de 2014.
Escrevemos as seleções em ordem alfabética por uma razão bem simples. Ninguém é dona da cocada preta nessa hora de onça sedentas.
São fortes e tradicionais, robustas, mas nenhuma chega como rainha do pedaço.     
O modo ultra competitivo no qual se desenrola este mundial provocou uma alternância natural no desempenho das seleções no torneio.
No futebol contemporâneo é quase impossível você ter uma formação de jogadores que tenham performance linear em uma partida, que dirá em uma competição. Seja ela curta ou longa.
Os jogos disputados no mundial do Brasil são a maior prova disso.    
A oscilação é normal e aumenta mais a partir da competitividade e em diversos graus de dificuldades no campo ou fora dele.  
Não gosto e nunca fiz comparações de times com seleções.
São formatos de grupos com históricos, culturas e lógicas diferentes.
Mas isso não impede de constatações óbvias. Por um lado, em um clube você pode ter uma seleção dos melhores do mundo em cada posição, casos recentes de Barcelona Bayern e Real Madrid.
Por outro, nesta copa do mundo seleções tradicionais se apresentaram como times bem montados por seus treinadores. Casos de Alemanha, França e Holanda. E outras, sem relevâncias teóricas como Costa Rica e Argélia e que, partindo da mesma análise do coletivo poderiam, sem surpresas  na prática da competição, ir mais longe... A Costa Rica quase consegue. 
Vale a relação até aí. 


SUPER SEMIS
Vamos aos semifinalistas.
A seleção holandesa é um time de aproveitamento ativo. E essa qualidade deve-se a seu treinador. Dos 23 atletas laranjas convocados, Louis Van Gaal utilizou 20 em cinco jogos, Todos com a estratégia de mudar o repertório tático durante pelejas. Uma marca a ser guardada por treinadores brasileiros.
A Holanda é a melhor em gols marcados e a segunda mais faltosa.
Tem o futebol mais vibrante entre as quatro bambambans.  
É da Holanda o melhor jogador da competição. Robben.
Mas não é o bastante para cravar que vai derrubar a Argentina.
E os hermanos?
E a perda do Di Maria?
Em proporção, pode ser até pior para os argentinos do que a ausência de Neymar para o Brasil. Explico daqui a pouco 
Enzo Perez e Rick Álvarez disputam a vaga de Angel.
A Argentina  tem um dos melhores índices de aproveitamento de passe no mundial. Lionel Messi está mais competitivo, Sabella adota a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, liberou mais Leo. O dez hermano se espalha mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas  e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Em ótima fase, Angel Di Maria e sua lesão  causam dor de cabeça dupla em Sabella. Talento e tática são perdidos com a sua ausência.   
Vale ainda lembrar que a Argentina, além de ser a segunda em passes efetuados, é a mais disciplinada com a ótima média de dez faltas por jogo e cinco amarelos recebidos. Só a Alemanha recebeu menos tarjetas, quatro.
Os dados se completam e traz frase prontinha e cristalina. 
Quem passa mais, bate menos. 
E essa máxima explica, em parte, o sucesso de argentinos e, claro, também dos alemães.
Vamos ao adversário do Brasil nas semifinais
A eficiência da Alemanha no controle do jogo beira nessa copa a repeitável marca de 85% de passes certos. 
A rotação precisa de Khedira, Schweisteiger e Kroos multiplica o repertório alemão e cresce ainda mais quando Thomas Muller recua e completa a faixa de criação de jogadas.
A Alemanha vem forte e em alto astral.
E para você, amigo leitor deste Café, sabedor desde o início que Manuel Neuer atua como líbero, este escriba acredita na performance do goleiro do Bayern mais debaixo do três paus, como foi a atuação contra a França.
É jogo para ficarmos de olho em outra fera: Bastian Schweisteiger. Pode desequilibrar. 
Mas e o Brasil, caros amigos?
A seleção do ex-zagueiro Luiz Felipe é a mais violenta entre as quatro semifinalistas da copa do mundo com 95 faltas e a campeã em cartões amarelos, com 10. Só contra a Colômbia pelas quartas de final, os canarinhos fizeram 31 faltas, das 54 do jogo. Mais parecem galos de briga.     
O Brasil que chega às semi é a pior em passes e a segunda melhor em gols marcados ao lado dos alemães com dez tentos.
Quem esperava técnica, vê força copeira.
Quem esperava atacantes decisivos, vê zagueiros brilhantes decidindo jogos. 
Mas sem Thiago Silva e Neymar?
Além da mudança com os substitutos, há uma obrigação de Scolari e seus comandados: a mudança de atitude, de tática e de passar uma borracha no circo dos últimos dias.


