Mostrando postagens com marcador Argentina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Argentina. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A ARGENTINA E O DEVER DE TODAS AS COISAS


Sergio Romero defende dois pênaltis holandeses e coloca a 
Argentina em uma decisão de copa do mundo pela quarta vez

Em uma quarta-feira chuvosa e de cinzas para o futebol brasileiro, Argentina e Holanda decidiram qual seleção irá enfrentar a Alemanha na final da vigésima copa do mundo.
Em um nove de julho, feriado da revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo.
Em um nove de julho, data da independência da Argentina.
Em campo, a força do melhor ataque das fases anteriores, o laranja, contra o selecionado mais disciplinado, o albiceleste.
Deu Argentina com todo o drama.
Com chuva, suor e lágrimas.
Depois de mais 120 minutos de bola rolando e de tiros livres da marca do pênalti.
O goleiro Sergio Romero, iluminado, pegou duas penalidades. Maxi Rodriguez converteu a quarta cobrança elevando compadritos e portenhos à sua quarta final em copas do mundo
Uma peleja com final imprevisível que, se não foi uma espetáculo de técnica, teve roteiro de semifinal.
E premiou a seleção que apresentou um futebol mais coletivo e afinado.
Porque a Argentina  teve, ao lado da Alemanha, um dos melhores índices de aproveitamento de passe na competição.
Sabella adotou a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, deu consistência ao setor defensivo. E como perdeu Di Maria para as semi, sacrificou Lionel Messi mais recuado e com uma sombra, o grandalhão De Jong .
Como analisei em outra conversa, o dez hermano se espalhava mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Talento e tática foram perdidos com a ausência de Angel.   
E para quem não acreditava, o sistema defensivo foi decisivo contra os apagados holandeses.
Robben até que tentou decidir nos minutos finais do tempo normal e da prorrogação. Mas lá estava o desarme espetacular do principal jogador na partida ao lado do arqueiro Romero e um dos preferidos do Papa Francisco: Javier Mascherano, absoluto.
A defesa latina levará para a final no Maracanã uma incrível invencibilidade de 373 minutos sem tomar gols com bola rolando.
O resultado de 4 x 2 nas penalidades leva a Argentina a repetir as finais de 1986 e 90 contra a Alemanha. Com um título para cada lado. 
Será um revanche que premia quem passa mais e acerta.
Quem chega à final passe por passe ocupando espaços.
Um futebol estratégico.
Um futebol que deu certo nesta Copa, passo por passo até o duelo final.
No caso dos nossos vizinhos, com chuva, suor e lágrimas vencedoras de uma quarta-feira, nove de julho de 2014.
Em nove de julho nascia uma bela argentina, Mercedes Sosa.
Em nove de julho morria um belo brasileiro, Vinícius de Moraes.
Após o embate em Itaquera.
Se estivesse no estádio paulista, Mercedes que amava o Brasil, por certo adaptaria e soltaria a voz: 
- Graças ao futebol que me deu tanto, me deu o coração que agita o seu marco. 
Se estivesse na São Paulo chuvosa, Vinícius que amava a Argentina
brindaria os teus versos:
- São demais os perigos também no futebol para quem tem paixão.
E é um dever de toda seleção honrar o seu país com paixão e entrega.
Porque outro argentino escreveu um vez que o dever de todas as coisas é ser uma felicidade.
Foi Jorge Luis Borges que, aqui pra nós, odiava futebol.
A América vive na copa.
Parabéns, hermanos.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

QUATRO TIMES E UM DESEJO

Quatro seleções da primeira linha do futebol mundial 
ainda correm atrás da bola para levantar esta taça 

