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sábado, 5 de julho de 2014

A COPA NÚMERO UM

Louis Van Gaal abraça sua arma secreta para disputa de tiros livres. Tim Krul defende 
duas vezes e leva Holanda às semifinais contra a Argentina, reedição da final de 1978. 

Na copa de 1990 o ótimo goleiro Luis Conejo, da Costa Rica, foi eleito o melhor da posição ao lado do argentino Goycochea.
24 anos depois, o seu pupilo Keylor Navas, se não repetir o feito do mentor Conejo, vai estar presente em uma almejada galeria de mundiais. A dos grandes goleiros.
Nesta copa número um, você pode escolher: Tim Howard (EUA), Júlio Cesar (Brasil), Ospina (Colômbia), Courtois (Bélgica), Neuer (Alemanha), Bravo (Chile), Ochoa (México) e, óbvio, Keylor Navas, da valente e invicta Costa Rica.
Difícil a escolha, não é?           
Como é difícil ser goleiro nesta vida.
Porque vale sempre repetir uma velha paródia: 
Vida de goleiro é difícil, é difícil como quê... 
Difícil e injusta.
Como o futebol e suas múltiplas possibilidades.
Com os teus encantos cruéis.
Foi assim com o ótimo arqueiro costarriquenho.
Não é exagero descrever o duelo de 120 minutos entre Holanda e Costa Rica de um time contra um homem só.
Navas simplesmente fechou o gol diante de um esquadrão laranja montando por Louis Van Gaal. 
Foram três atacantes no primeiro tempo: Arjen Robben, Van Persie, autênticos, e Sneidjer, meia avançado.
Aos 30 do segundo tempo, o estrategista holandês tira o meia Depay e coloca Lens, o quarto atacante.     
Na virada de tempo da prorrogação, não teve conversa: remontou sua equipe, arriscando o quinto homem de área, Huntelaar sacando o zagueiro Mathias Indi.
E foi uma saraivada de ataques quando não defendidos, bola batendo nas traves, salva por zagueiro em cima da linha. Sacos e sacos de laranjas e Navas dando boas novas:
- Aqui não passa nada!. 
Para esse escriba, não foi o melhor 0 x 0 que assistimos. Até porque só um selecionado atacou. Mas foi bom de ver o Navas, em luta solitária pela sua Costa Rica. Foi bom de ver o amplo repertório tático dos ataques holandeses.
Bom de ver Robben jogar.
E, antes de tudo, para se ter um vencedor justo na ciência das quatro linhas, é sempre bom de ver um treinador inteligente no banco de reservas.
Já escrevi sobre Louis Van Gaal no nosso Café na Copa.
O técnico holandês já utilizou 87% dos seus 23 jogadores escolhidos para o mundial.
No último minuto da prorrogação, Van Gaal colocou o seu vigésimo atleta convocado para entrar em campo.
O terceiro goleiro, Tim Krul com seus 1,93m e uniforme verde.
Uma mudança arrojada, corajosa de Van Gaal.
Madura.
Vale ressaltar: o titular Cillisen se saiu contrariado, mudou de ideia rapidinho. Krul, goleiro do Newcastle, é especialista em cobranças de penalidades. Era carta na manga para as cobranças dos tiros livres.
O estilo de Krul lembra muito o de Waldir Peres, goleiro do São Paulo e da seleção nas décadas de 1970 e 80.  O goleiro malandro, iconoclasta, abusado e... pegador.
E foram as excelentes defesas frente às tentativas de Bryan Ruiz e Umaña que garantiram a ida da Holanda para as semifinais de uma copa do mundo pela quarta vez.   
A despedida da Fonte dos Gols da copa foi em uma tarde de goleiros.
Claro, uma tarde número um.
Viva Navas.

Foto: Sergio Moraes/Reuters 

CHORA POR TI, ARGENTINA!



