sábado, 12 de julho de 2014

O BAGAÇO, A BAGUNÇA E A BAGACEIRA

O atacante Robin Van Persie faz o primeiro gol holandês em cobrança 
de penalidade.  Era o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo  

Não foi o jogo “Laranja x Bagaço”.
A Holanda chegava à Brasília depois de uma maratona.  
Uma calorenta decisão nas oitavas, disputada contra o México a uma da tarde no Ceará e duas prorrogações consecutivas, pelas quartas e semifinal.   
A Holanda venceu o Brasil por um sonoro 3x0, nota final da ópera bufa do futebol nacional na vigésima copa do mundo.
Ou seja, até o "bagaço da laranja" esmagou o bando de Felipão.
Quem acompanha este blog sabe que estamos à vontade para analisarmos a pior campanha da seleção brasileira em mundiais.   
Uma seleção de quinta categoria sem repertório algum. Sem passe progressivo, sem esquema tático, sem preparo. Dez gols levados em dois jogos. Uma bagunça. 
E o que é pior, escuto a entrevista do técnico Luiz Felipe Scolari após novo vexame enquanto escrevo essas linhas. Scolari não assume o fracasso tático brasileiro. Um espetáculo de soberba e teimosia deprimentes. Errar é do jogo. Não assumir o erro... 
Vamos ao réquiem.
O time de Louis Van Gaal resolveu o jogo cedo com uma mãozinha do árbitro e da zaga brasileira em atuação bisonha.
Mal tinha rolado a bola, Arjen Robben, em jogada característica, arrancou no meio da zaga brasileira, Thiago Silva puxou o carequinha. Robben cai na área, a falta foi fora dela.
O árbitro argelino Dajamel Hamoudi vai na onda e Van Persie, que brigou pela jogada, bateu bem a penalidade, no ângulo esquerdo de Julio César. Holanda 1 x 0. Thiago Silva, pela falta, deveria ter sido expulso.
Foi o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo.
E estava fácil. 13 minutos depois do primeiro gol, Holanda faria 2 x 0 sobre o bando brasileiro.     
Mais uma vez com Robben pelo meio. Ele enxergou a ‘Avenida Maicon’ e brindou a incursão pela direita de Johnatan De Gúzman, impedido. A arbitragem errou mais uma vez e o ala canadense naturalizado holandês fez o cruzamento. David Luiz cabeceou errado para o meio da zaga. O ótimo Daley Blind, um dos destaques da copa, recebeu o presente, amaciou com o pé esquerdo e bateu com o direito. Belo gol.        
Foi uma boa partida para se mostrar o abismo tático que separa o treinador da seleção brasileira do futebol de ponta praticado hoje entre seleções de alto nível.
Porque a Holanda atacava e se encolhia, esperava como o adversário iria se comportar para dar seus botes longos com o avanço dos alas e a velocidade de Robben. Porque havia rotação de jogadores versáteis como Blind e Kuyt.
Porque havia sete a oito tipos de construção de jogadas, a depender do como o Brasil se apresentasse.
Os moços de amarelo só levavam perigo em lances de bola parada. Os de azul, sobravam em campo.
Poderia ter saído com quatro gols de vantagem em 45 minutos.
Nos vinte iniciais do segundo tempo, houve melhora brasileira no esforço de Oscar e só. Porque quando quis, a Holanda matou o jogo. E foi um golpe final.
Do mesmo carequinha, o dono dos laranjas, incansável entre os exaustos. Era mais uma assistência do rotativo Robben. Com a bola recebida em velocidade, Janmaat venceu Maxwell na corrida e cruzou. O volante Wijnaldum, livre fechou a conta. Aos 90 minutos, Holanda 3 x 0 Brasil.
No bagaço, o elenco holandês conquistou o terceiro posto no Mundial. 
Na bagunça, o defasado futebol brasileiro dá adeus.
Esperamos que com essa bagaceira, um adeus para nunca mais.
Mas sabe o que fica mesmo para esse escriba? 
Cheiro de laranja podre perdida na estrada.
Espero que estejamos errados.

Foto: Getty Images

A CAIXA 107


A não ser que a final entre argentinos e alemães seja um espetáculo de botinadas, Brasil e Holanda disputam o “título” de seleção mais violenta da vigésima copa do mundo, daqui a pouco, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. 
Ao longo de seis jogos disputados, as duas seleções que definem a terceira colocação tiveram comportamentos bem parecidos no combate à criatividade de meio campo e ataque adversários.
Pelo lado brasileiro, jogadores como Luiz Gustavo, Fernandinho, Marcelo e Paulinho miraram mais pernas do que bola nos embates.
Luiz Gustavo foi o mais faltoso nessa escalação constrangedora para quem curte futebol bem jogado.
O mesmo pode se dizer de Blind, Indi, De Vrie e De Jong quarteto que abriu sua caixa laranja de ferramentas no torneio.
O Mundial premia quem procurou jogar bola. Alemanha e Argentina juntas cometeram 135 faltas. Hermanos com 64 e germânicos com 71 infrações. 
Só a Holanda fez 106.
Brucutu, o Brasil de Hulk bateu uma vez mais: 107.
Infelizmente, caro leitor, por mais que esse número lembre um placar que você queira esquecer.
Curioso é constatar que a seleção brasileira além de ser a que mais bateu, foi também a que mais apanhou: 109 faltas recebidas.
Mas vergonha mesmo é saber que quem vestiu este uniforme em 2014, apanhou na verdade foi da bola. 
E como é uma tremenda falta de respeito este jogo de terceira ser disputado em um estádio que homenageia Garrincha, nosso eterno anjo das pernas tortas. 
Esse apanhou muito de pernas de pau. Mas a pelota, conhecida entre os mais antigos como balão de couro, era o seu pincel e as quatro linhas, moldura para obras primas.