25 dias depois (passa rápido, não?) este objeto de desejo é disputado agora por quatro sobreviventes na melhor copa dos últimos 60 anos, pelo menos. 
Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda  colocam duas revanches, vinte decisões e dez títulos em jogo nas duas partidas semifinais do mundial de 2014.
Escrevemos as seleções em ordem alfabética por uma razão bem simples. Ninguém é dona da cocada preta nessa hora de onça sedentas.
São fortes e tradicionais, robustas, mas nenhuma chega como rainha do pedaço.     
O modo ultra competitivo no qual se desenrola este mundial provocou uma alternância natural no desempenho das seleções no torneio.
No futebol contemporâneo é quase impossível você ter uma formação de jogadores que tenham performance linear em uma partida, que dirá em uma competição. Seja ela curta ou longa.
Os jogos disputados no mundial do Brasil são a maior prova disso.    
A oscilação é normal e aumenta mais a partir da competitividade e em diversos graus de dificuldades no campo ou fora dele.  
Não gosto e nunca fiz comparações de times com seleções.
São formatos de grupos com históricos, culturas e lógicas diferentes.
Mas isso não impede de constatações óbvias. Por um lado, em um clube você pode ter uma seleção dos melhores do mundo em cada posição, casos recentes de Barcelona Bayern e Real Madrid.
Por outro, nesta copa do mundo seleções tradicionais se apresentaram como times bem montados por seus treinadores. Casos de Alemanha, França e Holanda. E outras, sem relevâncias teóricas como Costa Rica e Argélia e que, partindo da mesma análise do coletivo poderiam, sem surpresas  na prática da competição, ir mais longe... A Costa Rica quase consegue. 
Vale a relação até aí. 


SUPER SEMIS
Vamos aos semifinalistas.
A seleção holandesa é um time de aproveitamento ativo. E essa qualidade deve-se a seu treinador. Dos 23 atletas laranjas convocados, Louis Van Gaal utilizou 20 em cinco jogos, Todos com a estratégia de mudar o repertório tático durante pelejas. Uma marca a ser guardada por treinadores brasileiros.
A Holanda é a melhor em gols marcados e a segunda mais faltosa.
Tem o futebol mais vibrante entre as quatro bambambans.  
É da Holanda o melhor jogador da competição. Robben.
Mas não é o bastante para cravar que vai derrubar a Argentina.
E os hermanos?
E a perda do Di Maria?
Em proporção, pode ser até pior para os argentinos do que a ausência de Neymar para o Brasil. Explico daqui a pouco 
Enzo Perez e Rick Álvarez disputam a vaga de Angel.
A Argentina  tem um dos melhores índices de aproveitamento de passe no mundial. Lionel Messi está mais competitivo, Sabella adota a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, liberou mais Leo. O dez hermano se espalha mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas  e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Em ótima fase, Angel Di Maria e sua lesão  causam dor de cabeça dupla em Sabella. Talento e tática são perdidos com a sua ausência.   
Vale ainda lembrar que a Argentina, além de ser a segunda em passes efetuados, é a mais disciplinada com a ótima média de dez faltas por jogo e cinco amarelos recebidos. Só a Alemanha recebeu menos tarjetas, quatro.
Os dados se completam e traz frase prontinha e cristalina. 
Quem passa mais, bate menos. 
E essa máxima explica, em parte, o sucesso de argentinos e, claro, também dos alemães.
Vamos ao adversário do Brasil nas semifinais
A eficiência da Alemanha no controle do jogo beira nessa copa a repeitável marca de 85% de passes certos. 
A rotação precisa de Khedira, Schweisteiger e Kroos multiplica o repertório alemão e cresce ainda mais quando Thomas Muller recua e completa a faixa de criação de jogadas.
A Alemanha vem forte e em alto astral.
E para você, amigo leitor deste Café, sabedor desde o início que Manuel Neuer atua como líbero, este escriba acredita na performance do goleiro do Bayern mais debaixo do três paus, como foi a atuação contra a França.
É jogo para ficarmos de olho em outra fera: Bastian Schweisteiger. Pode desequilibrar. 
Mas e o Brasil, caros amigos?
A seleção do ex-zagueiro Luiz Felipe é a mais violenta entre as quatro semifinalistas da copa do mundo com 95 faltas e a campeã em cartões amarelos, com 10. Só contra a Colômbia pelas quartas de final, os canarinhos fizeram 31 faltas, das 54 do jogo. Mais parecem galos de briga.     
O Brasil que chega às semi é a pior em passes e a segunda melhor em gols marcados ao lado dos alemães com dez tentos.
Quem esperava técnica, vê força copeira.
Quem esperava atacantes decisivos, vê zagueiros brilhantes decidindo jogos. 
Mas sem Thiago Silva e Neymar?
Além da mudança com os substitutos, há uma obrigação de Scolari e seus comandados: a mudança de atitude, de tática e de passar uma borracha no circo dos últimos dias.


