terça-feira, 8 de julho de 2014

PEDRO, UM BRASILEIRO


Não conheço jornalista esportivo que não seja apaixonado.
Paixão verdadeira pelo que faz e por sua fonte de inspiração.
Seja em um dojô, em uma mesa, em uma quadra, em uma piscina, em um campo de futebol. 
Seja pendurado em um telefone, no calor de uma entrevista, na investigação, na frente de um teclado, de um microfone ou de uma câmera.
Ao levar dos anos, quando o caminho natural da profissão conduz o nosso olhar para horizontes mais críticos, esta paixão continua.
Por mais que a frieza de textos crus e gráficos cartesianos batam à porta. Por mais que a gente tenha que discutir a relação.
Quando vivia na labuta das redações, fechava os cadernos esportivos e preparava colunas semanais de um jornal em um período e conduzia um programa de TV na área cultural em outro. Dia & noite. Noite & dia.
Era rotina implacável para se buscar o diferencial.
E era comum procurarmos outros ambientes, fora do jornal ou da TV, para de caneta em punho, traçarmos títulos e textos. Sacadas e temas. Roteiros e pautas.
Um desses cantinhos da velha Salvador era o Trailler do Gaúcho, pertinho da orla.
Dalí saíram centenas de títulos, pautas e crônicas para a TVE baiana ou o Bahia Hoje, diário impresso que tinha um caderno de esportes de responsa. Por lá passaram os caros Alan Rodrigues, Cândida Silva, Cleusa Duarte, Cristina Mascarenhas, Flavio Novaes, Kajá, Paulo Lafene, Paulo Leandro, Renatinho Ferreira...    
Enquanto almoçava ou jantava “o melhor sanduíche do planeta”, tascava no papel garranchos para utilizar depois. 
Era engraçado: títulos e crônicas para o jornal na hora do almoço. Roteiros, comentários e pautas para TV na madruga durante o jantar...
Pedro era o gaúcho, responsável pelo lugar e pelas receitas estupendas dos “sandubas pampeiros" que matavam a fome desse escriba e de tantos notívagos. Criaturas da noite.
O grande camarada Pedro, clone do ator Jonas Bloch, foi testemunha das minhas alegrias e de tantas aflições de ter à sua frente uma folha em branco e o vazio cruel de não sair nadinha da cachola. 
Em uma dessas torturas madrugadeiras, vendo o amigo distraído em apuros, precisando de um tema, de um mote,  Pedro tentou me ajudar.
E contou a sua história. 
Refastelou seus quase dois metros na “mesa da diretoria”, ajeitou a velha boina, e com a típica postura imponente, desandou a narrar.    
Estudante de Arquitetura & Paisagismo, Pedrão se mandou de mochila e cuia para a Alemanha querendo mudar o mundo.
No final dos anos de 1970, perambulou por Frankfurt, Berlim, Munique. Bavieras...   
Com alemão fluente, nas horas vagas era guia e tradutor de vários brasileiros, entre eles diversos escritores, que beberam e muito na fonte cultural germânica a partir da presença solidária do grandalhão.
Escrevi uma vez que para um abismo muda-se uma letra.
Foi o caso do solidário Pedro, um gaúcho solitário.
Ao relento das lutas inglórias em um país distante, das batalhas interiores, do abandono, nosso personagem resolveu pegar o caminho de casa.       
Voltou para sua cidadezinha de fronteira na pontinha do Brasil.
Ao Pedro, o levar dos anos trouxe couraças,  endurecimentos e um olhar pra lá de desconfiado. Foram várias as decepções vividas em terras alemãs, provocadas por falsos amigos brasileiros.
Na pontinha do Rio Grande, em um fim de tarde chuvoso e frio, chegou uma carta para ele. O selo tinha a banderinha da Colômbia. Era 1990.
As linhas escritas por um garoto de oito anos apresentavam ao Pedro o seu filho, gerado de um romance regado à boemia e aos encantos de Munique com uma bela morena de Bogotá, durante a copa de 1982.
Juan Pedro, se não me falha a memória era o nome do garoto, escreveu a carta porque queria conhecer o pai. E o Pedro não sabia que tinha um herdeiro. 
Naquele momento e já passava das duas, vi o nosso amigo prender a respiração. Ia argumentar alguma coisa e ele não me deixou abrir a boca.
- Calma lá, guri. Deixar continuar, senão não termino, tchê.
E ele seguiu no relato.
Depois de ler a carta, não pestanejou. No outro dia, pegou suas economias, investiu em um trailler. Engatou em uma velha Caravan e partiu do sul do Brasil rumo à Colômbia.
A determinação do velho amigo rendeu o encontro, a emoção de conhecer o filho e a mudança de sua vida.
Isto porque no seu retorno de terras colombianas, por causa do fruto de um romance na Alemanha, com destino à pontinha do Brasil, a velha Caravan não agüentou e ele parou na Bahia.  
E por aqui ficou, montou o point dos notívagos, dos músicos, dos escribas apaixonados, dos jornalistas na labuta diária.
Conheceu este velho amigo, que às três da matina daquela madrugada, tentava esconder lágrimas teimosas que rolavam depois de ouvir a narrativa .
Na Bahia, Pedrão viu o seu Brasil cair em 1990, ganhar o tetra em 94, perder para os franceses em 98.
A última vez que tentei encontrá-lo foi em 2002, logo depois do Brasil vencer a Alemanha na final da copa do Japão. 
Não o achei, nem nunca mais o vi.
Como nunca contei essa história.
Hoje lembrei dela.
Não sei se esse brasileiro fora de série, mora na Colômbia com o filho, retornou à Alemanha, sua segunda paixão, ou continua naquela cidadezinha na pontinha do nosso Brasil.
Por certo onde estiver, plantado ansioso esperando a bola rolar para Brasil x Alemanha.
Por certo, estará feliz. 

Ilustração: Janice Lucier

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