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sábado, 28 de junho de 2014

UMA SELEÇÃO NA MARCA DO PÊNALTI

O goleiro Julio César e o zagueiro David Luiz, destaques na 
vitória sobre os chilenos. Instabilidade emocional da seleção preocupa   

Na história das copas, a seleção brasileira nunca tinha decidido vaga nas oitavas de final em cobrança de tiros livres da marca do pênalti.
No México 86 perdeu para a França nas quartas.
Nos Estados Unidos 94 ganhou o título na marca penal.
Na França 98 seguiu para a decisão e foi vice.
No Brasil 2014 a seleção de Scolari mais uma vez testou cardíacos. 
Porque em um Mineirão fervente e tenso foram colocados na fogueira das penalidades 400 minutos para cada lado, nos quatro jogos disputados por brasileiros e chilenos no torneio. 
E era o quarto encontro em mundiais com o Chile de Bravo. Ou o bravo Chile, como queiram.
O Chile jogou como nunca. Perdeu como sempre.
Mas caiu de pé depois de cozinhar os miolos dos brasileiros no caldeirão mineiro em sol escaldante.
Antes, foram 120 minutos de sofrimento para quem sabe ou não sabe os segredos, as regras, os encantos e desencantos do futebol. 
Se houve entrega e superação, erros primitivos não faltaram. Os mesmos espaços escancarados no meio-campo para o adversário gostar do jogo surgiram no mediano time de Scolari.
O empate em um gol para cada selecionado foi suado e justo. David de joelho e cabelo a 18 minutos iniciais. Alexis Sanchez, 14 minutos depois, em falha infantil de Hulk e Marcelo, na faixa esquerda da até então eficiente defesa brasileira no jogo.
Quem poderia definir a peleja na etapa derradeira, sumiu, desapareceu, escafedeu-se.
Neymar e Oscar evaporaram na camisa canarinho.
O quarteto mágico chileno também virou éter.
As duas equipes foram ao limite extremo do cansaço físico e mental.
A prorrogação veio para extenuar de vez gente que corria atrás da bola. Porque de seleção não tinha sobrado mais nada, nem para brasileiros, nem para chilenos.
Eram bandos em busca de um lance fatal.
E foi a trave que salvou o Brasil em chutaço de Pinilla a segundos do juizão inglês acabar a agonia para começar outra. 

E o Brasil a traves e barrancos chegou nas quartas... 
Literalmente no chute errado de Jara, na penalidade decisiva.
Antes, não se pode esquecer daquele que de vilão desacreditado está virando herói, não por acaso, e sim por boas atuações: Julio César fez uma defesa muito difícil no tempo normal e pegou as penalidades de Alexis Sanchez e Pinilla na disputa final. Até as oitavas, tem presença destacada nesta copa do mundo
Este escriba, por exemplo, foi contra a convocação de Julio. Hoje fiz as vezes de um certo Luizito com a minha pobre língua. 
Ressalte-se que o placar que imaginamos para o jogo, foi o placar dos tiros livres.
O time preocupante de Scolari segue na copa, mas está na marca do pênalti. 
Deve uma apresentação que crave no seu torcedor a confiança de que chegará à final. 
Esse time ou muda a forma de jogar e equilibra o lado emocional ou não ganha a copa.
A possibilidade do título de hexacampeão do mundo está em jogo.
E não pode bater na trave.

Foto: The Guardian

MINEIROS

Scolari deixou analistas preocupados com  clima "inseguro" na última coletiva: matreirice?