CIRCO GROTESCO
Primeiro vamos torcer o nariz.
Em um espetáculo patético, sem noção mesmo, houve uma cobertura exagerada sobre as consequências de um lance duro, mas um acidente de percurso, que tirou Neymar da copa do mundo.
Houve um linchamento público, medíocre e covarde do limitadíssimo lateral colombiano, responsável pela contusão do craque brasileiro.
E Neymar, de jogador sensacional virou fonte para sensacionalistas.     
Ao que se apresenta, o que chamávamos de jornalismo é tratado como fotonovela bizarra, dramalhão de quinta, tribuna de exceção, comédia caricata e ópera bufa.
De um “vá em paz”, dito por uma repórter em cobertura ao vivo, quando o atleta lesionado saia de helicóptero da Granja Comary a um “me salva, Neymar”, quadro espantoso de um programa de TV, as bizarrias não foram poucas.
Um exagero lacrimoso, oportunista e, repito, sem noção.    
Até porque, ninguém morreu.
O jornalismo, esse sim todo quebrado, coitado, agoniza. 


PROMESSA SE PAGA
Mas vamos deixar a vergonha alheia de lado e tratar do que prometemos linhas atrás. 
Há uma tendência, que não descarto, na melhora do padrão de jogo da seleção sem Neymar. Por vários fatores. Entre eles, o aumento no número de passes na seleção, o futebol coletivo falar mais alto, o rendimento de Oscar aumentar e o Fred finalmente dar o ar da graça.
Utilizaria William no decorrer do jogo, mas iniciaria com Paulinho ao lado de Luiz Gustavo. Manteria Fernandinho mais rotativo, liberando Oscar para a criação e o elo com Hulk e Fred. Maicon e Marcelo seriam alas concretos. Sim, pelo que vimos no torneio, prefiro Maicon a Daniel. 
E mais. É jogo para ímpeto, atitude e personalidade. 
Porque o Brasil precisa vencer o meio campo alemão sem a presença do seu craque.
Porque o Brasil precisa cansar gente muito talentosa e determinada do outro lado. 
Na força leal, no passe certo, na bola redonda e com nervos no lugar.


O FUTEBOL AGRADECE A COPA 
Nenhuma das quatro seleções encheu os olhos desse escriba.
Todas perderam antes ou durante a copa, craques que poderiam fazer a diferença. 
Todas passaram por altos e baixos e não há fantásticos nem favoritos para a final.
O que nos agrada, sinceramente.
Assim o futebol segue com suas improbabilidades. Com tua magia real. 
Por vezes encantadora, outras vezes cruel, para sempre marcar um golaço em velhos e novos corações.
O futebol muda em nuances, margeia o indefinível. 
Qual de nós sobreviveria, se perguntado há tempos atrás, na véspera de duelo entre Brasil x Alemanha respondesse que o futebol-força seria dos brasileiros e o futebol arte, dos alemães?
Certamente iria fazer uma ponta em fotonovela chinfrim, uma comédia caricata das piores ou uma lamentável ópera bufa.

Foto: Getty Images

sábado, 5 de julho de 2014

CHORA POR TI, ARGENTINA!