Ilustração: Casso

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A ARGENTINA E O DEVER DE TODAS AS COISAS


Sergio Romero defende dois pênaltis holandeses e coloca a 
Argentina em uma decisão de copa do mundo pela quarta vez

Em uma quarta-feira chuvosa e de cinzas para o futebol brasileiro, Argentina e Holanda decidiram qual seleção irá enfrentar a Alemanha na final da vigésima copa do mundo.
Em um nove de julho, feriado da revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo.
Em um nove de julho, data da independência da Argentina.
Em campo, a força do melhor ataque das fases anteriores, o laranja, contra o selecionado mais disciplinado, o albiceleste.
Deu Argentina com todo o drama.
Com chuva, suor e lágrimas.
Depois de mais 120 minutos de bola rolando e de tiros livres da marca do pênalti.
O goleiro Sergio Romero, iluminado, pegou duas penalidades. Maxi Rodriguez converteu a quarta cobrança elevando compadritos e portenhos à sua quarta final em copas do mundo
Uma peleja com final imprevisível que, se não foi uma espetáculo de técnica, teve roteiro de semifinal.
E premiou a seleção que apresentou um futebol mais coletivo e afinado.
Porque a Argentina  teve, ao lado da Alemanha, um dos melhores índices de aproveitamento de passe na competição.
Sabella adotou a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, deu consistência ao setor defensivo. E como perdeu Di Maria para as semi, sacrificou Lionel Messi mais recuado e com uma sombra, o grandalhão De Jong .
Como analisei em outra conversa, o dez hermano se espalhava mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Talento e tática foram perdidos com a ausência de Angel.   
E para quem não acreditava, o sistema defensivo foi decisivo contra os apagados holandeses.
Robben até que tentou decidir nos minutos finais do tempo normal e da prorrogação. Mas lá estava o desarme espetacular do principal jogador na partida ao lado do arqueiro Romero e um dos preferidos do Papa Francisco: Javier Mascherano, absoluto.
A defesa latina levará para a final no Maracanã uma incrível invencibilidade de 373 minutos sem tomar gols com bola rolando.
O resultado de 4 x 2 nas penalidades leva a Argentina a repetir as finais de 1986 e 90 contra a Alemanha. Com um título para cada lado. 
Será um revanche que premia quem passa mais e acerta.
Quem chega à final passe por passe ocupando espaços.
Um futebol estratégico.
Um futebol que deu certo nesta Copa, passo por passo até o duelo final.
No caso dos nossos vizinhos, com chuva, suor e lágrimas vencedoras de uma quarta-feira, nove de julho de 2014.
Em nove de julho nascia uma bela argentina, Mercedes Sosa.
Em nove de julho morria um belo brasileiro, Vinícius de Moraes.
Após o embate em Itaquera.
Se estivesse no estádio paulista, Mercedes que amava o Brasil, por certo adaptaria e soltaria a voz: 
- Graças ao futebol que me deu tanto, me deu o coração que agita o seu marco. 
Se estivesse na São Paulo chuvosa, Vinícius que amava a Argentina
brindaria os teus versos:
- São demais os perigos também no futebol para quem tem paixão.
E é um dever de toda seleção honrar o seu país com paixão e entrega.
Porque outro argentino escreveu um vez que o dever de todas as coisas é ser uma felicidade.
Foi Jorge Luis Borges que, aqui pra nós, odiava futebol.
A América vive na copa.
Parabéns, hermanos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

8 DE JULHO DE 2014


Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Semifinal da copa do mundo entre Brasil e Alemanha. 
Perto da metade do primeiro tempo, em um intervalo de sete minutos,o sonho do hexa caiu na real. Um pesadelo histórico e humilhante.
Foi uma aula de futebol contemporâneo dada por uma Alemanha exuberante em Minas Gerais e ponto.
E foi uma cônica de um fracasso anunciado de uma seleção comandada por um treinador ultrapassado e sem repertório. Foi a atuação mais medíocre do selecionado brasileiro em toda a sua história.   
Escrevemos em outras crônicas sobre a forma da Alemanha jogar. A determinação tática, a rotação triangular do seu meio-campo. As inversões perfeitas Khedira e dois cracaços de bola, Bastian Schweisteiger e Toni Kroos. A  transformação em quarteto fantástico com a presença de Thomas Müller. 
Não vou me estender. Basta o amigo leitor rever os gols decisivos para a construção do placar. Do segundo ao quinto em sete minutos. O 7x1 final foi pouco. Errou Luiz Felipe ao escalar Bernard? Leiam, por favor, a crônica “Quatro times e um desejo” escrita anterior ao jogo. 

Em 30 minutos, voltamos 32 anos. 
No intervalo desta humilhação de 2014, quando o placar já escancarava 5 x 0, construídos em um espaço de 30 minutos, lá estava um garotinho aos prantos na arena mineira    
Lembrei das lágrimas mais famosas do futebol brasileiro. O menino de olhos perdidos, no dia 5 de julho de 1982. a seleção de Telê Santana perdia da Itália por 3 x 2 e estava fora daquele mundial .
A tragédia do Sarriá, o acanhado estádio espanhol, foi o começo de uma derrocada do futebol brasileiro.    
A geração de Zico, Falcão e Sócrates afundava, mas ali também começava a capitular um modelo de administração desportiva arrojada, sob a batuta de Giulite Coutinho. 
A partir dos fracassos de 82 e 86 entrava em cena, em 1989, a figura desprezível de Ricardo Teixeira, sob a tutela aristocrática de João Havelange.
Os párias tomaram o poder e construíram poderes encastelados, jogadores supervalorizados, cifras astronômicas. Superlativas. Foram criados em série dirigentes de clubes mal preparados. Ganância virou cultura. Administrações nebulosas se multiplicaram.
O formato administrativo e absolutista de grupelhos controlando o destino do que representa a paixão nacional persistia e ainda persiste com as figuras da administração atual da Confederação Brasileira de Futebol.   
Duas copas do mundo foram conquistadas, sim. Mas os adjetivos foram exagerados para o futebol jogado. 
Escondeu-se a morte anunciada.
E ela apareceu convulsiva na França 1998.
Em uma chuteira amarrada fora da hora na Alemanha 2006.
Em uma defesa bisonha na África do Sul 2010.     
Falsos heróis, choros vazios, contas abarrotadas.   

Em 90 minutos, um vexame em 100 anos
A aula de futebol da seleção alemã carimbou no uniforme verde e amarelo o maior vexame da seleção brasileira em 100 anos de história. E na copa disputada em território nacional.
Foi a maior goleada sofrida pela seleção, superando o placar de 1920. O Uruguai nos venceu por 6x0 no campeonato sulamericano em 18 de setembro daquele ano. 
É a maior goleada até agora sofrida por um selecionado brasileiro em copas.
Uma das maiores na história dos mundiais
Se outras seleções caíram de pé nesta copa, como a Argélia, Chile, Colômbia e a Costa Rica, este futebol brasileiro foi enterrado em Minas Gerais. 
Não é exagero e não é de hoje. 
Não podemos esquecer dos passeios do Barcelona sobre o Santos - 4 x 0 na final do mundial de 2011 e 8 x 0 no amistoso de 2013.
Avisos, não.  
A realidade nua e crua. 
O desastre real de um modelo fracassado.   
O sonho acabou e o pesadelo continua.
Resta buscar a dignidade, ainda que perdida. 
Hora de mudar para renascer.
Porque este tipo de futebol brasileiro morreu em 08 de julho de 2014. 
E não vamos esquecer jamais. 

