sábado, 12 de julho de 2014

O BAGAÇO, A BAGUNÇA E A BAGACEIRA

O atacante Robin Van Persie faz o primeiro gol holandês em cobrança 
de penalidade.  Era o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo  

Não foi o jogo “Laranja x Bagaço”.
A Holanda chegava à Brasília depois de uma maratona.  
Uma calorenta decisão nas oitavas, disputada contra o México a uma da tarde no Ceará e duas prorrogações consecutivas, pelas quartas e semifinal.   
A Holanda venceu o Brasil por um sonoro 3x0, nota final da ópera bufa do futebol nacional na vigésima copa do mundo.
Ou seja, até o "bagaço da laranja" esmagou o bando de Felipão.
Quem acompanha este blog sabe que estamos à vontade para analisarmos a pior campanha da seleção brasileira em mundiais.   
Uma seleção de quinta categoria sem repertório algum. Sem passe progressivo, sem esquema tático, sem preparo. Dez gols levados em dois jogos. Uma bagunça. 
E o que é pior, escuto a entrevista do técnico Luiz Felipe Scolari após novo vexame enquanto escrevo essas linhas. Scolari não assume o fracasso tático brasileiro. Um espetáculo de soberba e teimosia deprimentes. Errar é do jogo. Não assumir o erro... 
Vamos ao réquiem.
O time de Louis Van Gaal resolveu o jogo cedo com uma mãozinha do árbitro e da zaga brasileira em atuação bisonha.
Mal tinha rolado a bola, Arjen Robben, em jogada característica, arrancou no meio da zaga brasileira, Thiago Silva puxou o carequinha. Robben cai na área, a falta foi fora dela.
O árbitro argelino Dajamel Hamoudi vai na onda e Van Persie, que brigou pela jogada, bateu bem a penalidade, no ângulo esquerdo de Julio César. Holanda 1 x 0. Thiago Silva, pela falta, deveria ter sido expulso.
Foi o centésimo gol sofrido pelo Brasil em copas do mundo.
E estava fácil. 13 minutos depois do primeiro gol, Holanda faria 2 x 0 sobre o bando brasileiro.     
Mais uma vez com Robben pelo meio. Ele enxergou a ‘Avenida Maicon’ e brindou a incursão pela direita de Johnatan De Gúzman, impedido. A arbitragem errou mais uma vez e o ala canadense naturalizado holandês fez o cruzamento. David Luiz cabeceou errado para o meio da zaga. O ótimo Daley Blind, um dos destaques da copa, recebeu o presente, amaciou com o pé esquerdo e bateu com o direito. Belo gol.        
Foi uma boa partida para se mostrar o abismo tático que separa o treinador da seleção brasileira do futebol de ponta praticado hoje entre seleções de alto nível.
Porque a Holanda atacava e se encolhia, esperava como o adversário iria se comportar para dar seus botes longos com o avanço dos alas e a velocidade de Robben. Porque havia rotação de jogadores versáteis como Blind e Kuyt.
Porque havia sete a oito tipos de construção de jogadas, a depender do como o Brasil se apresentasse.
Os moços de amarelo só levavam perigo em lances de bola parada. Os de azul, sobravam em campo.
Poderia ter saído com quatro gols de vantagem em 45 minutos.
Nos vinte iniciais do segundo tempo, houve melhora brasileira no esforço de Oscar e só. Porque quando quis, a Holanda matou o jogo. E foi um golpe final.
Do mesmo carequinha, o dono dos laranjas, incansável entre os exaustos. Era mais uma assistência do rotativo Robben. Com a bola recebida em velocidade, Janmaat venceu Maxwell na corrida e cruzou. O volante Wijnaldum, livre fechou a conta. Aos 90 minutos, Holanda 3 x 0 Brasil.
No bagaço, o elenco holandês conquistou o terceiro posto no Mundial. 
Na bagunça, o defasado futebol brasileiro dá adeus.
Esperamos que com essa bagaceira, um adeus para nunca mais.
Mas sabe o que fica mesmo para esse escriba? 
Cheiro de laranja podre perdida na estrada.
Espero que estejamos errados.