Gonzalo Higuaín recupera bom futebol,  Argentina se classifica, mas perde Di Maria 

Não está sendo fácil para a Argentina.
Para chegar às semifinais do Mundial no Brasil, os hermanos estão deixando os seus torcedores à beira de um ataque de nervos. 
Foi assim contra bósnios, nigerianos e iranianos na primeira fase.
Foi assim contra os suíços nas oitavas. 
E não foi diferente frente aos belgas nas quartas de final, sob sol inclemente de Brasília. 
Mais um embate disputado a partir de uma da tarde. 
Foi a quarta vez que o time de Alejandro Sabella enfrentou este horário absurdo na competição.  
O solitário e belo gol de Gonzalo Higuaín aos sete da etapa inicial garantiu a Argentina, 24 anos depois, entre os quatro melhores de uma copa.
A jogada mais uma vez começou com Lionel Messi, passou por Angel Di Maria e, em passe cruzado, a pelota raspou em Verthongen e o artilheiro do Napoli se apresentou para a copa em momento decisivo. De primeira, sem chances para Courtois, 1 x 0.        
Escrevi antes do início da copa que a Bélgica não seria a surpresa, decantada por muitos. Pelo futebol praticado na Eurocopa e nas eliminatórias, era candidata ao título.
A eliminação nas quartas e uma caricatura opaca do futebol antes praticado nas duas competições citadas dão aos belgas o lugar de uma das decepções da copa. Menor que a da Espanha, obviamente, mas se esperava mais dos comandados de Marc Wilmots.
Foi dele parte da responsabilidade pelo fracasso dos diabos vermelhos no Mané Garrincha. Não soube imprimir velocidade e capacidade de criação nos pés de Hazard, outro abaixo da crítica, para furar o bloqueio argentino. 
Wilmots também não soube inverter as ações de De Bruyne no meio campo e ataque. Demorou e muito para sacar do jogo o apagado Origi e acionar Romelu Lukaku. E seu time abusou até a exaustão de chutões horrorosos buscando a jogada aérea e as cabeçadas de Felainni.
Exceção se faça ao ótimo Thibaut Courtois.
O arqueiro parou Lionel Messi mais uma vez. Já tinha brilhado frente a La Pulga defendendo as cores do Clube Atletico de Madrid.
Com os mesmos 22 anos de Neymar e James Rodriguez, é mais um craque a dar adeus. E foi um dos responsáveis para lembrarmos que esta foi também a “copa dos goleiros”.
Não fosse Courtois, Messi teria matado o jogo, aos 48.
Permitiu tentativa de reação belga no último minuto, aos 49, deixando as duas torcidas à beira de um ataque de nervos.
Nervos que ficaram no lugar nos uniformes albicelestes.
Até o apito derradeiro.
Hermanos se juntavam a Brasil e Alemanha. Dez títulos mundiais na semifinal. Uma super semi.
Destaque em campo, o meia defensivo Lucas Biglia despenca aos prantos. Higuaín, que tinha sido substituído por Palácios, invade o gramado às lágrimas... 
Os argentinos também choram. 
Até um marciano sabe o que é uma copa do mundo. Imagine um argentino.  
- “Isso não vai ser fácil”. 
Este é o primeiro verso de “Don’t Cry For Me Argentina”, a música mais famosa da peça Evita, escrita por Adrew Loyd Weber e Tim Rice em homenagem à atriz e líder política Eva Peron.
O espetáculo estreou em 1978, mesmo ano da conquista do primeiro título mundial dos hermanos, no país mergulhado em uma ditadura estúpida e sangrenta.
Seguimos, Argentina. 
Por isso não chores por nós.
Sabemos como é. 
Choras por ti e verás que belo é chorar assim.
Com os nervos no lugar, sem fugir da luta.
E encarando as baixas, mesmo com as vitórias.
Por que a exemplo de Neymar desfalcando o Brasil, Angel Di Maria, lesionado, está fora da copa do mundo.
Não será fácil.