PEDRO, UM BRASILEIRO


Não conheço jornalista esportivo que não seja apaixonado.
Paixão verdadeira pelo que faz e por sua fonte de inspiração.
Seja em um dojô, em uma mesa, em uma quadra, em uma piscina, em um campo de futebol. 
Seja pendurado em um telefone, no calor de uma entrevista, na investigação, na frente de um teclado, de um microfone ou de uma câmera.
Ao levar dos anos, quando o caminho natural da profissão conduz o nosso olhar para horizontes mais críticos, esta paixão continua.
Por mais que a frieza de textos crus e gráficos cartesianos batam à porta. Por mais que a gente tenha que discutir a relação.
Quando vivia na labuta das redações, fechava os cadernos esportivos e preparava colunas semanais de um jornal em um período e conduzia um programa de TV na área cultural em outro. Dia & noite. Noite & dia.
Era rotina implacável para se buscar o diferencial.
E era comum procurarmos outros ambientes, fora do jornal ou da TV, para de caneta em punho, traçarmos títulos e textos. Sacadas e temas. Roteiros e pautas.
Um desses cantinhos da velha Salvador era o Trailler do Gaúcho, pertinho da orla.
Dalí saíram centenas de títulos, pautas e crônicas para a TVE baiana ou o Bahia Hoje, diário impresso que tinha um caderno de esportes de responsa. Por lá passaram os caros Alan Rodrigues, Cândida Silva, Cleusa Duarte, Cristina Mascarenhas, Flavio Novaes, Kajá, Paulo Lafene, Paulo Leandro, Renatinho Ferreira...    
Enquanto almoçava ou jantava “o melhor sanduíche do planeta”, tascava no papel garranchos para utilizar depois. 
Era engraçado: títulos e crônicas para o jornal na hora do almoço. Roteiros, comentários e pautas para TV na madruga durante o jantar...
Pedro era o gaúcho, responsável pelo lugar e pelas receitas estupendas dos “sandubas pampeiros" que matavam a fome desse escriba e de tantos notívagos. Criaturas da noite.
O grande camarada Pedro, clone do ator Jonas Bloch, foi testemunha das minhas alegrias e de tantas aflições de ter à sua frente uma folha em branco e o vazio cruel de não sair nadinha da cachola. 
Em uma dessas torturas madrugadeiras, vendo o amigo distraído em apuros, precisando de um tema, de um mote,  Pedro tentou me ajudar.
E contou a sua história. 
Refastelou seus quase dois metros na “mesa da diretoria”, ajeitou a velha boina, e com a típica postura imponente, desandou a narrar.    
Estudante de Arquitetura & Paisagismo, Pedrão se mandou de mochila e cuia para a Alemanha querendo mudar o mundo.
No final dos anos de 1970, perambulou por Frankfurt, Berlim, Munique. Bavieras...   
Com alemão fluente, nas horas vagas era guia e tradutor de vários brasileiros, entre eles diversos escritores, que beberam e muito na fonte cultural germânica a partir da presença solidária do grandalhão.
Escrevi uma vez que para um abismo muda-se uma letra.
Foi o caso do solidário Pedro, um gaúcho solitário.
Ao relento das lutas inglórias em um país distante, das batalhas interiores, do abandono, nosso personagem resolveu pegar o caminho de casa.       
Voltou para sua cidadezinha de fronteira na pontinha do Brasil.
Ao Pedro, o levar dos anos trouxe couraças,  endurecimentos e um olhar pra lá de desconfiado. Foram várias as decepções vividas em terras alemãs, provocadas por falsos amigos brasileiros.
Na pontinha do Rio Grande, em um fim de tarde chuvoso e frio, chegou uma carta para ele. O selo tinha a banderinha da Colômbia. Era 1990.
As linhas escritas por um garoto de oito anos apresentavam ao Pedro o seu filho, gerado de um romance regado à boemia e aos encantos de Munique com uma bela morena de Bogotá, durante a copa de 1982.
Juan Pedro, se não me falha a memória era o nome do garoto, escreveu a carta porque queria conhecer o pai. E o Pedro não sabia que tinha um herdeiro. 
Naquele momento e já passava das duas, vi o nosso amigo prender a respiração. Ia argumentar alguma coisa e ele não me deixou abrir a boca.
- Calma lá, guri. Deixar continuar, senão não termino, tchê.
E ele seguiu no relato.
Depois de ler a carta, não pestanejou. No outro dia, pegou suas economias, investiu em um trailler. Engatou em uma velha Caravan e partiu do sul do Brasil rumo à Colômbia.
A determinação do velho amigo rendeu o encontro, a emoção de conhecer o filho e a mudança de sua vida.
Isto porque no seu retorno de terras colombianas, por causa do fruto de um romance na Alemanha, com destino à pontinha do Brasil, a velha Caravan não agüentou e ele parou na Bahia.  
E por aqui ficou, montou o point dos notívagos, dos músicos, dos escribas apaixonados, dos jornalistas na labuta diária.
Conheceu este velho amigo, que às três da matina daquela madrugada, tentava esconder lágrimas teimosas que rolavam depois de ouvir a narrativa .
Na Bahia, Pedrão viu o seu Brasil cair em 1990, ganhar o tetra em 94, perder para os franceses em 98.
A última vez que tentei encontrá-lo foi em 2002, logo depois do Brasil vencer a Alemanha na final da copa do Japão. 
Não o achei, nem nunca mais o vi.
Como nunca contei essa história.
Hoje lembrei dela.
Não sei se esse brasileiro fora de série, mora na Colômbia com o filho, retornou à Alemanha, sua segunda paixão, ou continua naquela cidadezinha na pontinha do nosso Brasil.
Por certo onde estiver, plantado ansioso esperando a bola rolar para Brasil x Alemanha.
Por certo, estará feliz. 