CIRCO GROTESCO
Primeiro vamos torcer o nariz.
Em um espetáculo patético, sem noção mesmo, houve uma cobertura exagerada sobre as consequências de um lance duro, mas um acidente de percurso, que tirou Neymar da copa do mundo.
Houve um linchamento público, medíocre e covarde do limitadíssimo lateral colombiano, responsável pela contusão do craque brasileiro.
E Neymar, de jogador sensacional virou fonte para sensacionalistas.     
Ao que se apresenta, o que chamávamos de jornalismo é tratado como fotonovela bizarra, dramalhão de quinta, tribuna de exceção, comédia caricata e ópera bufa.
De um “vá em paz”, dito por uma repórter em cobertura ao vivo, quando o atleta lesionado saia de helicóptero da Granja Comary a um “me salva, Neymar”, quadro espantoso de um programa de TV, as bizarrias não foram poucas.
Um exagero lacrimoso, oportunista e, repito, sem noção.    
Até porque, ninguém morreu.
O jornalismo, esse sim todo quebrado, coitado, agoniza. 


PROMESSA SE PAGA
Mas vamos deixar a vergonha alheia de lado e tratar do que prometemos linhas atrás. 
Há uma tendência, que não descarto, na melhora do padrão de jogo da seleção sem Neymar. Por vários fatores. Entre eles, o aumento no número de passes na seleção, o futebol coletivo falar mais alto, o rendimento de Oscar aumentar e o Fred finalmente dar o ar da graça.
Utilizaria William no decorrer do jogo, mas iniciaria com Paulinho ao lado de Luiz Gustavo. Manteria Fernandinho mais rotativo, liberando Oscar para a criação e o elo com Hulk e Fred. Maicon e Marcelo seriam alas concretos. Sim, pelo que vimos no torneio, prefiro Maicon a Daniel. 
E mais. É jogo para ímpeto, atitude e personalidade. 
Porque o Brasil precisa vencer o meio campo alemão sem a presença do seu craque.
Porque o Brasil precisa cansar gente muito talentosa e determinada do outro lado. 
Na força leal, no passe certo, na bola redonda e com nervos no lugar.


O FUTEBOL AGRADECE A COPA 
Nenhuma das quatro seleções encheu os olhos desse escriba.
Todas perderam antes ou durante a copa, craques que poderiam fazer a diferença. 
Todas passaram por altos e baixos e não há fantásticos nem favoritos para a final.
O que nos agrada, sinceramente.
Assim o futebol segue com suas improbabilidades. Com tua magia real. 
Por vezes encantadora, outras vezes cruel, para sempre marcar um golaço em velhos e novos corações.
O futebol muda em nuances, margeia o indefinível. 
Qual de nós sobreviveria, se perguntado há tempos atrás, na véspera de duelo entre Brasil x Alemanha respondesse que o futebol-força seria dos brasileiros e o futebol arte, dos alemães?
Certamente iria fazer uma ponta em fotonovela chinfrim, uma comédia caricata das piores ou uma lamentável ópera bufa.

Foto: Getty Images

sábado, 5 de julho de 2014

A COPA NÚMERO UM

Louis Van Gaal abraça sua arma secreta para disputa de tiros livres. Tim Krul defende 
duas vezes e leva Holanda às semifinais contra a Argentina, reedição da final de 1978. 