Foto Getty Images

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONTAGEM PROGRESSIVA


 Restaram quatro seleções latinas e quatro europeias na luta pela taça. E não há favorito   

Faltam dez dias para o fim da vigésima copa do mundo de futebol.
Entramos na fase aguda da competição com a disputa das quartas de final.
Oito seleções estão na briga, entre elas quatro campeãs mundiais.
E não há favoritos.
Só para se ter ideia do tamanho do equilíbrio, nada menos que três finais de copas anteriores podem se repetir nas partidas semifinais desta edição.
A de 1978, Argentina x Holanda. Brasil x França em 98 e Brasil x Alemanha em 2002.
A seleção alemã entra para a história com mais uma participação nas quartas. Será a décima sexta consecutiva, um recorde em mundiais. 
Mas o dado só serve para dar charme em texto.
Repito, não há favoritos.
O equilíbrio continua na origem dos selecionados.
Quatro europeus.
Quatro latinos.
Colômbia e Costa Rica sonham com classificação inédita.
A Bélgica já alcançou o quarto lugar em 1986.
A Holanda quer deixar de ser vice.
Brasil, Alemanha, Argentina e França juntos acumulam 11 títulos mundiais. 
Faltam dez dias.
Dez dias, oito jogos imprevisíveis.
E a contagem é regressiva?
Nunca foi.
É progressiva. 
Degrau a degrau até o topo.
E lá estará um campeão erguendo a taça. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O SEGREDO DI MARIA

Uma arrancada de Messi a três minutos do fim. um golaço Di Maria (foto) 
faz um golaço e derruba a Suiça na prorrogação. Argentina nas quartas.   

A proporção para dizer que a Argentina faz uma bela copa do mundo é a mesma se você imaginar que todo argentino é portenho. 
A Argentina não faz uma grande copa do mundo.
Portenho ou não, antes da copa qualquer hermano apostava malbecs com bife de ancho em los quatro fantásticos: Messi, Di Maria, Aguero e Iguain.        
O futebol é cruel com previsibilidades e nunca se deu bem com bolas de cristal.
Dos quatro, apenas Lionel fazia atuações corretas até o embate contra os suíços pelas oitavas de final. Aguero tinha ficado pelo caminho, Higuaín continuava abaixo do esperado. Mas o confronto em Itaquera foi de redenção para Angel Fabian Di Maria.
Não fosse a jornada espetacular de Diego Benaglio, a dupla dinâmica - ou o que restou do quarteto - tinha classificado a argentina no tempo normal. Só que o Benaglio foi mais um arqueiro a se destacar nesta copa de gols e de goleiros. Vá entender.
Destaque do Wolfsburg na Bundesliga, o suíço de gelo fez a sua melhor partida em três copas do mundo no currículo e escreveu mais uma vez a palavra prorrogação em crônicas das oitavas. 
Argentinos e suíços em São Paulo foram a mais 30 minutos de futebol.
Fazer o quê? Jogo em copa que fica na lembrança, tem que prorrogar.
E foi uma luta para vencer Benaglio, dono agora na história de quatro defesas dificílimas no duelo, principalmente contra os cérebros de Messi e Di Maria.
Mas era o jogo da redenção de Angel.    
E foi com uma disparada criolla solta em arrabaldes ou periferias... em descampados.
Porque um dos lemas de compadritos das províncias argentinas, são exemplos de coragem e valentia.
É não desistir nunca. E decidir com altivez.
12 minutos do segundo tempo da prorrogação. A tensão, o medo do imprevisível, respirações presas e gritos entalados.  
Rodrigo Palacio desarma bem e cria o contrataque na linha divisória. 
O passe a Messi.
A bola do jogo é no pé dele. A arrancada de Lionel com a pelota, o toque preciso e mortal para Angel. O gol salvador. É como se alma pampera regesse o que cérebro pensa ao que perna corre.
Não é à toa a construção de jogada lembrar muito a arrancada de Ronaldinho na copa de 2002 ao entortar Ferdinand, Mills e Campbel em passe preciso, mortal para Rivaldo vencer o arqueiro inglês Seaman.     
Não há supressa na jogada "papel carbono" 12 anos depois. Até porque a redundância está na imagem que se vê ao texto que se escreve. 
Estava lá Ronaldinho, o gaúcho, o criollo.
Esteve cá Angel, o compadrito, criollo.
E o futebol serelepe, incansável de Angel Di Maria é autêntico, fundamental e se apresentou ao Mundial no Brasil. 
Carrega na entranhas, o jeito criollo, libertário e persistente. Latino.
Jeito que só os compadritos  encontrados nos pampas sabem descrever.       