Gonzalo Higuaín recupera bom futebol,  Argentina se classifica, mas perde Di Maria 

Não está sendo fácil para a Argentina.
Para chegar às semifinais do Mundial no Brasil, os hermanos estão deixando os seus torcedores à beira de um ataque de nervos. 
Foi assim contra bósnios, nigerianos e iranianos na primeira fase.
Foi assim contra os suíços nas oitavas. 
E não foi diferente frente aos belgas nas quartas de final, sob sol inclemente de Brasília. 
Mais um embate disputado a partir de uma da tarde. 
Foi a quarta vez que o time de Alejandro Sabella enfrentou este horário absurdo na competição.  
O solitário e belo gol de Gonzalo Higuaín aos sete da etapa inicial garantiu a Argentina, 24 anos depois, entre os quatro melhores de uma copa.
A jogada mais uma vez começou com Lionel Messi, passou por Angel Di Maria e, em passe cruzado, a pelota raspou em Verthongen e o artilheiro do Napoli se apresentou para a copa em momento decisivo. De primeira, sem chances para Courtois, 1 x 0.        
Escrevi antes do início da copa que a Bélgica não seria a surpresa, decantada por muitos. Pelo futebol praticado na Eurocopa e nas eliminatórias, era candidata ao título.
A eliminação nas quartas e uma caricatura opaca do futebol antes praticado nas duas competições citadas dão aos belgas o lugar de uma das decepções da copa. Menor que a da Espanha, obviamente, mas se esperava mais dos comandados de Marc Wilmots.
Foi dele parte da responsabilidade pelo fracasso dos diabos vermelhos no Mané Garrincha. Não soube imprimir velocidade e capacidade de criação nos pés de Hazard, outro abaixo da crítica, para furar o bloqueio argentino. 
Wilmots também não soube inverter as ações de De Bruyne no meio campo e ataque. Demorou e muito para sacar do jogo o apagado Origi e acionar Romelu Lukaku. E seu time abusou até a exaustão de chutões horrorosos buscando a jogada aérea e as cabeçadas de Felainni.
Exceção se faça ao ótimo Thibaut Courtois.
O arqueiro parou Lionel Messi mais uma vez. Já tinha brilhado frente a La Pulga defendendo as cores do Clube Atletico de Madrid.
Com os mesmos 22 anos de Neymar e James Rodriguez, é mais um craque a dar adeus. E foi um dos responsáveis para lembrarmos que esta foi também a “copa dos goleiros”.
Não fosse Courtois, Messi teria matado o jogo, aos 48.
Permitiu tentativa de reação belga no último minuto, aos 49, deixando as duas torcidas à beira de um ataque de nervos.
Nervos que ficaram no lugar nos uniformes albicelestes.
Até o apito derradeiro.
Hermanos se juntavam a Brasil e Alemanha. Dez títulos mundiais na semifinal. Uma super semi.
Destaque em campo, o meia defensivo Lucas Biglia despenca aos prantos. Higuaín, que tinha sido substituído por Palácios, invade o gramado às lágrimas... 
Os argentinos também choram. 
Até um marciano sabe o que é uma copa do mundo. Imagine um argentino.  
- “Isso não vai ser fácil”. 
Este é o primeiro verso de “Don’t Cry For Me Argentina”, a música mais famosa da peça Evita, escrita por Adrew Loyd Weber e Tim Rice em homenagem à atriz e líder política Eva Peron.
O espetáculo estreou em 1978, mesmo ano da conquista do primeiro título mundial dos hermanos, no país mergulhado em uma ditadura estúpida e sangrenta.
Seguimos, Argentina. 
Por isso não chores por nós.
Sabemos como é. 
Choras por ti e verás que belo é chorar assim.
Com os nervos no lugar, sem fugir da luta.
E encarando as baixas, mesmo com as vitórias.
Por que a exemplo de Neymar desfalcando o Brasil, Angel Di Maria, lesionado, está fora da copa do mundo.
Não será fácil.

Foto Getty Images

sexta-feira, 4 de julho de 2014

ALEGRIA E DOR. BRASIL VENCE, SEGUE E PERDE NEYMAR

Fratura em vértebra tira principal estrela brasileira na difícil caminhada rumo ao título 

A seleção brasileira precisava jogar muita bola para vencer a Colômbia.  
Jogou.
O Brasil ganhou a vaga em alta rotação, inversão de papéis, futebol envolvente em boa parte do jogo e perda importante para o seguimento da copa. 
Teve a sua melhor atuação na copa do mundo durante 78 minutos da dramática partida no Castelão, em Fortaleza. Ganhou por 2x1 dos colombianos e perdeu Neymar. 
No finalzinho do jogo, o lateral direito Zuniga acertou, em entrada dura, uma joelhada por trás no artilheiro da seleção. 
Neymar sofreu fratura na terceira vértebra da lombar e está fora da copa do mundo. 
Em campo, o craque brasileiro teve atuação mediana. Curiosamente foi o único jogo até agora em que se dependeu menos dele. E vai ser assim, infelizmente, na luta do Brasil pelo hexacampeonato.  