Quem acompanha o Café na Copa vai se lembrar da nossa crônica de 18 de junho, “A Inspiração de San Jose”. 
Transcrevo parte peculiar a este belo momento do futebol para iniciarmos essa prosa.
Estava lá:
“Mas eu não canso de lembrar daqueles mineiros de San Jose em 2010. 
Setenta dias soterrados a 688 metros de profundidade. Sobreviventes, símbolos da coletividade. Heróis. 
Os 33 mineiros gravaram um vídeo de incentivo inspirador, para esses rapazes que estão correndo atrás da bola no Brasil.
Entre eles, estava um ex-jogador da seleção chilena de futebol. O meia Franklin Lobo Ramirez. David Vila, reserva no jogo de hoje, mandou duas camisas do Barcelona autografadas, à época. O pai e o avô de David eram mineiros.   
Desconheço melhor simbologia na história recente do futebol. 
Do subsolo ao pico da cordilheira. A odisséia está em curso.”
Retornando a nossa prosinha neste sábado mágico, as "Minas Geraes" recebem esse espírito andino e uma seleção valente para enfrentar os brasileiros na partida que abre as oitavas de final da vigésima copa do mundo.   
O Brasil vai enfrentar a segunda equipe que mais desarma no mundial.
O Chile do técnico argentino  Jorge Sanpaoli só perde até agora para os costarriquenhos em quesito crucial deste torneio.
Porque se esta é a copa das goleadas, das viradas, também é a copa dos contra-ataques.
E quem desarma e ganha a posse de bola, contra-ataca, caras coradas. A tática é óbvia e ulula.
O erro zero pregado por Luiz Felipe Scolari durante as preleções nos últimos dias é direto a esse ponto.
Na primeira fase foi o ponto fraco brasileiro. Os buracos deixados pelos laterais e na faixa intermediária da defesa pela nulidade de um dos meias defensivos não podem se repetir diante da habilidosa linha de frente chilena. Aránguiz, Vidal, Vargas e Sanchez. Que vira sexteto muitas vezes com o apoio dos alas Isla e Mena. Fernandinho ganhou confiança e joga. Daniel, garantido, e Marcelo vão precisar jogar muito mais do que jogaram na fase inicial.
Como o time canarinho inteiro.
Mas é para essa cruzada andina no ataque que faz o gaúcho Scolari dar sinais de matreirice. Como fez o seu colega holandês van Gaal, no partidaço que a Holanda derrubou o Chile.              
Matreirice gaúcha?
Ou inspiração mineira?
Guimarães Rosa costumava dizer que ser mineiro, entre outras coisas, é não dizer o que faz, nem o que vai fazer. É fingir que não sabe aquilo que sabe não é dar rasteira no vento e só arriscar quando tiver certeza.
“Ser mineiro é ter simplicidade e pureza, ter humildade, modéstia, coragem e bravura, e elegância”, definia o mestre.
Os mineiros e o mundo assistirão a um espetáculo de futebol.
Que o vencedor se valha dessas inspirações.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O MECÂNICO LARANJA

Arjen Robben, mestre em contrataques, mais uma vez decisivo para a vitória holandesa 

Itaquerão, 23 de junho. Copa do Mundo de 2014. 
Palco para decidir a colocação das já classificadas Holanda e Chile para as oitavas de final.
O selecionado do irrequieto Jorge Sanpaolli poderia se sentir em casa no Itaquerão ensolarado. 
Por razões que vão muito além do sobrenome do seu treinador.
Maioria da assistência era roja, clima de festa épica, hino a capella. Latinidades. 
Mas tinha um time laranja do outro lado.
E um estrategista com quilômetros rodados no seu comando.
E quem há de negar que os holandeses foram superiores?
Este escriba não vai se atrever. 
A linha de ação montada por Louis van Gaal deixou os ávidos chilenos tomarem conta do campo, gastarem o gás dos impetuosos. Os holandeses esperavam.
Matreiros.
Vez por outra, um arranque de Robben, uma articulação de Sneidjer e o recolhimento, o estudo. A sapiência.
Não houve retranca holandesa. Houve momentos sinuosos, prontos para um bote. Ou dois. 
E van Gaal sabia que a estatura da defesa chilena era um dos pontos fracos.
Leroy Fer, atacante do Norwich City, com seus quase 1,90m, saiu do banco de reservas orientado de como se posicionar entre os zagueiros de estatura mediana. Cabeceou com estilo sem chances para Bravo. Tento com dedo e mensagem no ouvido do técnico holandês ao seu pupilo grandalhão. Chilenos desarticulados. Sanpaolli sem cabelos para arrancar. 
Outra das táticas para atingir as vulnerabilidades sul-americanas já tinha sido usada na segunda metade do primeiro tempo. Também seria na última faixa do giro final. 
Van Gaal, cartesiano, também sabia que o Chile dando espaços, o arranque de Robben seria fatal. 
Em mais uma arrancada espetacular do melhor atleta da copa do mundo até agora, a Holanda matou o jogo. Ninguém segura Robben. Ele serve com muito suco e muito afeto a Memphis Depay. 
Cortejado pelo Tottenham, mas ainda do PSV, Depay 2 x 0
Ele também saiu do banco de reservas, orientado por Van Gaal, para garantir a liderança.
Van Gaal. O mecânico laranja.