Ilustração: Janice Lucier

segunda-feira, 7 de julho de 2014

QUATRO TIMES E UM DESEJO

Quatro seleções da primeira linha do futebol mundial 
ainda correm atrás da bola para levantar esta taça 

25 dias depois (passa rápido, não?) este objeto de desejo é disputado agora por quatro sobreviventes na melhor copa dos últimos 60 anos, pelo menos. 
Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda  colocam duas revanches, vinte decisões e dez títulos em jogo nas duas partidas semifinais do mundial de 2014.
Escrevemos as seleções em ordem alfabética por uma razão bem simples. Ninguém é dona da cocada preta nessa hora de onça sedentas.
São fortes e tradicionais, robustas, mas nenhuma chega como rainha do pedaço.     
O modo ultra competitivo no qual se desenrola este mundial provocou uma alternância natural no desempenho das seleções no torneio.
No futebol contemporâneo é quase impossível você ter uma formação de jogadores que tenham performance linear em uma partida, que dirá em uma competição. Seja ela curta ou longa.
Os jogos disputados no mundial do Brasil são a maior prova disso.    
A oscilação é normal e aumenta mais a partir da competitividade e em diversos graus de dificuldades no campo ou fora dele.  
Não gosto e nunca fiz comparações de times com seleções.
São formatos de grupos com históricos, culturas e lógicas diferentes.
Mas isso não impede de constatações óbvias. Por um lado, em um clube você pode ter uma seleção dos melhores do mundo em cada posição, casos recentes de Barcelona Bayern e Real Madrid.
Por outro, nesta copa do mundo seleções tradicionais se apresentaram como times bem montados por seus treinadores. Casos de Alemanha, França e Holanda. E outras, sem relevâncias teóricas como Costa Rica e Argélia e que, partindo da mesma análise do coletivo poderiam, sem surpresas  na prática da competição, ir mais longe... A Costa Rica quase consegue. 
Vale a relação até aí. 


SUPER SEMIS
Vamos aos semifinalistas.
A seleção holandesa é um time de aproveitamento ativo. E essa qualidade deve-se a seu treinador. Dos 23 atletas laranjas convocados, Louis Van Gaal utilizou 20 em cinco jogos, Todos com a estratégia de mudar o repertório tático durante pelejas. Uma marca a ser guardada por treinadores brasileiros.
A Holanda é a melhor em gols marcados e a segunda mais faltosa.
Tem o futebol mais vibrante entre as quatro bambambans.  
É da Holanda o melhor jogador da competição. Robben.
Mas não é o bastante para cravar que vai derrubar a Argentina.
E os hermanos?
E a perda do Di Maria?
Em proporção, pode ser até pior para os argentinos do que a ausência de Neymar para o Brasil. Explico daqui a pouco 
Enzo Perez e Rick Álvarez disputam a vaga de Angel.
A Argentina  tem um dos melhores índices de aproveitamento de passe no mundial. Lionel Messi está mais competitivo, Sabella adota a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, liberou mais Leo. O dez hermano se espalha mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas  e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Em ótima fase, Angel Di Maria e sua lesão  causam dor de cabeça dupla em Sabella. Talento e tática são perdidos com a sua ausência.   
Vale ainda lembrar que a Argentina, além de ser a segunda em passes efetuados, é a mais disciplinada com a ótima média de dez faltas por jogo e cinco amarelos recebidos. Só a Alemanha recebeu menos tarjetas, quatro.
Os dados se completam e traz frase prontinha e cristalina. 
Quem passa mais, bate menos. 
E essa máxima explica, em parte, o sucesso de argentinos e, claro, também dos alemães.
Vamos ao adversário do Brasil nas semifinais
A eficiência da Alemanha no controle do jogo beira nessa copa a repeitável marca de 85% de passes certos. 
A rotação precisa de Khedira, Schweisteiger e Kroos multiplica o repertório alemão e cresce ainda mais quando Thomas Muller recua e completa a faixa de criação de jogadas.
A Alemanha vem forte e em alto astral.
E para você, amigo leitor deste Café, sabedor desde o início que Manuel Neuer atua como líbero, este escriba acredita na performance do goleiro do Bayern mais debaixo do três paus, como foi a atuação contra a França.
É jogo para ficarmos de olho em outra fera: Bastian Schweisteiger. Pode desequilibrar. 
Mas e o Brasil, caros amigos?
A seleção do ex-zagueiro Luiz Felipe é a mais violenta entre as quatro semifinalistas da copa do mundo com 95 faltas e a campeã em cartões amarelos, com 10. Só contra a Colômbia pelas quartas de final, os canarinhos fizeram 31 faltas, das 54 do jogo. Mais parecem galos de briga.     
O Brasil que chega às semi é a pior em passes e a segunda melhor em gols marcados ao lado dos alemães com dez tentos.
Quem esperava técnica, vê força copeira.
Quem esperava atacantes decisivos, vê zagueiros brilhantes decidindo jogos. 
Mas sem Thiago Silva e Neymar?
Além da mudança com os substitutos, há uma obrigação de Scolari e seus comandados: a mudança de atitude, de tática e de passar uma borracha no circo dos últimos dias.


CIRCO GROTESCO
Primeiro vamos torcer o nariz.
Em um espetáculo patético, sem noção mesmo, houve uma cobertura exagerada sobre as consequências de um lance duro, mas um acidente de percurso, que tirou Neymar da copa do mundo.
Houve um linchamento público, medíocre e covarde do limitadíssimo lateral colombiano, responsável pela contusão do craque brasileiro.
E Neymar, de jogador sensacional virou fonte para sensacionalistas.     
Ao que se apresenta, o que chamávamos de jornalismo é tratado como fotonovela bizarra, dramalhão de quinta, tribuna de exceção, comédia caricata e ópera bufa.
De um “vá em paz”, dito por uma repórter em cobertura ao vivo, quando o atleta lesionado saia de helicóptero da Granja Comary a um “me salva, Neymar”, quadro espantoso de um programa de TV, as bizarrias não foram poucas.
Um exagero lacrimoso, oportunista e, repito, sem noção.    
Até porque, ninguém morreu.
O jornalismo, esse sim todo quebrado, coitado, agoniza. 


PROMESSA SE PAGA
Mas vamos deixar a vergonha alheia de lado e tratar do que prometemos linhas atrás. 
Há uma tendência, que não descarto, na melhora do padrão de jogo da seleção sem Neymar. Por vários fatores. Entre eles, o aumento no número de passes na seleção, o futebol coletivo falar mais alto, o rendimento de Oscar aumentar e o Fred finalmente dar o ar da graça.
Utilizaria William no decorrer do jogo, mas iniciaria com Paulinho ao lado de Luiz Gustavo. Manteria Fernandinho mais rotativo, liberando Oscar para a criação e o elo com Hulk e Fred. Maicon e Marcelo seriam alas concretos. Sim, pelo que vimos no torneio, prefiro Maicon a Daniel. 
E mais. É jogo para ímpeto, atitude e personalidade. 
Porque o Brasil precisa vencer o meio campo alemão sem a presença do seu craque.
Porque o Brasil precisa cansar gente muito talentosa e determinada do outro lado. 
Na força leal, no passe certo, na bola redonda e com nervos no lugar.