O JOGO
Enquanto manteve a posse de bola, o time de Luiz Felipe Scolari foi soberano diante de uma Colômbia caricata com futebol quadrado, com o perdão do trocadilho, mas merecedor.
O meia da Fiorentina, quase xará do adjetivo, foi a grande decepção no selecionado de Pékerman. Não rendeu e afundou as performances anteriores de James Rodriguez no mundial.
E a leitura da baixa produção das pérolas colombianas passou por um nome: Fernandinho.
O meia defensivo brasileiro anulou a criação do meio-campo adversário.
Deu consistência, provocou o crescimento do futebol de Oscar, equilibrou a instabilidade de Paulinho em outras jornadas e renasceu o setor que devia uma bela atuação na seleção brasileira. Foi importantíssimo, mas não foi decisivo.
O futebol é fascinante porque é imponderável e surpreendente.
Em qualquer bate papo, decantamos duplas nacionais em copas do mundo de olhos fechados: Pelé & Garrincha, Didi & Vavá, Bebeto & Romário, Ronaldo & Rivaldo.
Todo eles craques ofensivos. Meias e atacantes.
Nesta copa, é diferente.
Desta vez na geografia louca do mundo da bola com suas mágicas duplas, o melhor ataque vem da defesa.
Uma dupla de zagueiros é quem desequilibra.   
Thiago Silva & David Luiz são responsáveis pelos gols da vaga brasileira para o jogo semifinal. 
Pela décima vez na história o Brasil está entre os quatro melhores do mundo.
Thiago foi um monstro em Fortaleza. 
O gol marcado aos seis minutos provava que o capitão entrou para decidir. 
E lá na cozinha brasileira, a participação dele foi mais do que eficiente. 
Beirou a perfeição. 
Brasil jogava bem e daqui a pouco nós falaremos de David, que já era implacável na marcação com a mesma garra e ótimo posicionamento na antecipação frente aos atacantes adversários.  
A Colômbia permanecia com sua caricatura de quatro lados para lugar nenhum. 
O meio campo canarinho rendia. Oscar participava mais da criação das jogadas e seguia bem no desarme. Hulk fazia bela partida.
Não fosse o Ospina, goleiro colombiano, a seleção brasileira já estaria com bela vantagem.
Fred puxava a marcação dos zagueiros. Permitia a infiltração do Hulk em duas jogadas a partir das falhas sucessivas do lado direito da defesa colombiana. Sumido o nove brasileiro, mas eficaz.
Não é o melhor do mundos, mas funcionou com a boa mobilidade do Hulk. O grandalhão deixou de ser babá do Marcelo. Mas isso porque o lado direito da Colômbia está bem fraquinho no jogo. Zuniga era engenheiro de avenidas.

A PARÁBOLA DE DAVID
O jogo virava de tempo com festa nas arquibancadas e confiança de que a classificação viria 
Os colombianos melhoraram no giro final e o meio-campo brasileiro decaiu de produção. A performance de Paulinho caiu. Oscar voltava mais para o desarme.
As falhas surgiam e o espaço intermediário no sistema defensivo começavam a aparecer.
Mas veio a segunda bola parada decisiva da peleja. Aos 22 minutos.
A falta à meia distância, quase na intermediária e um cabeludo colocou a bola debaixo do braço.
A corrida desengonçada e o toque de maestria. Ospina se estica ao limite. Limite?
Todos os golaços são inventados para superá-lo. Para alcançar o indescritível.  
A parábola de David ganhou lugar na galeria das obras de arte criadas na moldura das quarto linhas. 2 x 0 Brasil.   
Para muitas gerações de boleiros, o placar mais traiçoeiro no mundo da bola.