Bem que os suíços honraram a já tradição desta copa das seleções nunca desistirem, no caso deles tinha charme da data fechada dos 80 anos de participação em copas do mundo.  
E foi assim, os derrotados de Itaquera caíram de pé com Blerim Dzemaili. 
À frente de Sergio "chiquito" Romero, o atacante do Napoli acertou o posto direito já nos descontos do tempo extra. Era a última chance vermelha criada na última gota. No último instante antes do apito final.
Ficou cravado no placar um gol emblemático para a Argentina que segue. Argentina dos portenhos e compadritos.

Porque a vida é assim.
Uns tem Dzemali, outros tem Di Maria.
Só para olhos de quem ama o futebol. 
É o segredo.


Vale a homenagem deste escriba aos incontáveis papos pampeiros desfilados em tardes e noites baianas com a jornalista "baúcha" Suzana Aguiar e com o argentino mais baiano que já conheci: o mestre Carybé.

Foto: Football 365 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O RETRATO DO ARTISTA QUANDO CRAQUE



Argentina fecha fase de grupos com 100% de aproveitamento e Lionel Messi decola.

Há um poema essencial na obra de Manoel de Barros chamado “o retrato do artista quando coisa”.
Um dos grandes poetas vivos desse mundo desfila por lá versos como:
“Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça…
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.”
No futebol, quase sempre você não sabe de tudo.
E é um palco de surpresas e emoções de se perder fôlegos.
Como os dois gols relâmpagos para Argentina e Nigéria.
A pancada de Angel Di Maria na trave, o rebote nos pés do mestre. Messi 1 x 0
Na copa dos gols, a Nigéria ainda não tinha sofrido nenhum. 
A surpresa um minuto depois, a bela construção nigeriana. O chute plástico do Musa vence Romero. Era o empate e o relógio não marcava cinco minutos de jogo.   
O Gigante da Beira Rio pintado de azul, com réstias aqui e ali de vermelho colorado; e pingos de verde vivo. Em um imenso tabuleiro de cores.
E para ser belo e contagiante, o futebol precisa de pinturas.  
Com a irresponsabilidade dos artistas, Lionel Messi já é arquiteto e artista de obras primas nesta copa do mundo. E provoca tonturas em encantos, como foi o segundo gol marcado.
Como uma pincelada visceral, o dez argentino retirou em mistura oposta nas paletas da firmeza e da suavidade a bola do retângulo verde e a deixou em suspensão, em parábola, em destino incerto para desavisados, certeiro para os encantados.
A explosão do artista, depois da obra assinada era como se quisesse alçar voo na invenção da tarde 
Era o gozo da sua criação.   
Na virada de tempo, Argentina na frente.
Mas a Nigéria é valente e tem o “Musa da Copa”.
Confusa, a defesa da Argentina destoa, se atrapalha. Novo empate verde.
Beira Rio, em Porto Alegre, e a Fonte Nova, em Salvador, faziam, em paralelo, um duelo narrado com ineditismo em copas. Qual será a Arena dos Gols?
O jogo simultâneo apontava Bósnia 3 x 1 Irã. Eram já 21 gols na Fonte.
Com o gol da vitória argentina, marcado de canela por Rojo, o Gigante gaúcho computa 19 tentos marcados após o 3x2. 
Dos três selecionados que já enceraram a primeira fase com cem por cento de aproveitamento, dois são da América do Sul. Argentina e Colômbia. O outro é a Holanda 
São cinco países do continente já classificados, mesmo número observado em 2010. 
Há um ditado bem conhecido no cone sul. “Deja todo en la cancha”. 
E um trio de hermanos daqui chama a atenção desse escriba. 
Chilenos, uruguaios e argentinos. Estão deixando tudo na cancha. No palco dos confrontos.  
Pela entrega real. E pelo final do poema que abriu essa crônica .
“Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim a importância de catedral.”
Porque ciscos, fiapos e retalhos de raça, alma, empenho, honradez, garra por certo seriam encontrados no gramado das arenas após todo jogo latino. Se toda peleja fosse um poema de Manoel de Barros.
Nas jornadas argentinas, mais dois itens estariam esparramados por lá. 
O pincel e a paleta dos gols de Lionel Messi.