O FUTEBOL AGRADECE A COPA 
Nenhuma das quatro seleções encheu os olhos desse escriba.
Todas perderam antes ou durante a copa, craques que poderiam fazer a diferença. 
Todas passaram por altos e baixos e não há fantásticos nem favoritos para a final.
O que nos agrada, sinceramente.
Assim o futebol segue com suas improbabilidades. Com tua magia real. 
Por vezes encantadora, outras vezes cruel, para sempre marcar um golaço em velhos e novos corações.
O futebol muda em nuances, margeia o indefinível. 
Qual de nós sobreviveria, se perguntado há tempos atrás, na véspera de duelo entre Brasil x Alemanha respondesse que o futebol-força seria dos brasileiros e o futebol arte, dos alemães?
Certamente iria fazer uma ponta em fotonovela chinfrim, uma comédia caricata das piores ou uma lamentável ópera bufa.

Foto: Getty Images

sábado, 5 de julho de 2014

A COPA NÚMERO UM

Louis Van Gaal abraça sua arma secreta para disputa de tiros livres. Tim Krul defende 
duas vezes e leva Holanda às semifinais contra a Argentina, reedição da final de 1978. 

Na copa de 1990 o ótimo goleiro Luis Conejo, da Costa Rica, foi eleito o melhor da posição ao lado do argentino Goycochea.
24 anos depois, o seu pupilo Keylor Navas, se não repetir o feito do mentor Conejo, vai estar presente em uma almejada galeria de mundiais. A dos grandes goleiros.
Nesta copa número um, você pode escolher: Tim Howard (EUA), Júlio Cesar (Brasil), Ospina (Colômbia), Courtois (Bélgica), Neuer (Alemanha), Bravo (Chile), Ochoa (México) e, óbvio, Keylor Navas, da valente e invicta Costa Rica.
Difícil a escolha, não é?           
Como é difícil ser goleiro nesta vida.
Porque vale sempre repetir uma velha paródia: 
Vida de goleiro é difícil, é difícil como quê... 
Difícil e injusta.
Como o futebol e suas múltiplas possibilidades.
Com os teus encantos cruéis.
Foi assim com o ótimo arqueiro costarriquenho.
Não é exagero descrever o duelo de 120 minutos entre Holanda e Costa Rica de um time contra um homem só.
Navas simplesmente fechou o gol diante de um esquadrão laranja montando por Louis Van Gaal. 
Foram três atacantes no primeiro tempo: Arjen Robben, Van Persie, autênticos, e Sneidjer, meia avançado.
Aos 30 do segundo tempo, o estrategista holandês tira o meia Depay e coloca Lens, o quarto atacante.     
Na virada de tempo da prorrogação, não teve conversa: remontou sua equipe, arriscando o quinto homem de área, Huntelaar sacando o zagueiro Mathias Indi.
E foi uma saraivada de ataques quando não defendidos, bola batendo nas traves, salva por zagueiro em cima da linha. Sacos e sacos de laranjas e Navas dando boas novas:
- Aqui não passa nada!. 
Para esse escriba, não foi o melhor 0 x 0 que assistimos. Até porque só um selecionado atacou. Mas foi bom de ver o Navas, em luta solitária pela sua Costa Rica. Foi bom de ver o amplo repertório tático dos ataques holandeses.
Bom de ver Robben jogar.
E, antes de tudo, para se ter um vencedor justo na ciência das quatro linhas, é sempre bom de ver um treinador inteligente no banco de reservas.
Já escrevi sobre Louis Van Gaal no nosso Café na Copa.
O técnico holandês já utilizou 87% dos seus 23 jogadores escolhidos para o mundial.
No último minuto da prorrogação, Van Gaal colocou o seu vigésimo atleta convocado para entrar em campo.
O terceiro goleiro, Tim Krul com seus 1,93m e uniforme verde.
Uma mudança arrojada, corajosa de Van Gaal.
Madura.
Vale ressaltar: o titular Cillisen se saiu contrariado, mudou de ideia rapidinho. Krul, goleiro do Newcastle, é especialista em cobranças de penalidades. Era carta na manga para as cobranças dos tiros livres.
O estilo de Krul lembra muito o de Waldir Peres, goleiro do São Paulo e da seleção nas décadas de 1970 e 80.  O goleiro malandro, iconoclasta, abusado e... pegador.
E foram as excelentes defesas frente às tentativas de Bryan Ruiz e Umaña que garantiram a ida da Holanda para as semifinais de uma copa do mundo pela quarta vez.   
A despedida da Fonte dos Gols da copa foi em uma tarde de goleiros.
Claro, uma tarde número um.
Viva Navas.

Foto: Sergio Moraes/Reuters 

CHORA POR TI, ARGENTINA!



Gonzalo Higuaín recupera bom futebol,  Argentina se classifica, mas perde Di Maria 