AGONIA E DOR
Pekerman mexe no time colombiano. Entrada de Bacca mudou ataque colombiano. Habilidoso o rapaz. Tanto quanto é James Rodrigues. Os 12 minutos finais e mais o tempo extra foram para testar novamente o coração do torcedor brasileiro .
Porque o que já era preocupante antes do bendito segundo gol, se tornou drama aos 34.
Pênalti claro para Colômbia. Erro de Maicon provocou contrataque comandado por James, o passe perfeito para Carlos Bacca. 
O atacante do Sevilla é derrubado por Julio César. Velasco aponta a marca da cal.  
James Rodríguez na cobrança.
Se já não é fácil pegar pênalti, de craque canhoto aí sim é loteria... 1 x 2.
O garotão colombiano entrou para a seleta galeria de artilheiros com seis gols em copas do mundo.
E veio a pressão óbvia. A mesma agonia. Tem que ser sempre no sofrimento?   
Luiz Felipe erra ao tirar Hulk e colocar Ramires.
Colômbia cresce.
A seleção brasileira não consegue manter a posse de bola e segurar o ímpeto do adversário. 
Felipe acerta. Tira Paulinho que abria cada vez mais buracos no sistema intermediário na defesa brasileira. Entra Hernandes.
Cinco minutos de acréscimo. Desespero no banco brasileiro. Reservas em pé. Scolari adiantava relógios imaginários. Pedia o fim.
Nesta copa imprevisível, apito de juiz sempre vira suspiro de alivio. E dor para os perdedores caindo sempre de pé. Foi o caso da brava Colômbia.   
Classificado, o Brasil encerrava o jogo com quatro volantes: Fernandinho, Ramires e Hernandes e… Henrique. 
Porque o homem de confiança de Luiz Felipe foi o último a entrar depois de joelhada criminosa de Zuniga em Neymar, aos 41 minutos do segundo tempo.  
O dez brasileiro saiu com trauma na coluna direto para uma clínica da capital cearense. 
Foi detectada a lesão: fratura na terceira vértebra da lombar. 
A sofrida classificação brasileira tirou seu capitão Thiago para o próximo jogo.
Tirou sua principal esperança na luta para chegar a final e conquistar o título.
Em 1962, Aymoré Moreira apresentou ao mundo Amarildo, substituto do contundido Pelé, e conquistou o bi mundial.  
Brasil e Alemanha vão reeditar a final de 2002. Luiz Felipe Scolari era o técnico brasileiro na conquista do pentacampeonato. 
Doze anos depois de Yokohama e 52 após o feito no Chile, a seleção brasileira de futebol vive o desafio de enfrentar um grande rival e sem o seu principal jogador 
Cabe a Scolari reinventar uma seleção e forjar novas esperanças.
Porque na constelação desta bela copa, fica faltando uma estrela a partir de hoje. 

Foto: Reuters

ALEMANHA DO PASSE, DA PEÇA, DA POSSE E DA PACIÊNCIA

Em sua melhor atuação na copa, zagueiro Mats Hummels repete jogada característica marca 
único gol sobre a França e carimba Alemanha na quarta semifinal consecutiva em mundiais 