Na copa de 1990 o ótimo goleiro Luis Conejo, da Costa Rica, foi eleito o melhor da posição ao lado do argentino Goycochea.
24 anos depois, o seu pupilo Keylor Navas, se não repetir o feito do mentor Conejo, vai estar presente em uma almejada galeria de mundiais. A dos grandes goleiros.
Nesta copa número um, você pode escolher: Tim Howard (EUA), Júlio Cesar (Brasil), Ospina (Colômbia), Courtois (Bélgica), Neuer (Alemanha), Bravo (Chile), Ochoa (México) e, óbvio, Keylor Navas, da valente e invicta Costa Rica.
Difícil a escolha, não é?           
Como é difícil ser goleiro nesta vida.
Porque vale sempre repetir uma velha paródia: 
Vida de goleiro é difícil, é difícil como quê... 
Difícil e injusta.
Como o futebol e suas múltiplas possibilidades.
Com os teus encantos cruéis.
Foi assim com o ótimo arqueiro costarriquenho.
Não é exagero descrever o duelo de 120 minutos entre Holanda e Costa Rica de um time contra um homem só.
Navas simplesmente fechou o gol diante de um esquadrão laranja montando por Louis Van Gaal. 
Foram três atacantes no primeiro tempo: Arjen Robben, Van Persie, autênticos, e Sneidjer, meia avançado.
Aos 30 do segundo tempo, o estrategista holandês tira o meia Depay e coloca Lens, o quarto atacante.     
Na virada de tempo da prorrogação, não teve conversa: remontou sua equipe, arriscando o quinto homem de área, Huntelaar sacando o zagueiro Mathias Indi.
E foi uma saraivada de ataques quando não defendidos, bola batendo nas traves, salva por zagueiro em cima da linha. Sacos e sacos de laranjas e Navas dando boas novas:
- Aqui não passa nada!. 
Para esse escriba, não foi o melhor 0 x 0 que assistimos. Até porque só um selecionado atacou. Mas foi bom de ver o Navas, em luta solitária pela sua Costa Rica. Foi bom de ver o amplo repertório tático dos ataques holandeses.
Bom de ver Robben jogar.
E, antes de tudo, para se ter um vencedor justo na ciência das quatro linhas, é sempre bom de ver um treinador inteligente no banco de reservas.
Já escrevi sobre Louis Van Gaal no nosso Café na Copa.
O técnico holandês já utilizou 87% dos seus 23 jogadores escolhidos para o mundial.
No último minuto da prorrogação, Van Gaal colocou o seu vigésimo atleta convocado para entrar em campo.
O terceiro goleiro, Tim Krul com seus 1,93m e uniforme verde.
Uma mudança arrojada, corajosa de Van Gaal.
Madura.
Vale ressaltar: o titular Cillisen se saiu contrariado, mudou de ideia rapidinho. Krul, goleiro do Newcastle, é especialista em cobranças de penalidades. Era carta na manga para as cobranças dos tiros livres.
O estilo de Krul lembra muito o de Waldir Peres, goleiro do São Paulo e da seleção nas décadas de 1970 e 80.  O goleiro malandro, iconoclasta, abusado e... pegador.
E foram as excelentes defesas frente às tentativas de Bryan Ruiz e Umaña que garantiram a ida da Holanda para as semifinais de uma copa do mundo pela quarta vez.   
A despedida da Fonte dos Gols da copa foi em uma tarde de goleiros.
Claro, uma tarde número um.
Viva Navas.