Foto: Getty Images

A CAIXA 107


A não ser que a final entre argentinos e alemães seja um espetáculo de botinadas, Brasil e Holanda disputam o “título” de seleção mais violenta da vigésima copa do mundo, daqui a pouco, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. 
Ao longo de seis jogos disputados, as duas seleções que definem a terceira colocação tiveram comportamentos bem parecidos no combate à criatividade de meio campo e ataque adversários.
Pelo lado brasileiro, jogadores como Luiz Gustavo, Fernandinho, Marcelo e Paulinho miraram mais pernas do que bola nos embates.
Luiz Gustavo foi o mais faltoso nessa escalação constrangedora para quem curte futebol bem jogado.
O mesmo pode se dizer de Blind, Indi, De Vrie e De Jong quarteto que abriu sua caixa laranja de ferramentas no torneio.
O Mundial premia quem procurou jogar bola. Alemanha e Argentina juntas cometeram 135 faltas. Hermanos com 64 e germânicos com 71 infrações. 
Só a Holanda fez 106.
Brucutu, o Brasil de Hulk bateu uma vez mais: 107.
Infelizmente, caro leitor, por mais que esse número lembre um placar que você queira esquecer.
Curioso é constatar que a seleção brasileira além de ser a que mais bateu, foi também a que mais apanhou: 109 faltas recebidas.
Mas vergonha mesmo é saber que quem vestiu este uniforme em 2014, apanhou na verdade foi da bola. 
E como é uma tremenda falta de respeito este jogo de terceira ser disputado em um estádio que homenageia Garrincha, nosso eterno anjo das pernas tortas. 
Esse apanhou muito de pernas de pau. Mas a pelota, conhecida entre os mais antigos como balão de couro, era o seu pincel e as quatro linhas, moldura para obras primas.

Ilustração: Casso

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A ARGENTINA E O DEVER DE TODAS AS COISAS


Sergio Romero defende dois pênaltis holandeses e coloca a 
Argentina em uma decisão de copa do mundo pela quarta vez

Em uma quarta-feira chuvosa e de cinzas para o futebol brasileiro, Argentina e Holanda decidiram qual seleção irá enfrentar a Alemanha na final da vigésima copa do mundo.
Em um nove de julho, feriado da revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo.
Em um nove de julho, data da independência da Argentina.
Em campo, a força do melhor ataque das fases anteriores, o laranja, contra o selecionado mais disciplinado, o albiceleste.
Deu Argentina com todo o drama.
Com chuva, suor e lágrimas.
Depois de mais 120 minutos de bola rolando e de tiros livres da marca do pênalti.
O goleiro Sergio Romero, iluminado, pegou duas penalidades. Maxi Rodriguez converteu a quarta cobrança elevando compadritos e portenhos à sua quarta final em copas do mundo
Uma peleja com final imprevisível que, se não foi uma espetáculo de técnica, teve roteiro de semifinal.
E premiou a seleção que apresentou um futebol mais coletivo e afinado.
Porque a Argentina  teve, ao lado da Alemanha, um dos melhores índices de aproveitamento de passe na competição.
Sabella adotou a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, deu consistência ao setor defensivo. E como perdeu Di Maria para as semi, sacrificou Lionel Messi mais recuado e com uma sombra, o grandalhão De Jong .
Como analisei em outra conversa, o dez hermano se espalhava mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Talento e tática foram perdidos com a ausência de Angel.   
E para quem não acreditava, o sistema defensivo foi decisivo contra os apagados holandeses.
Robben até que tentou decidir nos minutos finais do tempo normal e da prorrogação. Mas lá estava o desarme espetacular do principal jogador na partida ao lado do arqueiro Romero e um dos preferidos do Papa Francisco: Javier Mascherano, absoluto.
A defesa latina levará para a final no Maracanã uma incrível invencibilidade de 373 minutos sem tomar gols com bola rolando.
O resultado de 4 x 2 nas penalidades leva a Argentina a repetir as finais de 1986 e 90 contra a Alemanha. Com um título para cada lado. 
Será um revanche que premia quem passa mais e acerta.
Quem chega à final passe por passe ocupando espaços.
Um futebol estratégico.
Um futebol que deu certo nesta Copa, passo por passo até o duelo final.
No caso dos nossos vizinhos, com chuva, suor e lágrimas vencedoras de uma quarta-feira, nove de julho de 2014.
Em nove de julho nascia uma bela argentina, Mercedes Sosa.
Em nove de julho morria um belo brasileiro, Vinícius de Moraes.
Após o embate em Itaquera.
Se estivesse no estádio paulista, Mercedes que amava o Brasil, por certo adaptaria e soltaria a voz: 
- Graças ao futebol que me deu tanto, me deu o coração que agita o seu marco. 
Se estivesse na São Paulo chuvosa, Vinícius que amava a Argentina
brindaria os teus versos:
- São demais os perigos também no futebol para quem tem paixão.
E é um dever de toda seleção honrar o seu país com paixão e entrega.
Porque outro argentino escreveu um vez que o dever de todas as coisas é ser uma felicidade.
Foi Jorge Luis Borges que, aqui pra nós, odiava futebol.
A América vive na copa.
Parabéns, hermanos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