Os treinadores Joachim Low e Didier Deschamps não pestanejaram nem marcaram touca.
Mudaram as escalações de Alemanha e França para o duelo a sol pleno do Rio de Janeiro pelas quartas de final da copa do mundo.
Low finalmente colocou Lahm na ala direita. Sacou Mario Gotze para a entrada de Miroslav Klose no ataque e montou o meio campo preferido do torcedor germânico e desse escriba com Sami Khedira, Bastian Schweinsteiger e Toni Kroos. 
Os bleus foram para a jornada com o excelente trio na meiúca mantido com Yohan Cabaye, Blaise Matuidi e Paul Pogba. E mexeu na frente com a saída de Giraud para a entrada do arisco Griezmann.
Primeira etapa do clássico europeu foi em alta rotação.
O destino do jogo começou a ser desenhado logo no início.
Aos 12 minutos, depois de um lá e cá provando que seria um jogão, foi na bola parada que a Alemanha alcançou a vantagem mínima e, por que não dizer, máxima.
Em cobrança de falta, Toni Kroos fez um cruzamento milimétrico na cabeça de Mats Hummels. No duelo de zagueiros e em jogada característica, o craque do Borussia Dortmund venceu Varane. Alemanha 1 x 0.            
Na frente do placar, os alemães bem postados no meio anulavam com ótima marcação as progressões de Matuidi e Pogba.
A França sentia o gol e buscava espaços. A saída eram os lançamentos longos e a boa movimentação de Mathieu Valbuena.
Foi assim que quase iria conseguir a igualdade, não fosse estupenda defesa de Neuer em chute o atacante do Olympique de Marselha.
Apesar da melhora do seu quadro, era visível a agonia de Deschamps.  
Apesar das investidas, a saída de bola dos azuis não conseguia soltar os talentosos, velozes e criativos Pogba e Matuidi. 
À frente se apresentava um adversário gélido. Por mais que o universo de um estádio, de um Rio de Janeiro no sol a pino de julho, e da fase aguda da copa exigissem um jogo com 40 graus à sombra.
Uma cena entre os tempos de jogo nos chamou a atenção. Pogba, a principal esperança francesa, terminava simbolicamente os 45 minutos iniciais com a bola nas suas mãos. Era a única posse real sobre a pelota que iria conseguir dali para frente.  
A simpática Alemanha do "Campo Bahia", dentro das quatro linhas cariocas era agora fria e carrancuda. Era a Alemanha onde a onça bebe água.
Porque Bastian Schweinsteiger, como de praxe, era monstro. Um esteio.
Porque Hummels era um xerifão na sua melhor apresentação na copa.
Porque Sami Khedira colocou a alma no bico da chuteira. 
A Alemanha buscava a posse, o passe e a paciência. 
Cadenciava a conquista da vaga.
Pela esquerda da frente francesa, os grandalhões Matuidi e Evra tentavam a invasão. E aí entre os paredões germânicos, aprecia um baixinho (gigante?) que estava gastando a bola e continuava implacável. Philipp Lahm estava em casa na lateral.
E era só no lançamento longo que a França conseguia a infiltração. Pogba estava anulado. Matuidi aparecia bem pela esquerda e tinha gás. Podia ser decisivo. 
Podia.
Porque aos 33 minutos da etapa final, em duelo de início de tarde calorenta, veio o nó tático de Joachim Low em Didier Deschamps.
Avançou o paredão de meio campo. A Alemanha marcava sem dar espaços à saída de bola.
Era a pregada de peça que faltava no jogo da paciência.
Foram poucas as chances do empate francês. 
Aos 35, um exausto Valbuena cobra a falta e no bate rebate, a bola passa raspando a meta.         
No contra-ataque, a Alemanha poderia ter definido a vaga com Shurrle. Perdeu gol feito.
E continuava no campo francês. Impedindo a ação adversária em criar as jogadas de velocidade.
Até o goleiro Lloris era marcado por Thomas Muller.
Uma tomada de espaço admirável, calculista, corajosa e decisiva.
Na única falha desse sistema do paredão de linha, apareceu o paredão no gol.
O estupendo Neuer em defesa de reflexo puro no chute de Karim Benzema.
Aos 48 minutos do segundo tempo.
Era o adeus dos Bleus.
Mais um selecionado a cair de pé, mesmo não tendo encontrado o seu futebol nesta sexta-feira ensolarada em um mítico Maracanã lotado.
Alemanha está na quarta semifinal consecutiva. 
Feito inédito em copas do mundo.
Com  passe, posse e paciência.
E uma pregada de peça preciosa.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CARTAS DAS QUARTAS