Foto: The Guardian

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A INSPIRAÇÃO DE SAN JOSE



O Chile do irrequieto Jorge Sanpaoli deu nó tático em um esquema que já tinha se aposentado e não sabia. No relógio do tempo, o tic tac espanhol parou de vez. E veio da cordilheira com assinatura dos pampas o réquiem para o time do velho Del Bosque. Gols de Vargas e Aranguiz. Chile 2x0. E só bastou um giro de 45 minutos.
Chile 1x 0, em belíssimo contrataque. Xabi Alonso erra, Aranguiz puxa a resposta chilena, Sanchez desconcerta Sergio Ramos e passa, Vargas dribla Casillas e não perdoa 
Falha do Xabi. Espanha em Xeque.
Chile 2 x 0. Finalzinho do primeiro tempo, falta perigosa na entrada da área espanhola. Sanchez bate com categoria Casillas em nova falha na copa, rebate para frente, erra. Aranguiz, não.
Um Maracanã rojo, latino & ibérico. Um Maracanã a traduzir injustiças excludentes. Centenas de chilenos a quer ver o jogo. A forçar a barra do ingresso caro, da revolta ao erro. O da invasão. Da prisão de 85 deles, com a ameaça de deportação. A copa arde.
Mas eu não canso de lembrar daqueles mineiros de San Jose em 2010. 
Setenta dias soterrados a 688 metros de profundidade. Sobreviventes, símbolos da coletividade. Heróis. 
Os 33 mineiros gravaram um vídeo de incentivo inspirador, para esses rapazes que estão correndo atrás da bola no Brasil.
Entre eles, estava um ex-jogador da seleção chilena de futebol. O meia Franklin Lobo Ramirez. David Vila, reserva no jogo de hoje, mandou duas camisas do Barcelona autografadas, à época. O pai e o avô de David eram mineiros.   
Desconheço melhor simbologia na história recente do futebol. 
Um Maracanã foi palco do fim e de um começo. Um estilo a quedar-se. Uma latina esperança nascente.
Do subsolo ao pico da cordilheira. A odisséia está em curso. 
O mundo é uma bola e o futebol é espetacular.
Adiós, España, gracias. Viva, Chile, arriba.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

CHILENOS VIVEM BONITO NO PANTANAL





Com mesmo placar dos brasileiros contra os croatas, o Chile estreou bem contra a Austrália na Arena de Cuiabá.
Os ninõs de Sampaoli começaram em alta rotação com Valdívia, Aranguíz, Sanchez e Vargas sobre tontos australianos. Foi assim que alcançou dois gols de vantagem em menos de 1/6 de jogo.
Mas diminuíram o ritmo, viram a Austrália de Bresciano e Cahill, autor do tento amarelo, gostarem da peleja.
E foi lá e cá. Às vezes, pasmem, mais para australianos do que para chilenos.
Boa movimentação, surpreendente frente ao clima pantaneiro.
E que clima! De hino à capela, gols perdidos e atuações raçudas, como a do goleiro Bravo, que honrou o nome e o espírito chileno vindo da plateia.
E por falar em nome, assim veio assinatura bacana para a bela festa da diversidade em local peculiar do nosso território.
Beausejour, aos 47, assinou a vitória latina. Para fechar bem esse dia de onze gols, erros, acertos críticas e textos.
Em bom francês beau sejour significa: viva bonito.