8 DE JULHO DE 2014


Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Semifinal da copa do mundo entre Brasil e Alemanha. 
Perto da metade do primeiro tempo, em um intervalo de sete minutos,o sonho do hexa caiu na real. Um pesadelo histórico e humilhante.
Foi uma aula de futebol contemporâneo dada por uma Alemanha exuberante em Minas Gerais e ponto.
E foi uma cônica de um fracasso anunciado de uma seleção comandada por um treinador ultrapassado e sem repertório. Foi a atuação mais medíocre do selecionado brasileiro em toda a sua história.   
Escrevemos em outras crônicas sobre a forma da Alemanha jogar. A determinação tática, a rotação triangular do seu meio-campo. As inversões perfeitas Khedira e dois cracaços de bola, Bastian Schweisteiger e Toni Kroos. A  transformação em quarteto fantástico com a presença de Thomas Müller. 
Não vou me estender. Basta o amigo leitor rever os gols decisivos para a construção do placar. Do segundo ao quinto em sete minutos. O 7x1 final foi pouco. Errou Luiz Felipe ao escalar Bernard? Leiam, por favor, a crônica “Quatro times e um desejo” escrita anterior ao jogo. 

Em 30 minutos, voltamos 32 anos. 
No intervalo desta humilhação de 2014, quando o placar já escancarava 5 x 0, construídos em um espaço de 30 minutos, lá estava um garotinho aos prantos na arena mineira    
Lembrei das lágrimas mais famosas do futebol brasileiro. O menino de olhos perdidos, no dia 5 de julho de 1982. a seleção de Telê Santana perdia da Itália por 3 x 2 e estava fora daquele mundial .
A tragédia do Sarriá, o acanhado estádio espanhol, foi o começo de uma derrocada do futebol brasileiro.    
A geração de Zico, Falcão e Sócrates afundava, mas ali também começava a capitular um modelo de administração desportiva arrojada, sob a batuta de Giulite Coutinho. 
A partir dos fracassos de 82 e 86 entrava em cena, em 1989, a figura desprezível de Ricardo Teixeira, sob a tutela aristocrática de João Havelange.
Os párias tomaram o poder e construíram poderes encastelados, jogadores supervalorizados, cifras astronômicas. Superlativas. Foram criados em série dirigentes de clubes mal preparados. Ganância virou cultura. Administrações nebulosas se multiplicaram.
O formato administrativo e absolutista de grupelhos controlando o destino do que representa a paixão nacional persistia e ainda persiste com as figuras da administração atual da Confederação Brasileira de Futebol.   
Duas copas do mundo foram conquistadas, sim. Mas os adjetivos foram exagerados para o futebol jogado. 
Escondeu-se a morte anunciada.
E ela apareceu convulsiva na França 1998.
Em uma chuteira amarrada fora da hora na Alemanha 2006.
Em uma defesa bisonha na África do Sul 2010.     
Falsos heróis, choros vazios, contas abarrotadas.   

