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terça-feira, 24 de junho de 2014

A BATALHA DAS DUNAS COM A BOLA NOS DENTES



   Foram 20 minutos que valeram 90,  com direito a dentadas, expulsão, herói e vaga celeste   

Só no futebol se explica. 
Com seus guerreiros a sol e sombra. E um mundo de apaixonados na assistência.
O futebol arranca páginas cartesianas. Com lágrimas e sangue nos olhos, decide nos detalhes o arco do que é possível. 
E no mundo da bola, não havia previsão do que ia acontecer no Rio Grande do Norte nesse décimo terceiro dia de copa.
Para seguir às oitavas, o Uruguai precisava da vitória. A Itália jogava pelo empate
A Arena das Dunas exibia seus cinquenta tons de azul. Do azurra ao celeste. Passando pelo céu claro de Natal, uma das mais desiguais e belas capitais nordestinas.
Bela e quente. 
E em mais 45 minutos iniciais nos jogos programados para uma da tarde, o futebol praticado por uruguaios e italianos foi bem abaixo da média deste mundial. 
É o futebol. Onde correr e lutar atrás de um bola subverte climas. Inverte o desejo de poetas a desvendar esquemas táticos e agiganta o poder das cartas a invadir a mente de futuros heróis.
Como fez o zagueiro Lugano, ausente do decisivo duelo em azul e branco. O capitão uruguaio, em fortes linhas escritas antes do confronto contra os italianos, moveu os seus companheiros em campo. Uma carta pode ter entrado para o patamar das belas histórias que só o futebol produz .
É o mágico e singular futebol. De atos nobres e golpes baixos. 
Se nas crônicas de adversários brasileiros, as cotoveladas de Pelé e Leonardo nas copas de 70 e 94 são relembradas, os italianos vão falar muito da mordida de Luizito Suárez no zagueiro Chiellini. O dentuço atacante uruguaio já coleciona essa atitude bizarra em outras ocasiões. Holandeses e ingleses que o digam. 
O cartão vermelho não saiu do bolso do mexicano Marco Rodriguez. E já tinha saído antes deixando a Itália defensiva à beira do abismo. 
O que dizer da entrada violenta de Claudio Marchisio? O meia da Juventus esquece a bola e atinge o joelho de Arévalo Rios. O apitador mexicano não pestaneja e aplica a tarja vermelha em expulsão correta. 
É o jogo brigado e o placar imóvel. E a torcida tensa e acalorada. O suor no rosto, a apreensão. A imprevisibilidade. 
É o futebol que move. Montanhas imaginárias são escaladas. Dunas são transpostas. Muralhas são vencidas.
Porque o excelente goleiro Buffon era candidato a herói. Foram duas defesas com nível de dificuldade extremo, praticadas um em cada tempo. 
Aos 35 minutos do giro final, escanteio para o Uruguai. Gaston Ramires cruza e a Arena troca de herói num estalo de dedos. O arqueiro Buffon, o das defesas salvadoras, aquele que parou frente a frente os atacantes celestes, viu um zagueiro com nome épico surgir no ar. O gigante Godin, de costas, faz o gol decisivo. De costas.
É a magia dos desenhos invisíveis que só uma esfera faz. 
E só um escrete sai vencedor. 
É o Uruguai, o bravo Uruguai. 1 x 0.
A partida vai a 50 minutos. Número emblemático para essa Celeste a subir mais um degrau. Os italianos, exaustos, caem de pé. 
A copa fica cada vez mais latina.
Lá se foi mais uma para história onde arte, matemática, superação, heroísmos e covardias se misturaram em uma partida só.
Com a bola nos dentes depois da batalha das dunas.
Só no futebol se explica.

Foto: TV Sport  

quinta-feira, 19 de junho de 2014

CORAÇÃO CELESTE

Na manchete do periódico uruguaio El Pais, o gol tem novo rei: Luizito Suárez 

- Presidente? Risos e risos. Tão difícil como um leitão a assoviar.

Assim, com esta conhecida piada do interior de seu país, o Pepe Mujica respondia aos jornalistas quando o perguntavam se disputaria a presidência do Uruguai. 
Era improvável para o próprio disputar e vencer um pleito presidencial.
Hoje, Mujica é o simpático presidente platino.
Há um mês, o atacante Luizito Suárez estava em uma cadeira de rodas. Lutava por uma improvável recuperação de uma cirurgia dos meniscos. Poucos acreditavam em sua participação na vigésima copa do mundo. 
Em um feriado junino, Luizito foi o principal personagem, emocionante, de mais uma bela página deste mundial. 
Sob o olhar do torcedor Ibraimovich, o bom atacante sueco que ficou de fora da festa, os artilheiros de nascimento, Luizito Suarez e Wayne Rooney estavam frente a frente no embate histórico entre uruguaios e ingleses em São Paulo.
Os dois selecionados não podiam perder.
Luizito era esperança latina. 
Rooney nunca havia marcado em copas.
O atacante uruguaio deixou seu selecionado em vantagem no gol de cabeça.
Fechamento perfeito, atentem, para outro contrataque muito bem finalizado na copa do mundo.
Já Wayne Rooney levitava a la Dadá Maravilha, na melhor chance dos Lions no primeiro tempo, a gorduchinha beijou a trave.
Era bom o duelo.
E Rooney doido para marcar em copas do mundo. Mas estava difícil.
Os primeiros minutos da etapa final foi para inglês esquecer.
A zaga britânica lenta e atônita assistia a um quase gol olímpico e a um chute sem direção do mesmo Luizito; fora uma bela infiltração de Cavani
O goleiro Hart perdia a fleuma, desorientado.
E Rooney, sangüineo queria porque queria quebrar o incômodo tabu. 
E quase acontecia. À queima roupa. Ótima intervenção de Muslera, em bela jornada.
Era metódica a Inglaterra. Eram guerreiros os celestes.
Prova dessa garra vestia meia dúzia às costas do manto uruguaio. Três minutos depois de ter sido atingido acidentalmente por Srturridge e quase ser nocauteado, o sãopaulino Alvaro Pereira desarticulava em desarme perfeito tentativa de construção ofensiva britânica.
Era o esteio. A alma copeira. O brio pampeiro. 
E o relógio seguia inclemente. E Ronney, incansável, lutava.
Ao 39, a torcida inglesa levanta.
O ala Glen Jonhson, apagado, acerta finalmente. Rooney vence González e Muslera. Bola e rede se encontram.Tabu às favas e tudo igual.
Seria até o fim? 
O ritmo genuíno uruguaio e seus descompassos iriam, em maestria, assinar que não.
Porque na anatomia louca do futebol um velho coração estava na chapa da chuteira de um atacante do Liverpool.
Só que o artilheiro estava vestido com o manto celeste.
Em mais um contrataque fatal nesta copa louca. Luizito Suarez 2x1.
Fim de um dos melhores confrontos até o entardecer de um feriado junino. Espetacular.
Ingleses ainda sonham com um milagre.
O Uruguai no temido "grupo da morte" renasce. E segue em brava luta com alma sulamérica. 
Campeão? Risos e risos... tão difícil como um leitão a assoviar.