Foto: Sergio Moraes/Reuters 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONTAGEM PROGRESSIVA


 Restaram quatro seleções latinas e quatro europeias na luta pela taça. E não há favorito   

Faltam dez dias para o fim da vigésima copa do mundo de futebol.
Entramos na fase aguda da competição com a disputa das quartas de final.
Oito seleções estão na briga, entre elas quatro campeãs mundiais.
E não há favoritos.
Só para se ter ideia do tamanho do equilíbrio, nada menos que três finais de copas anteriores podem se repetir nas partidas semifinais desta edição.
A de 1978, Argentina x Holanda. Brasil x França em 98 e Brasil x Alemanha em 2002.
A seleção alemã entra para a história com mais uma participação nas quartas. Será a décima sexta consecutiva, um recorde em mundiais. 
Mas o dado só serve para dar charme em texto.
Repito, não há favoritos.
O equilíbrio continua na origem dos selecionados.
Quatro europeus.
Quatro latinos.
Colômbia e Costa Rica sonham com classificação inédita.
A Bélgica já alcançou o quarto lugar em 1986.
A Holanda quer deixar de ser vice.
Brasil, Alemanha, Argentina e França juntos acumulam 11 títulos mundiais. 
Faltam dez dias.
Dez dias, oito jogos imprevisíveis.
E a contagem é regressiva?
Nunca foi.
É progressiva. 
Degrau a degrau até o topo.
E lá estará um campeão erguendo a taça. 

domingo, 29 de junho de 2014

COBRAS LARANJAS SABEM DAR BOTES EM DUELOS AO SOL



Estratégia holandesa derruba México de Javier Hernandez que soca gramado do Castelão 

Não me chamem de doido. O calor foi decisivo para a classificação da Holanda às quartas de final sobre a guerreira, mas ingênua, seleção mexicana.
A explicação será dada, tenham certeza.  Mas vamos antes analisar um pouco este bom jogo, disputado sob um sol de rachar miolos na bela Fortaleza, o luxo da aldeia como bem cantarolou Ednardo.
Os mexicanos com mais ímpeto tentaram acuar a Holanda logo de início, o trio Guardado, Herrera e Giovane buscavam espaço para arremates ou servir a Peralta.
 A tática era correta, mas mostravam do outro lado um adversário calculista. Os holandeses, recuavam, mas arquitetavam um contra-ataque. Era até então, o que se imaginava ser a principal arma de Louis van Gaal, o técnico holandês. 
A bola sempre passava por Nigel de Jong, enquanto esteve em campo, ditava a construção do meio campo holandês, com Sneidjer caindo pela esquerda e Robben na rotação. 
Uma contusão tirou o ótimo meia defensivo do Milan e deu a Van Gaal a primeira das chances para conter a temperatura mexicana. Estrategista, com uma alteração,  colocou vigor físico e proteção em campo com Mathias Indi, deslocou Kuyt para a direta e trouxe Blind para a criação.  
Mas não era fácil.  E o México foi superior no primeiro tempo. 
Em pelos menos dois momentos com Layun e Herrera poderia virar o intervalo com vantagem no placar.
Pela Holanda, a bronca. Erro do árbitro português Pedro Proença em não marcar no finalzinho da etapa um penalidade clara sobre Robben. Foi atingido duas vezes na mesma jogada. E o apito não soou.
Mas serviu para acender o sinal de alerta.
A Holanda estava viva.
A pressão verde continuou a 40 graus e o gol veio logo no início do segundo tempo. 
O zagueiro Vlaar rebate errado de cabeça. Vem um chutaço de Giovane dos Santos sem chances para Clissen. México 1 x 0. 
O Castelão, com muchachos em maioria, vibrava e torrava em sol intenso. A vaga estava perto. 
Mas aí o técnico mexicano Miguel Herrera resolveu brincar com o coração da sua torcida. Encolheu o time. Pode até ter raciocinado com lógica, ao imaginar que trancava a possibilidade da principal holandesa funcionar. O contra-ataque com Robben. 
Mas Herrera esqueceu de um senhor mal humorado que estava sentado no banco laranja. 
A decisão pela retranca mexicana acontecia aos  15 minutos do segundo tempo com a troca  de Giovane por Javier Aquino. Povoava o meio campo. Recuava seus alas. E montava uma barreira para conter o adversário.
Mas se a copa tem uma cozinha, ela é da Holanda. 
Não deu outra.
Em trinta minutos, o bom goleiro Ochoa só faltou fazer chover embaixo das traves. Sortudo, quando não defendida, a bola batia em sua cabeça, batia na trave. E não entrava.
 Mas para a Holanda não tinha Ochoa nem chuva.
O calor e o sol inclemente permaneciam e veio o fato que prometemos explicar o início desta  crônica: o tempo de hidratação.
Tudo que Louis Van Gaal precisava para esfriar a cachola dos seus comandados e criar dois botes fatais.
O refresco virou castigo para o México.
Ali Van Gaal reposicionou Sneidjer em campo.
Seria o elemento surpresa em bolas paradas. Só que fora da área. 
O primeiro bote veio em um petardo do excelente meia do Galatassaray, depois de posicionamento, rastejante, excelente. Sem defesa para o bom arqueiro mexicano. Empate holandês.
Também do tempo de hidratação, veio a lembrança de Van Gaal para Robben repetir a mesma jogada do final do primeiro tempo.
Só que do lado invertido.
E ele, como serpente bailou sobre Rafa Marquez. O ótimo zagueiro perdeu o tempo da bola, não soube apenas cercar e, afoito, acertou Arjen. Mesma penalidade máxima, só que dessa vez o português apontou para a marca da cal.    
Klaas Jan Huntelaar bateu bem. Ochoa não saiu na foto.
Aos 48 minutos do segundo tempo.
Em seis minutos, na cara do apito final, as quartas para os muchachos foram para as cucuias.     
Em seis minutos, as cobras criadas da Holanda mostraram que estratégia e inteligência são essenciais quando tudo joga contra.
Um dos inimigos, o calor, virou aliado. 
Os de “Netherlands” também sabem: só pode haver um.
E as Cobras Laranjas são craques em dar botes certeiros nos duelos ao sol.