Em 90 minutos, um vexame em 100 anos
A aula de futebol da seleção alemã carimbou no uniforme verde e amarelo o maior vexame da seleção brasileira em 100 anos de história. E na copa disputada em território nacional.
Foi a maior goleada sofrida pela seleção, superando o placar de 1920. O Uruguai nos venceu por 6x0 no campeonato sulamericano em 18 de setembro daquele ano. 
É a maior goleada até agora sofrida por um selecionado brasileiro em copas.
Uma das maiores na história dos mundiais
Se outras seleções caíram de pé nesta copa, como a Argélia, Chile, Colômbia e a Costa Rica, este futebol brasileiro foi enterrado em Minas Gerais. 
Não é exagero e não é de hoje. 
Não podemos esquecer dos passeios do Barcelona sobre o Santos - 4 x 0 na final do mundial de 2011 e 8 x 0 no amistoso de 2013.
Avisos, não.  
A realidade nua e crua. 
O desastre real de um modelo fracassado.   
O sonho acabou e o pesadelo continua.
Resta buscar a dignidade, ainda que perdida. 
Hora de mudar para renascer.
Porque este tipo de futebol brasileiro morreu em 08 de julho de 2014. 
E não vamos esquecer jamais. 

PEDRO, UM BRASILEIRO


Não conheço jornalista esportivo que não seja apaixonado.
Paixão verdadeira pelo que faz e por sua fonte de inspiração.
Seja em um dojô, em uma mesa, em uma quadra, em uma piscina, em um campo de futebol. 
Seja pendurado em um telefone, no calor de uma entrevista, na investigação, na frente de um teclado, de um microfone ou de uma câmera.
Ao levar dos anos, quando o caminho natural da profissão conduz o nosso olhar para horizontes mais críticos, esta paixão continua.
Por mais que a frieza de textos crus e gráficos cartesianos batam à porta. Por mais que a gente tenha que discutir a relação.
Quando vivia na labuta das redações, fechava os cadernos esportivos e preparava colunas semanais de um jornal em um período e conduzia um programa de TV na área cultural em outro. Dia & noite. Noite & dia.
Era rotina implacável para se buscar o diferencial.
E era comum procurarmos outros ambientes, fora do jornal ou da TV, para de caneta em punho, traçarmos títulos e textos. Sacadas e temas. Roteiros e pautas.
Um desses cantinhos da velha Salvador era o Trailler do Gaúcho, pertinho da orla.
Dalí saíram centenas de títulos, pautas e crônicas para a TVE baiana ou o Bahia Hoje, diário impresso que tinha um caderno de esportes de responsa. Por lá passaram os caros Alan Rodrigues, Cândida Silva, Cleusa Duarte, Cristina Mascarenhas, Flavio Novaes, Kajá, Paulo Lafene, Paulo Leandro, Renatinho Ferreira...    
Enquanto almoçava ou jantava “o melhor sanduíche do planeta”, tascava no papel garranchos para utilizar depois. 
Era engraçado: títulos e crônicas para o jornal na hora do almoço. Roteiros, comentários e pautas para TV na madruga durante o jantar...
Pedro era o gaúcho, responsável pelo lugar e pelas receitas estupendas dos “sandubas pampeiros" que matavam a fome desse escriba e de tantos notívagos. Criaturas da noite.
O grande camarada Pedro, clone do ator Jonas Bloch, foi testemunha das minhas alegrias e de tantas aflições de ter à sua frente uma folha em branco e o vazio cruel de não sair nadinha da cachola. 