Não está sendo fácil para a Argentina.
Para chegar às semifinais do Mundial no Brasil, os hermanos estão deixando os seus torcedores à beira de um ataque de nervos. 
Foi assim contra bósnios, nigerianos e iranianos na primeira fase.
Foi assim contra os suíços nas oitavas. 
E não foi diferente frente aos belgas nas quartas de final, sob sol inclemente de Brasília. 
Mais um embate disputado a partir de uma da tarde. 
Foi a quarta vez que o time de Alejandro Sabella enfrentou este horário absurdo na competição.  
O solitário e belo gol de Gonzalo Higuaín aos sete da etapa inicial garantiu a Argentina, 24 anos depois, entre os quatro melhores de uma copa.
A jogada mais uma vez começou com Lionel Messi, passou por Angel Di Maria e, em passe cruzado, a pelota raspou em Verthongen e o artilheiro do Napoli se apresentou para a copa em momento decisivo. De primeira, sem chances para Courtois, 1 x 0.        
Escrevi antes do início da copa que a Bélgica não seria a surpresa, decantada por muitos. Pelo futebol praticado na Eurocopa e nas eliminatórias, era candidata ao título.
A eliminação nas quartas e uma caricatura opaca do futebol antes praticado nas duas competições citadas dão aos belgas o lugar de uma das decepções da copa. Menor que a da Espanha, obviamente, mas se esperava mais dos comandados de Marc Wilmots.
Foi dele parte da responsabilidade pelo fracasso dos diabos vermelhos no Mané Garrincha. Não soube imprimir velocidade e capacidade de criação nos pés de Hazard, outro abaixo da crítica, para furar o bloqueio argentino. 
Wilmots também não soube inverter as ações de De Bruyne no meio campo e ataque. Demorou e muito para sacar do jogo o apagado Origi e acionar Romelu Lukaku. E seu time abusou até a exaustão de chutões horrorosos buscando a jogada aérea e as cabeçadas de Felainni.
Exceção se faça ao ótimo Thibaut Courtois.
O arqueiro parou Lionel Messi mais uma vez. Já tinha brilhado frente a La Pulga defendendo as cores do Clube Atletico de Madrid.
Com os mesmos 22 anos de Neymar e James Rodriguez, é mais um craque a dar adeus. E foi um dos responsáveis para lembrarmos que esta foi também a “copa dos goleiros”.
Não fosse Courtois, Messi teria matado o jogo, aos 48.
Permitiu tentativa de reação belga no último minuto, aos 49, deixando as duas torcidas à beira de um ataque de nervos.
Nervos que ficaram no lugar nos uniformes albicelestes.
Até o apito derradeiro.
Hermanos se juntavam a Brasil e Alemanha. Dez títulos mundiais na semifinal. Uma super semi.
Destaque em campo, o meia defensivo Lucas Biglia despenca aos prantos. Higuaín, que tinha sido substituído por Palácios, invade o gramado às lágrimas... 
Os argentinos também choram. 
Até um marciano sabe o que é uma copa do mundo. Imagine um argentino.  
- “Isso não vai ser fácil”. 
Este é o primeiro verso de “Don’t Cry For Me Argentina”, a música mais famosa da peça Evita, escrita por Adrew Loyd Weber e Tim Rice em homenagem à atriz e líder política Eva Peron.
O espetáculo estreou em 1978, mesmo ano da conquista do primeiro título mundial dos hermanos, no país mergulhado em uma ditadura estúpida e sangrenta.
Seguimos, Argentina. 
Por isso não chores por nós.
Sabemos como é. 
Choras por ti e verás que belo é chorar assim.
Com os nervos no lugar, sem fugir da luta.
E encarando as baixas, mesmo com as vitórias.
Por que a exemplo de Neymar desfalcando o Brasil, Angel Di Maria, lesionado, está fora da copa do mundo.
Não será fácil.

Foto Getty Images

sexta-feira, 4 de julho de 2014

ALEGRIA E DOR. BRASIL VENCE, SEGUE E PERDE NEYMAR

Fratura em vértebra tira principal estrela brasileira na difícil caminhada rumo ao título 

A seleção brasileira precisava jogar muita bola para vencer a Colômbia.  
Jogou.
O Brasil ganhou a vaga em alta rotação, inversão de papéis, futebol envolvente em boa parte do jogo e perda importante para o seguimento da copa. 
Teve a sua melhor atuação na copa do mundo durante 78 minutos da dramática partida no Castelão, em Fortaleza. Ganhou por 2x1 dos colombianos e perdeu Neymar. 
No finalzinho do jogo, o lateral direito Zuniga acertou, em entrada dura, uma joelhada por trás no artilheiro da seleção. 
Neymar sofreu fratura na terceira vértebra da lombar e está fora da copa do mundo. 
Em campo, o craque brasileiro teve atuação mediana. Curiosamente foi o único jogo até agora em que se dependeu menos dele. E vai ser assim, infelizmente, na luta do Brasil pelo hexacampeonato.  

O JOGO
Enquanto manteve a posse de bola, o time de Luiz Felipe Scolari foi soberano diante de uma Colômbia caricata com futebol quadrado, com o perdão do trocadilho, mas merecedor.
O meia da Fiorentina, quase xará do adjetivo, foi a grande decepção no selecionado de Pékerman. Não rendeu e afundou as performances anteriores de James Rodriguez no mundial.
E a leitura da baixa produção das pérolas colombianas passou por um nome: Fernandinho.
O meia defensivo brasileiro anulou a criação do meio-campo adversário.
Deu consistência, provocou o crescimento do futebol de Oscar, equilibrou a instabilidade de Paulinho em outras jornadas e renasceu o setor que devia uma bela atuação na seleção brasileira. Foi importantíssimo, mas não foi decisivo.
O futebol é fascinante porque é imponderável e surpreendente.
Em qualquer bate papo, decantamos duplas nacionais em copas do mundo de olhos fechados: Pelé & Garrincha, Didi & Vavá, Bebeto & Romário, Ronaldo & Rivaldo.
Todo eles craques ofensivos. Meias e atacantes.
Nesta copa, é diferente.
Desta vez na geografia louca do mundo da bola com suas mágicas duplas, o melhor ataque vem da defesa.
Uma dupla de zagueiros é quem desequilibra.   
Thiago Silva & David Luiz são responsáveis pelos gols da vaga brasileira para o jogo semifinal. 
Pela décima vez na história o Brasil está entre os quatro melhores do mundo.
Thiago foi um monstro em Fortaleza. 
O gol marcado aos seis minutos provava que o capitão entrou para decidir. 
E lá na cozinha brasileira, a participação dele foi mais do que eficiente. 
Beirou a perfeição. 
Brasil jogava bem e daqui a pouco nós falaremos de David, que já era implacável na marcação com a mesma garra e ótimo posicionamento na antecipação frente aos atacantes adversários.  
A Colômbia permanecia com sua caricatura de quatro lados para lugar nenhum. 
O meio campo canarinho rendia. Oscar participava mais da criação das jogadas e seguia bem no desarme. Hulk fazia bela partida.
Não fosse o Ospina, goleiro colombiano, a seleção brasileira já estaria com bela vantagem.
Fred puxava a marcação dos zagueiros. Permitia a infiltração do Hulk em duas jogadas a partir das falhas sucessivas do lado direito da defesa colombiana. Sumido o nove brasileiro, mas eficaz.
Não é o melhor do mundos, mas funcionou com a boa mobilidade do Hulk. O grandalhão deixou de ser babá do Marcelo. Mas isso porque o lado direito da Colômbia está bem fraquinho no jogo. Zuniga era engenheiro de avenidas.

A PARÁBOLA DE DAVID
O jogo virava de tempo com festa nas arquibancadas e confiança de que a classificação viria 
Os colombianos melhoraram no giro final e o meio-campo brasileiro decaiu de produção. A performance de Paulinho caiu. Oscar voltava mais para o desarme.
As falhas surgiam e o espaço intermediário no sistema defensivo começavam a aparecer.
Mas veio a segunda bola parada decisiva da peleja. Aos 22 minutos.
A falta à meia distância, quase na intermediária e um cabeludo colocou a bola debaixo do braço.
A corrida desengonçada e o toque de maestria. Ospina se estica ao limite. Limite?
Todos os golaços são inventados para superá-lo. Para alcançar o indescritível.  
A parábola de David ganhou lugar na galeria das obras de arte criadas na moldura das quarto linhas. 2 x 0 Brasil.   
Para muitas gerações de boleiros, o placar mais traiçoeiro no mundo da bola.