Foto: Eduardo Verdugo AP/Photo

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O MECÂNICO LARANJA

Arjen Robben, mestre em contrataques, mais uma vez decisivo para a vitória holandesa 

Itaquerão, 23 de junho. Copa do Mundo de 2014. 
Palco para decidir a colocação das já classificadas Holanda e Chile para as oitavas de final.
O selecionado do irrequieto Jorge Sanpaolli poderia se sentir em casa no Itaquerão ensolarado. 
Por razões que vão muito além do sobrenome do seu treinador.
Maioria da assistência era roja, clima de festa épica, hino a capella. Latinidades. 
Mas tinha um time laranja do outro lado.
E um estrategista com quilômetros rodados no seu comando.
E quem há de negar que os holandeses foram superiores?
Este escriba não vai se atrever. 
A linha de ação montada por Louis van Gaal deixou os ávidos chilenos tomarem conta do campo, gastarem o gás dos impetuosos. Os holandeses esperavam.
Matreiros.
Vez por outra, um arranque de Robben, uma articulação de Sneidjer e o recolhimento, o estudo. A sapiência.
Não houve retranca holandesa. Houve momentos sinuosos, prontos para um bote. Ou dois. 
E van Gaal sabia que a estatura da defesa chilena era um dos pontos fracos.
Leroy Fer, atacante do Norwich City, com seus quase 1,90m, saiu do banco de reservas orientado de como se posicionar entre os zagueiros de estatura mediana. Cabeceou com estilo sem chances para Bravo. Tento com dedo e mensagem no ouvido do técnico holandês ao seu pupilo grandalhão. Chilenos desarticulados. Sanpaolli sem cabelos para arrancar. 
Outra das táticas para atingir as vulnerabilidades sul-americanas já tinha sido usada na segunda metade do primeiro tempo. Também seria na última faixa do giro final. 
Van Gaal, cartesiano, também sabia que o Chile dando espaços, o arranque de Robben seria fatal. 
Em mais uma arrancada espetacular do melhor atleta da copa do mundo até agora, a Holanda matou o jogo. Ninguém segura Robben. Ele serve com muito suco e muito afeto a Memphis Depay. 
Cortejado pelo Tottenham, mas ainda do PSV, Depay 2 x 0
Ele também saiu do banco de reservas, orientado por Van Gaal, para garantir a liderança.
Van Gaal. O mecânico laranja.

Foto: The Guardian