Em uma dessas torturas madrugadeiras, vendo o amigo distraído em apuros, precisando de um tema, de um mote,  Pedro tentou me ajudar.
E contou a sua história. 
Refastelou seus quase dois metros na “mesa da diretoria”, ajeitou a velha boina, e com a típica postura imponente, desandou a narrar.    
Estudante de Arquitetura & Paisagismo, Pedrão se mandou de mochila e cuia para a Alemanha querendo mudar o mundo.
No final dos anos de 1970, perambulou por Frankfurt, Berlim, Munique. Bavieras...   
Com alemão fluente, nas horas vagas era guia e tradutor de vários brasileiros, entre eles diversos escritores, que beberam e muito na fonte cultural germânica a partir da presença solidária do grandalhão.
Escrevi uma vez que para um abismo muda-se uma letra.
Foi o caso do solidário Pedro, um gaúcho solitário.
Ao relento das lutas inglórias em um país distante, das batalhas interiores, do abandono, nosso personagem resolveu pegar o caminho de casa.       
Voltou para sua cidadezinha de fronteira na pontinha do Brasil.
Ao Pedro, o levar dos anos trouxe couraças,  endurecimentos e um olhar pra lá de desconfiado. Foram várias as decepções vividas em terras alemãs, provocadas por falsos amigos brasileiros.
Na pontinha do Rio Grande, em um fim de tarde chuvoso e frio, chegou uma carta para ele. O selo tinha a banderinha da Colômbia. Era 1990.
As linhas escritas por um garoto de oito anos apresentavam ao Pedro o seu filho, gerado de um romance regado à boemia e aos encantos de Munique com uma bela morena de Bogotá, durante a copa de 1982.
Juan Pedro, se não me falha a memória era o nome do garoto, escreveu a carta porque queria conhecer o pai. E o Pedro não sabia que tinha um herdeiro. 
Naquele momento e já passava das duas, vi o nosso amigo prender a respiração. Ia argumentar alguma coisa e ele não me deixou abrir a boca.
- Calma lá, guri. Deixar continuar, senão não termino, tchê.
E ele seguiu no relato.
Depois de ler a carta, não pestanejou. No outro dia, pegou suas economias, investiu em um trailler. Engatou em uma velha Caravan e partiu do sul do Brasil rumo à Colômbia.
A determinação do velho amigo rendeu o encontro, a emoção de conhecer o filho e a mudança de sua vida.
Isto porque no seu retorno de terras colombianas, por causa do fruto de um romance na Alemanha, com destino à pontinha do Brasil, a velha Caravan não agüentou e ele parou na Bahia.  
E por aqui ficou, montou o point dos notívagos, dos músicos, dos escribas apaixonados, dos jornalistas na labuta diária.
Conheceu este velho amigo, que às três da matina daquela madrugada, tentava esconder lágrimas teimosas que rolavam depois de ouvir a narrativa .
Na Bahia, Pedrão viu o seu Brasil cair em 1990, ganhar o tetra em 94, perder para os franceses em 98.
A última vez que tentei encontrá-lo foi em 2002, logo depois do Brasil vencer a Alemanha na final da copa do Japão. 
Não o achei, nem nunca mais o vi.
Como nunca contei essa história.
Hoje lembrei dela.
Não sei se esse brasileiro fora de série, mora na Colômbia com o filho, retornou à Alemanha, sua segunda paixão, ou continua naquela cidadezinha na pontinha do nosso Brasil.
Por certo onde estiver, plantado ansioso esperando a bola rolar para Brasil x Alemanha.
Por certo, estará feliz. 