sábado, 21 de junho de 2014

NO TIME DO PAPA QUEM TEM MESSI PRECISA DE REZA?

Aos 45 do giro final, a salvação argentina  Messi em arremate fatal. Na frente do Reza.   

A Copa do Mundo no Brasil é a grande prova para Lionel Andrés Messi.
Dentro e fora da Argentina este pensamento é recorrente. 
Defendido por aqueles que para ser craque, tem que brilhar em copas.
O brasileiro Zico, genial no Flamengo e regular em três edições do mundial, é um bom exemplo dessa tese. E que rende bons debates. 
Na opinião desse escriba, Messi é craque e ponto. Mas não faz uma grande copa até agora, apesar dos gols salvadores para a sua seleção. 
Nas duas partidas já realizadas pelos hermanos, Messi foi mediano. Mas mortal por ser craque.
Hoje em mais um espetáculo de latinidade nas arquibancadas do Mineirão, Argentina contra o Irã. Aos 45 minutos do giro final, Messi venceu o bravo goleiro Haghighi e deu a vitória em placar simples à Argentina. 
Repetiu o roteiro, as passadas, a inclinação, o deslocamento diagonal e o chute no canto direito como fez contra os bósnios. Gol com a marca LM, literalmente.
Messi posicionado entre as linhas como passador e pensador, mas também como finalizador é a principal arma de Alejandro Sabella em momentos decisivos. Assim foi feito, principalmente no final do jogo. Assim veremos mais vezes. 
Mas foi difícil, osso duro, para a Argentina. Tudo levava a crer que o caminho ficaria parecido como está o do Brasil na copa.
No primeiro tempo, se houve um domínio que beirava os 80% na posse de bola, na segunda metade da etapa final, o Irã assustou e muito. 
Em uma das tentativas, o atacante Reza Ghoochannejhad, que joga na tereira divisão inglesa, venceu a irregular zaga argentina. 
Na copa das tiradas, é irresistível: se a Argentina tem o papa Chico, o Irã tinha Reza. 
Foi um dos melhores e surpreendentes lances da jornada, no qual o atacante iraniano quase provoca um milagre. Não fosse o toque salvador de Romero.
Estou dizendo que é a copa das tiradas?
Tiradas porque a vida é bacana. Reflexões porque esse é o nosso ofício. 
Um provérbio iraniano diz que a verdade é como um espelho quebrado, cada um recolhe um pedaço e diz que a verdade está naquele caco.
A Argentina superou o Irã com tento solitário daquele que é a sua maior esperança. Venceu em chute certeiro um desperado Reza, dando uma de zagueiro. 
E como acontece em tudo na vida, muitos só lembrarão do último suspiro no jogo bem mais ou menos dos sulamericanos no Mineirão. E decantarão Lionel Messi, como o máximo.
Por uma semana ou pela vida inteira.
Com cacos quebrados ou com a verdade nas mãos.

Foto: Clarín, Carlos Sarraf