AGONIA E DOR
Pekerman mexe no time colombiano. Entrada de Bacca mudou ataque colombiano. Habilidoso o rapaz. Tanto quanto é James Rodrigues. Os 12 minutos finais e mais o tempo extra foram para testar novamente o coração do torcedor brasileiro .
Porque o que já era preocupante antes do bendito segundo gol, se tornou drama aos 34.
Pênalti claro para Colômbia. Erro de Maicon provocou contrataque comandado por James, o passe perfeito para Carlos Bacca. 
O atacante do Sevilla é derrubado por Julio César. Velasco aponta a marca da cal.  
James Rodríguez na cobrança.
Se já não é fácil pegar pênalti, de craque canhoto aí sim é loteria... 1 x 2.
O garotão colombiano entrou para a seleta galeria de artilheiros com seis gols em copas do mundo.
E veio a pressão óbvia. A mesma agonia. Tem que ser sempre no sofrimento?   
Luiz Felipe erra ao tirar Hulk e colocar Ramires.
Colômbia cresce.
A seleção brasileira não consegue manter a posse de bola e segurar o ímpeto do adversário. 
Felipe acerta. Tira Paulinho que abria cada vez mais buracos no sistema intermediário na defesa brasileira. Entra Hernandes.
Cinco minutos de acréscimo. Desespero no banco brasileiro. Reservas em pé. Scolari adiantava relógios imaginários. Pedia o fim.
Nesta copa imprevisível, apito de juiz sempre vira suspiro de alivio. E dor para os perdedores caindo sempre de pé. Foi o caso da brava Colômbia.   
Classificado, o Brasil encerrava o jogo com quatro volantes: Fernandinho, Ramires e Hernandes e… Henrique. 
Porque o homem de confiança de Luiz Felipe foi o último a entrar depois de joelhada criminosa de Zuniga em Neymar, aos 41 minutos do segundo tempo.  
O dez brasileiro saiu com trauma na coluna direto para uma clínica da capital cearense. 
Foi detectada a lesão: fratura na terceira vértebra da lombar. 
A sofrida classificação brasileira tirou seu capitão Thiago para o próximo jogo.
Tirou sua principal esperança na luta para chegar a final e conquistar o título.
Em 1962, Aymoré Moreira apresentou ao mundo Amarildo, substituto do contundido Pelé, e conquistou o bi mundial.  
Brasil e Alemanha vão reeditar a final de 2002. Luiz Felipe Scolari era o técnico brasileiro na conquista do pentacampeonato. 
Doze anos depois de Yokohama e 52 após o feito no Chile, a seleção brasileira de futebol vive o desafio de enfrentar um grande rival e sem o seu principal jogador 
Cabe a Scolari reinventar uma seleção e forjar novas esperanças.
Porque na constelação desta bela copa, fica faltando uma estrela a partir de hoje. 

Foto: Reuters

ALEMANHA DO PASSE, DA PEÇA, DA POSSE E DA PACIÊNCIA

Em sua melhor atuação na copa, zagueiro Mats Hummels repete jogada característica marca 
único gol sobre a França e carimba Alemanha na quarta semifinal consecutiva em mundiais 

Os treinadores Joachim Low e Didier Deschamps não pestanejaram nem marcaram touca.
Mudaram as escalações de Alemanha e França para o duelo a sol pleno do Rio de Janeiro pelas quartas de final da copa do mundo.
Low finalmente colocou Lahm na ala direita. Sacou Mario Gotze para a entrada de Miroslav Klose no ataque e montou o meio campo preferido do torcedor germânico e desse escriba com Sami Khedira, Bastian Schweinsteiger e Toni Kroos. 
Os bleus foram para a jornada com o excelente trio na meiúca mantido com Yohan Cabaye, Blaise Matuidi e Paul Pogba. E mexeu na frente com a saída de Giraud para a entrada do arisco Griezmann.
Primeira etapa do clássico europeu foi em alta rotação.
O destino do jogo começou a ser desenhado logo no início.
Aos 12 minutos, depois de um lá e cá provando que seria um jogão, foi na bola parada que a Alemanha alcançou a vantagem mínima e, por que não dizer, máxima.
Em cobrança de falta, Toni Kroos fez um cruzamento milimétrico na cabeça de Mats Hummels. No duelo de zagueiros e em jogada característica, o craque do Borussia Dortmund venceu Varane. Alemanha 1 x 0.            
Na frente do placar, os alemães bem postados no meio anulavam com ótima marcação as progressões de Matuidi e Pogba.
A França sentia o gol e buscava espaços. A saída eram os lançamentos longos e a boa movimentação de Mathieu Valbuena.
Foi assim que quase iria conseguir a igualdade, não fosse estupenda defesa de Neuer em chute o atacante do Olympique de Marselha.
Apesar da melhora do seu quadro, era visível a agonia de Deschamps.  
Apesar das investidas, a saída de bola dos azuis não conseguia soltar os talentosos, velozes e criativos Pogba e Matuidi. 
À frente se apresentava um adversário gélido. Por mais que o universo de um estádio, de um Rio de Janeiro no sol a pino de julho, e da fase aguda da copa exigissem um jogo com 40 graus à sombra.
Uma cena entre os tempos de jogo nos chamou a atenção. Pogba, a principal esperança francesa, terminava simbolicamente os 45 minutos iniciais com a bola nas suas mãos. Era a única posse real sobre a pelota que iria conseguir dali para frente.  
A simpática Alemanha do "Campo Bahia", dentro das quatro linhas cariocas era agora fria e carrancuda. Era a Alemanha onde a onça bebe água.
Porque Bastian Schweinsteiger, como de praxe, era monstro. Um esteio.
Porque Hummels era um xerifão na sua melhor apresentação na copa.
Porque Sami Khedira colocou a alma no bico da chuteira. 
A Alemanha buscava a posse, o passe e a paciência. 
Cadenciava a conquista da vaga.
Pela esquerda da frente francesa, os grandalhões Matuidi e Evra tentavam a invasão. E aí entre os paredões germânicos, aprecia um baixinho (gigante?) que estava gastando a bola e continuava implacável. Philipp Lahm estava em casa na lateral.
E era só no lançamento longo que a França conseguia a infiltração. Pogba estava anulado. Matuidi aparecia bem pela esquerda e tinha gás. Podia ser decisivo. 
Podia.
Porque aos 33 minutos da etapa final, em duelo de início de tarde calorenta, veio o nó tático de Joachim Low em Didier Deschamps.
Avançou o paredão de meio campo. A Alemanha marcava sem dar espaços à saída de bola.
Era a pregada de peça que faltava no jogo da paciência.
Foram poucas as chances do empate francês. 
Aos 35, um exausto Valbuena cobra a falta e no bate rebate, a bola passa raspando a meta.         
No contra-ataque, a Alemanha poderia ter definido a vaga com Shurrle. Perdeu gol feito.
E continuava no campo francês. Impedindo a ação adversária em criar as jogadas de velocidade.
Até o goleiro Lloris era marcado por Thomas Muller.
Uma tomada de espaço admirável, calculista, corajosa e decisiva.
Na única falha desse sistema do paredão de linha, apareceu o paredão no gol.
O estupendo Neuer em defesa de reflexo puro no chute de Karim Benzema.
Aos 48 minutos do segundo tempo.
Era o adeus dos Bleus.
Mais um selecionado a cair de pé, mesmo não tendo encontrado o seu futebol nesta sexta-feira ensolarada em um mítico Maracanã lotado.
Alemanha está na quarta semifinal consecutiva. 
Feito inédito em copas do mundo.
Com  passe, posse e paciência.
E uma pregada de peça preciosa.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CARTAS DAS QUARTAS