Ilustração: Janice Lucier

segunda-feira, 7 de julho de 2014

QUATRO TIMES E UM DESEJO

Quatro seleções da primeira linha do futebol mundial 
ainda correm atrás da bola para levantar esta taça 

25 dias depois (passa rápido, não?) este objeto de desejo é disputado agora por quatro sobreviventes na melhor copa dos últimos 60 anos, pelo menos. 
Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda  colocam duas revanches, vinte decisões e dez títulos em jogo nas duas partidas semifinais do mundial de 2014.
Escrevemos as seleções em ordem alfabética por uma razão bem simples. Ninguém é dona da cocada preta nessa hora de onça sedentas.
São fortes e tradicionais, robustas, mas nenhuma chega como rainha do pedaço.     
O modo ultra competitivo no qual se desenrola este mundial provocou uma alternância natural no desempenho das seleções no torneio.
No futebol contemporâneo é quase impossível você ter uma formação de jogadores que tenham performance linear em uma partida, que dirá em uma competição. Seja ela curta ou longa.
Os jogos disputados no mundial do Brasil são a maior prova disso.    
A oscilação é normal e aumenta mais a partir da competitividade e em diversos graus de dificuldades no campo ou fora dele.  
Não gosto e nunca fiz comparações de times com seleções.
São formatos de grupos com históricos, culturas e lógicas diferentes.
Mas isso não impede de constatações óbvias. Por um lado, em um clube você pode ter uma seleção dos melhores do mundo em cada posição, casos recentes de Barcelona Bayern e Real Madrid.
Por outro, nesta copa do mundo seleções tradicionais se apresentaram como times bem montados por seus treinadores. Casos de Alemanha, França e Holanda. E outras, sem relevâncias teóricas como Costa Rica e Argélia e que, partindo da mesma análise do coletivo poderiam, sem surpresas  na prática da competição, ir mais longe... A Costa Rica quase consegue. 
Vale a relação até aí. 


SUPER SEMIS
Vamos aos semifinalistas.
A seleção holandesa é um time de aproveitamento ativo. E essa qualidade deve-se a seu treinador. Dos 23 atletas laranjas convocados, Louis Van Gaal utilizou 20 em cinco jogos, Todos com a estratégia de mudar o repertório tático durante pelejas. Uma marca a ser guardada por treinadores brasileiros.
A Holanda é a melhor em gols marcados e a segunda mais faltosa.
Tem o futebol mais vibrante entre as quatro bambambans.  
É da Holanda o melhor jogador da competição. Robben.
Mas não é o bastante para cravar que vai derrubar a Argentina.
E os hermanos?
E a perda do Di Maria?
Em proporção, pode ser até pior para os argentinos do que a ausência de Neymar para o Brasil. Explico daqui a pouco 
Enzo Perez e Rick Álvarez disputam a vaga de Angel.
A Argentina  tem um dos melhores índices de aproveitamento de passe no mundial. Lionel Messi está mais competitivo, Sabella adota a cultura coletiva e a entrada de Biglia ao lado de Mascherano, liberou mais Leo. O dez hermano se espalha mais em campo. Mas tinha a segurança na construção de jogadas  e na proteção de Di Maria como volante, muitas vezes. Em ótima fase, Angel Di Maria e sua lesão  causam dor de cabeça dupla em Sabella. Talento e tática são perdidos com a sua ausência.   
Vale ainda lembrar que a Argentina, além de ser a segunda em passes efetuados, é a mais disciplinada com a ótima média de dez faltas por jogo e cinco amarelos recebidos. Só a Alemanha recebeu menos tarjetas, quatro.
Os dados se completam e traz frase prontinha e cristalina. 
Quem passa mais, bate menos. 
E essa máxima explica, em parte, o sucesso de argentinos e, claro, também dos alemães.
Vamos ao adversário do Brasil nas semifinais
A eficiência da Alemanha no controle do jogo beira nessa copa a repeitável marca de 85% de passes certos. 
A rotação precisa de Khedira, Schweisteiger e Kroos multiplica o repertório alemão e cresce ainda mais quando Thomas Muller recua e completa a faixa de criação de jogadas.
A Alemanha vem forte e em alto astral.
E para você, amigo leitor deste Café, sabedor desde o início que Manuel Neuer atua como líbero, este escriba acredita na performance do goleiro do Bayern mais debaixo do três paus, como foi a atuação contra a França.
É jogo para ficarmos de olho em outra fera: Bastian Schweisteiger. Pode desequilibrar. 
Mas e o Brasil, caros amigos?
A seleção do ex-zagueiro Luiz Felipe é a mais violenta entre as quatro semifinalistas da copa do mundo com 95 faltas e a campeã em cartões amarelos, com 10. Só contra a Colômbia pelas quartas de final, os canarinhos fizeram 31 faltas, das 54 do jogo. Mais parecem galos de briga.     
O Brasil que chega às semi é a pior em passes e a segunda melhor em gols marcados ao lado dos alemães com dez tentos.
Quem esperava técnica, vê força copeira.
Quem esperava atacantes decisivos, vê zagueiros brilhantes decidindo jogos. 
Mas sem Thiago Silva e Neymar?
Além da mudança com os substitutos, há uma obrigação de Scolari e seus comandados: a mudança de atitude, de tática e de passar uma borracha no circo dos últimos dias.