Ilustração: Baptistão


Vamos falar aqui de cartas na manga e cartas na mesa. 
A seleção brasileira de Luiz Felipe Scolari decide o seu destino na Copa enfrentando uma equipe com 100% de aproveitamento.
A Colômbia finaliza pouco, 46 ações de ataque, e goleia muito, 11 tentos marcados.
A Colômbia não precisou de prorrogação nem pênalti para despachar o Uruguai. Isso diminuiu a sua numeração de desarmes em relação aos brasileiros.
O que dá, obviamente, a falsa impressão de superioridade do time de Scolari.
Ledo engano.
A Colômbia venceu os quatro jogos com eficiência do passe na linha de criação. Poucos, diga-se, mas o bastante para produzir velocidade no ataque.       
E Pekerman soube montar, bem ao seu estilo, uma equipe que se movimenta com intensidade. A versatilidade de Cuadrado, a ótima copa de James Rodriguez e dois atacantes ariscos como Theo Gutierrez e Jackson Martinez prometem dores de cabeça para a defesa brasileira.
E não podemos esquecer. Jose Pekerman é técnico de futebol contemporâneo. Bem diferente do estilo conservador do Scolari Século XX. 
Argentino, dirigiu a seleção do seu país em 2006 e é um estrategista. Por isso, podemos ter uma seleção colombiana completamente diferente do que vimos até agora. Jogadores atuando com funções diferenciadas não será novidade para este escriba.
São cartas na manga.
Essencial em profissionais de futebol... contemporâneos.             
Por isso o Brasil vai ter que jogar muita bola.
Luiz Felipe deve escalar Fernandinho e Paulinho como volantes e fazer troca simples. Fernandinho mais recuado sendo o substituto real de Luiz Gustavo. Paulinho retorna na mesma função tática. 
Agradar, não agrada. O vazio criativo do meio-campo brasileiro passa por uma baita melhora de produção de Oscar. Será fundamental para vencer o jogo.
Para que Oscar se torne o arquiteto das jogadas, tem que deixar de ser "babá" de Daniel. O mesmo vale para Hulk com relação a Marcelo.
Não esqueçam do gol marcado pelo Chile. Foi bem clara a disfunção no posicionamento do Hulk. E a falha bisonha bem característica de atacante no lugar errado.    
Cauteloso, Felipe faz troca mínima. É o preço de contar,  no banco e no time titular, com atletas que não estão rendendo na copa. 
Mas não é só a baixa produtividade do elenco brasileiro que preocupa. 
Taticamente, a seleção de Scolari não mostrou diversidade no esquema de sua equipe em campo nos quatro jogos que disputou. 
São cartas na mesa.
Essencial para abrir os olhos de você, amigo leitor.
Técnicos como Low, Van Gaal, Deschamps e o próprio Pekerman guardam vários repertórios táticos no aproveitamento de jogadores tanto na linha como no banco de reservas durante as partidas. 
Scolari não tem essa prática e adota um estilo que está ultrapassado. Não sabe aproveitar a experiência dos seus comandados. 
Sim, porque o elenco canarinho tem vários jogadores que já venceram a Champions League, por exemplo. É um erro grotesco chamar esta seleção brasileira de “jovem”. Basta ver o currículo de cada um.
Seria o mesmo se passarmos na frente do zagueirão Yepes e gritássemos:
- El Chiquitito!
O becão do Atalanta, garantido como titular da seleção colombiana com 38 anos nas costas, ia ganhar o dia. 
Que Neymar, na molecagem dos seus 22 anos, falte com o respeito e parta pra cima  do “coroa” sem medo de ser feliz no Castelão. 
É um ás solitário na falta de coringas na mão de Scolari.  
E em quartas de final não cabem blefes.
Para que o sonho do hexa não desabe como um castelo de cartas.

Atualização às 15h50: Luiz Felipe escala Maicon. Daniel é barrado na lateral direita e fica no banco de reserva para o confronto contra a Colômbia  
  Ilustração: Baptistão/baptistao.zip.ne

CONTAGEM PROGRESSIVA


 Restaram quatro seleções latinas e quatro europeias na luta pela taça. E não há favorito   

Faltam dez dias para o fim da vigésima copa do mundo de futebol.
Entramos na fase aguda da competição com a disputa das quartas de final.
Oito seleções estão na briga, entre elas quatro campeãs mundiais.
E não há favoritos.
Só para se ter ideia do tamanho do equilíbrio, nada menos que três finais de copas anteriores podem se repetir nas partidas semifinais desta edição.
A de 1978, Argentina x Holanda. Brasil x França em 98 e Brasil x Alemanha em 2002.
A seleção alemã entra para a história com mais uma participação nas quartas. Será a décima sexta consecutiva, um recorde em mundiais. 
Mas o dado só serve para dar charme em texto.
Repito, não há favoritos.
O equilíbrio continua na origem dos selecionados.
Quatro europeus.
Quatro latinos.
Colômbia e Costa Rica sonham com classificação inédita.
A Bélgica já alcançou o quarto lugar em 1986.
A Holanda quer deixar de ser vice.
Brasil, Alemanha, Argentina e França juntos acumulam 11 títulos mundiais. 
Faltam dez dias.
Dez dias, oito jogos imprevisíveis.
E a contagem é regressiva?
Nunca foi.
É progressiva. 
Degrau a degrau até o topo.
E lá estará um campeão erguendo a taça.