Ilustração: Baptistão


Vamos falar aqui de cartas na manga e cartas na mesa. 
A seleção brasileira de Luiz Felipe Scolari decide o seu destino na Copa enfrentando uma equipe com 100% de aproveitamento.
A Colômbia finaliza pouco, 46 ações de ataque, e goleia muito, 11 tentos marcados.
A Colômbia não precisou de prorrogação nem pênalti para despachar o Uruguai. Isso diminuiu a sua numeração de desarmes em relação aos brasileiros.
O que dá, obviamente, a falsa impressão de superioridade do time de Scolari.
Ledo engano.
A Colômbia venceu os quatro jogos com eficiência do passe na linha de criação. Poucos, diga-se, mas o bastante para produzir velocidade no ataque.       
E Pekerman soube montar, bem ao seu estilo, uma equipe que se movimenta com intensidade. A versatilidade de Cuadrado, a ótima copa de James Rodriguez e dois atacantes ariscos como Theo Gutierrez e Jackson Martinez prometem dores de cabeça para a defesa brasileira.
E não podemos esquecer. Jose Pekerman é técnico de futebol contemporâneo. Bem diferente do estilo conservador do Scolari Século XX. 
Argentino, dirigiu a seleção do seu país em 2006 e é um estrategista. Por isso, podemos ter uma seleção colombiana completamente diferente do que vimos até agora. Jogadores atuando com funções diferenciadas não será novidade para este escriba.
São cartas na manga.
Essencial em profissionais de futebol... contemporâneos.             
Por isso o Brasil vai ter que jogar muita bola.
Luiz Felipe deve escalar Fernandinho e Paulinho como volantes e fazer troca simples. Fernandinho mais recuado sendo o substituto real de Luiz Gustavo. Paulinho retorna na mesma função tática. 
Agradar, não agrada. O vazio criativo do meio-campo brasileiro passa por uma baita melhora de produção de Oscar. Será fundamental para vencer o jogo.
Para que Oscar se torne o arquiteto das jogadas, tem que deixar de ser "babá" de Daniel. O mesmo vale para Hulk com relação a Marcelo.
Não esqueçam do gol marcado pelo Chile. Foi bem clara a disfunção no posicionamento do Hulk. E a falha bisonha bem característica de atacante no lugar errado.    
Cauteloso, Felipe faz troca mínima. É o preço de contar,  no banco e no time titular, com atletas que não estão rendendo na copa. 
Mas não é só a baixa produtividade do elenco brasileiro que preocupa. 
Taticamente, a seleção de Scolari não mostrou diversidade no esquema de sua equipe em campo nos quatro jogos que disputou. 
São cartas na mesa.
Essencial para abrir os olhos de você, amigo leitor.
Técnicos como Low, Van Gaal, Deschamps e o próprio Pekerman guardam vários repertórios táticos no aproveitamento de jogadores tanto na linha como no banco de reservas durante as partidas. 
Scolari não tem essa prática e adota um estilo que está ultrapassado. Não sabe aproveitar a experiência dos seus comandados. 
Sim, porque o elenco canarinho tem vários jogadores que já venceram a Champions League, por exemplo. É um erro grotesco chamar esta seleção brasileira de “jovem”. Basta ver o currículo de cada um.
Seria o mesmo se passarmos na frente do zagueirão Yepes e gritássemos:
- El Chiquitito!
O becão do Atalanta, garantido como titular da seleção colombiana com 38 anos nas costas, ia ganhar o dia. 
Que Neymar, na molecagem dos seus 22 anos, falte com o respeito e parta pra cima  do “coroa” sem medo de ser feliz no Castelão. 
É um ás solitário na falta de coringas na mão de Scolari.  
E em quartas de final não cabem blefes.
Para que o sonho do hexa não desabe como um castelo de cartas.

Atualização às 15h50: Luiz Felipe escala Maicon. Daniel é barrado na lateral direita e fica no banco de reserva para o confronto contra a Colômbia  
  Ilustração: Baptistão/baptistao.zip.ne

CONTAGEM PROGRESSIVA


 Restaram quatro seleções latinas e quatro europeias na luta pela taça. E não há favorito   

Faltam dez dias para o fim da vigésima copa do mundo de futebol.
Entramos na fase aguda da competição com a disputa das quartas de final.
Oito seleções estão na briga, entre elas quatro campeãs mundiais.
E não há favoritos.
Só para se ter ideia do tamanho do equilíbrio, nada menos que três finais de copas anteriores podem se repetir nas partidas semifinais desta edição.
A de 1978, Argentina x Holanda. Brasil x França em 98 e Brasil x Alemanha em 2002.
A seleção alemã entra para a história com mais uma participação nas quartas. Será a décima sexta consecutiva, um recorde em mundiais. 
Mas o dado só serve para dar charme em texto.
Repito, não há favoritos.
O equilíbrio continua na origem dos selecionados.
Quatro europeus.
Quatro latinos.
Colômbia e Costa Rica sonham com classificação inédita.
A Bélgica já alcançou o quarto lugar em 1986.
A Holanda quer deixar de ser vice.
Brasil, Alemanha, Argentina e França juntos acumulam 11 títulos mundiais. 
Faltam dez dias.
Dez dias, oito jogos imprevisíveis.
E a contagem é regressiva?
Nunca foi.
É progressiva. 
Degrau a degrau até o topo.
E lá estará um campeão erguendo a taça.