CIRCO GROTESCO
Primeiro vamos torcer o nariz.
Em um espetáculo patético, sem noção mesmo, houve uma cobertura exagerada sobre as consequências de um lance duro, mas um acidente de percurso, que tirou Neymar da copa do mundo.
Houve um linchamento público, medíocre e covarde do limitadíssimo lateral colombiano, responsável pela contusão do craque brasileiro.
E Neymar, de jogador sensacional virou fonte para sensacionalistas.     
Ao que se apresenta, o que chamávamos de jornalismo é tratado como fotonovela bizarra, dramalhão de quinta, tribuna de exceção, comédia caricata e ópera bufa.
De um “vá em paz”, dito por uma repórter em cobertura ao vivo, quando o atleta lesionado saia de helicóptero da Granja Comary a um “me salva, Neymar”, quadro espantoso de um programa de TV, as bizarrias não foram poucas.
Um exagero lacrimoso, oportunista e, repito, sem noção.    
Até porque, ninguém morreu.
O jornalismo, esse sim todo quebrado, coitado, agoniza. 


PROMESSA SE PAGA
Mas vamos deixar a vergonha alheia de lado e tratar do que prometemos linhas atrás. 
Há uma tendência, que não descarto, na melhora do padrão de jogo da seleção sem Neymar. Por vários fatores. Entre eles, o aumento no número de passes na seleção, o futebol coletivo falar mais alto, o rendimento de Oscar aumentar e o Fred finalmente dar o ar da graça.
Utilizaria William no decorrer do jogo, mas iniciaria com Paulinho ao lado de Luiz Gustavo. Manteria Fernandinho mais rotativo, liberando Oscar para a criação e o elo com Hulk e Fred. Maicon e Marcelo seriam alas concretos. Sim, pelo que vimos no torneio, prefiro Maicon a Daniel. 
E mais. É jogo para ímpeto, atitude e personalidade. 
Porque o Brasil precisa vencer o meio campo alemão sem a presença do seu craque.
Porque o Brasil precisa cansar gente muito talentosa e determinada do outro lado. 
Na força leal, no passe certo, na bola redonda e com nervos no lugar.


O FUTEBOL AGRADECE A COPA 
Nenhuma das quatro seleções encheu os olhos desse escriba.
Todas perderam antes ou durante a copa, craques que poderiam fazer a diferença. 
Todas passaram por altos e baixos e não há fantásticos nem favoritos para a final.
O que nos agrada, sinceramente.
Assim o futebol segue com suas improbabilidades. Com tua magia real. 
Por vezes encantadora, outras vezes cruel, para sempre marcar um golaço em velhos e novos corações.
O futebol muda em nuances, margeia o indefinível. 
Qual de nós sobreviveria, se perguntado há tempos atrás, na véspera de duelo entre Brasil x Alemanha respondesse que o futebol-força seria dos brasileiros e o futebol arte, dos alemães?
Certamente iria fazer uma ponta em fotonovela chinfrim, uma comédia caricata das piores ou uma lamentável ópera bufa.

Foto: Getty Images

sábado, 5 de julho de 2014

A COPA NÚMERO UM

Louis Van Gaal abraça sua arma secreta para disputa de tiros livres. Tim Krul defende 
duas vezes e leva Holanda às semifinais contra a Argentina, reedição da final de 1978. 

Na copa de 1990 o ótimo goleiro Luis Conejo, da Costa Rica, foi eleito o melhor da posição ao lado do argentino Goycochea.
24 anos depois, o seu pupilo Keylor Navas, se não repetir o feito do mentor Conejo, vai estar presente em uma almejada galeria de mundiais. A dos grandes goleiros.
Nesta copa número um, você pode escolher: Tim Howard (EUA), Júlio Cesar (Brasil), Ospina (Colômbia), Courtois (Bélgica), Neuer (Alemanha), Bravo (Chile), Ochoa (México) e, óbvio, Keylor Navas, da valente e invicta Costa Rica.
Difícil a escolha, não é?           
Como é difícil ser goleiro nesta vida.
Porque vale sempre repetir uma velha paródia: 
Vida de goleiro é difícil, é difícil como quê... 
Difícil e injusta.
Como o futebol e suas múltiplas possibilidades.
Com os teus encantos cruéis.
Foi assim com o ótimo arqueiro costarriquenho.
Não é exagero descrever o duelo de 120 minutos entre Holanda e Costa Rica de um time contra um homem só.
Navas simplesmente fechou o gol diante de um esquadrão laranja montando por Louis Van Gaal. 
Foram três atacantes no primeiro tempo: Arjen Robben, Van Persie, autênticos, e Sneidjer, meia avançado.
Aos 30 do segundo tempo, o estrategista holandês tira o meia Depay e coloca Lens, o quarto atacante.     
Na virada de tempo da prorrogação, não teve conversa: remontou sua equipe, arriscando o quinto homem de área, Huntelaar sacando o zagueiro Mathias Indi.
E foi uma saraivada de ataques quando não defendidos, bola batendo nas traves, salva por zagueiro em cima da linha. Sacos e sacos de laranjas e Navas dando boas novas:
- Aqui não passa nada!. 
Para esse escriba, não foi o melhor 0 x 0 que assistimos. Até porque só um selecionado atacou. Mas foi bom de ver o Navas, em luta solitária pela sua Costa Rica. Foi bom de ver o amplo repertório tático dos ataques holandeses.
Bom de ver Robben jogar.
E, antes de tudo, para se ter um vencedor justo na ciência das quatro linhas, é sempre bom de ver um treinador inteligente no banco de reservas.
Já escrevi sobre Louis Van Gaal no nosso Café na Copa.
O técnico holandês já utilizou 87% dos seus 23 jogadores escolhidos para o mundial.
No último minuto da prorrogação, Van Gaal colocou o seu vigésimo atleta convocado para entrar em campo.
O terceiro goleiro, Tim Krul com seus 1,93m e uniforme verde.
Uma mudança arrojada, corajosa de Van Gaal.
Madura.
Vale ressaltar: o titular Cillisen se saiu contrariado, mudou de ideia rapidinho. Krul, goleiro do Newcastle, é especialista em cobranças de penalidades. Era carta na manga para as cobranças dos tiros livres.
O estilo de Krul lembra muito o de Waldir Peres, goleiro do São Paulo e da seleção nas décadas de 1970 e 80.  O goleiro malandro, iconoclasta, abusado e... pegador.
E foram as excelentes defesas frente às tentativas de Bryan Ruiz e Umaña que garantiram a ida da Holanda para as semifinais de uma copa do mundo pela quarta vez.   
A despedida da Fonte dos Gols da copa foi em uma tarde de goleiros.
Claro, uma tarde número um.
Viva Navas.

Foto: Sergio Moraes/Reuters